O FED será paciente e tem um cenário misto pela frente.

O comunicado divulgado após a reunião do comitê de política monetária do FED foi claro: subirá os juros de forma paciente, procurando confirmar se as melhoras nos mercados de trabalho e nos preços são consistentes com seus objetivos de longo prazo. Mas as expectativas coletadas para o ano que indicam muita dispersão e dão a impressão de um mercado dividido e cheio de incertezas. O aumento da volatilidade mostra que podemos estar diante de uma mudança nesse longo ciclo de altas do S&P500.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A decisão do Federal  Reserve,  de manter os juros em zero, sinalizou uma saída bem tranquila do programa de estímulos Quantitative Easing. Os mercados têm sido torpedeados pela falta de ação dos bancos centrais da Europa, China e Japão, que veem suas economias em forte desaceleração e não fazem nada.

O comunicado da decisão do Federal Open Market Committee, instrumento importante para a operação da política monetária, pontuou que as condições econômicas têm melhorado a um ritmo favorável, com maior dinamismo nos investimentos das empresas e gastos das famílias, e menor ritmo no mercado imobiliário. O Comitê observou que o mercado de trabalho tem apresentado melhoras substanciais, tanto na geração de empregos como na queda do desemprego. A inflação ainda persiste em patamar abaixo da meta de longo prazo do Comitê, que é de 2%, sobretudo por conta dos efeitos da queda dos preços de energia (petróleo!). O Comitê considerou que a melhora rápida do mercado de trabalho deve levar os preços até a meta de longo prazo e que as expectativas de inflação estão bem ancoradas.

Tudo isso o Comitê já vem falando. O que mudou é que agora é a orientação (guidance) para a implementação da política: o Comitê considera que o nível atual dos juros, entre 0% e 0,25% é apropriado e que definirá o tempo em que os juros ficarão nesse intervalo a partir de suas avaliações em relação aos progressos dos mercados de trabalho rumo ao emprego máximo e dos preços aos 2% de inflação. Se o emprego atingir seu máximo (isso ocorrerá quando os salários começarem a subir à taxa de inflação + produtividade, mais ou menos 4,5% por ano) ou a inflação bater os 2%, o Comitê começará a subir o intervalo dos juros, que hoje está em 0% - 0,25%. Mas o Comitê alerta que esse movimento deve ser PACIENTE. O Comitê considera que os objetivos serão atingindo antecipadamente em relação ao que se esperava na reunião anterior. Mas, se ocorrer o inverso, se os preços não subirem e nem os salários, o Comitê não subirá antes do tempo.

Eis o que o FED falou: se os salários subirem e a inflação também, os juros subirão, mas de forma PACIENTE, suave. As apostas são de que os juros ficarão em 1,125% no final de 2015 e em 2,5% no final de 2016. É  muito pouco juro para um país que tem uma taxa que oscila entre 4% e 6%. É que os preços realmente estão andando pouco e não há perspectiva de que melhorem. Lembrem que há a tese de Laurence Summers que vê a economia andando muito devagar por muito tempo! (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/12/commodities-comecam-semana-em-queda.html ). Houve três votos contra: dois foram de falcões que sempre querem os juros mais altos, R.Fischer e C.Plosser; e há Narayana Kocherlakota que varia entre posições extremamente altistas de juros (no passado) para muito baixistas (no presente). Em sua entrevista após a reunião, Janet Yellen deu a impressão de que poderá subir os juros a partir da terceira reunião do ano que vem.

Mas o viés ainda é baixista se levarmos em consideração que a economia global está em desaceleração e que isso não mudará de forma espontânea. Zona do Euro, China e Japão precisam fazer alguma coisa para melhorar.

O resultado foi a euforia dos mercados e um possível rally de fim de ano.

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O site de finanças Market Watch divulgou pesquisas de previsão para 2015. Eis a pesquisa para o S&P500:

 

São casas grandes e que têm muita influência. Mas me chama a atenção a enorme dispersão entre as estimativas (vão de 4% a 15%) e a perspectiva modesta para as altas do ano que vem. Parece que os analistas estão mais tímidos após o super-rally que fez com que o S&P500 dobrasse de valor nos últimos anos de juros baixos. Mais que isso, todos esperam uma volatilidade elevada no ano que vem. Previsões modestas e muita volatilidade indicam que os analistas estão mais pessimistas com as bolsas do que estavam no fim do ano passado e início desse. Vejo essa postura com um indício que de que as ações serão um negócio polêmico no ano que vem no hemisfério norte. Veja o gráfico semanal do S&P500:

S&P500 Semanal

 

Em 2014, até hoje, o S&P500 está com alta de 12,6%! E a volatilidade, que mede a aversão ao risco (na verdade mede o quão confuso o mercado em relação ao futuro) está elevada. Veja o gráfico do indicador de volatilidade das bolsas dos EUA, o VIX:

Índice VIX

 

O mercado viu o VIX cair para perto de 10 e considerou que estávamos em uma “nova era”, marcada pela baixa volatilidade. Toneladas de papel e bilhões de bilhões de TB foram gastos em relatórios e trabalhos acadêmicos que indicavam um período de “congelamento” das expectativas e que dos riscos por conta dos juros muito baixos. Mas foi por pouco tempo, se olharmos a história em retrospectiva. Nas últimas semanas o VIX explodiu e superou o 20, indicando que as coisas podem estar voltando ao seu “normal” (o que é normal nos mercados?). Vale lembrar que volatilidades altas são típicas de mercados pessimistas e prenunciam quedas nos preços dos ativos.

Além dessas estimativas, o site mostrou a pesquisa que o Merril Lynch fez com vários gestores de fundos e obteve as seguintes indicações: fique fora de qualquer coisa relacionada a energia; compre Japão e Europa. E isso é confuso! Se você deve ficar fora de energia é porque a economia global crescerá pouco. Se a economia cresce pouco fica difícil entender porque Zona do Euro e Japão estão baratos.

Mas, como economista e analista de mercado, entendo as dificuldades das projeções lá de cima. O próprio FED está dificuldades para entender exatamente o que pode ocorrer em cinco semanas, antes que ele se reúna em novo Comitê de Política Monetária. O que dirá para os próximos doze meses. Há um leque de coisas favoráveis, como a recuperação dos salários e empregos nos EUA, a queda dos preços de energia e seus efeitos benéficos sobre a renda global e a disposição do FED em manter-se cauteloso. Mas os riscos oriundos da fraqueza da Zona do Euro, das quedas das matérias primas, da desaceleração das economias emergentes, da China e do Japão não são desprezíveis.

É fácil entender porque os analistas estão tão dispersos e porque o otimismo de Yellen é moderado e deixa as portas abertas para um cenário muito pior.

 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com