Cisne negro ou bode expiatório?

A Rússia pode ser encarada como um "black swan" que causou uma grande crise. Mas ela está longe de ser o que Taleb sugere em seu livro. A crise começou antes, é mais profunda e supera as fronteiras da Rússia. É uma questão relacionada à desaceleração global, a uma possível nova bolha de crédito e às políticas de austeridade. Não temos aí um cisne, mas um bode.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Há um best seller das finanças publicado pelo americano N.N.Taleb chamado “Cisne Negro”. Segundo o livro há eventos que não são esperados (a probabilidade de sua ocorrência é baixa) mas que ocorrem, e quando ocorrem geram impactos consideráveis e passam a determinar as expectativas dos agentes.  Implica que as crises não são previsíveis e que gerenciar riscos é uma tolice. Apesar de sua popularidade e da enorme atração que exerce em nosso intelecto, não podemos levar em conta que as enormes crises que vivemos nas últimas décadas tenham ocorrido de algo inesperado, algo como os choques exógenos da teoria econômica. Ao contrário, apesar dos intensos avisos, de um enorme esforço de pesquisa, da enorme compreensão dos eventos econômicos, as crises ocorreram. Não foram inesperadas ou surpreendentes - algo que estava fora de nossos modelos ou que tenha caído do espaço. Pensar no mundo como habitado pelos “black swans” é dar à trajetória econômica uma propriedade de evento aleatório, acidental ou caótico. É algo que pode estar ocorrendo a alguém que veja o derretimento global como consequência de um conflito militar entre a Rússia e o Ocidente: eis algo que não estava nos modelos dos economistas! Mas não é bem isso. A Rússia é apenas mais um gatilho para uma crise que já estava “encomendada” há muito. Convido à leitura:

Blog – 17/jan/2014: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/01/o-brasil-e-o-cinco-frageis.html

Blog – 26/jan/2014: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/01/um-band-aid-para-super-cries.html

Blog – 17/fev/2014: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/02/o-otimismo-irracional.html?spref=fb 

O convite é feito não para que o leitor aprecie textos de grande capacidade explicativa. Na verdade, creio que eles ajudam a identificar os traços bem claros dos problemas atuais nas discussões da época.

O problema atual, a queda do petróleo, é um problema relacionado à queda das matérias primas em geral. E elas caem fortemente porque a economia global está fraca, impondo forte desaceleração aos países emergentes, que passam a ficar mais vulneráveis, seja porque têm um déficit em conta corrente, seja porque as suas empresas tomaram mais de US$ 1 trilhão emprestado junto ao sistema financeiro global. Agora que as economias dos emergentes passam a ficar mais vulneráveis, suas moedas derretem e as suas empresas passam a ter um duplo problema: as suas receitas desabam por conta de preços deprimidos e as dívidas referenciadas em dólares explodem por conta da desvalorização cambial. Veja o caso exemplar da PIMCO, administradora do gigantesco grupo alemão Allianz. Ela tem um fundo dedicado a títulos dos países emergentes, no valor de de US$ 3,3 bilhões segundo a Bloomberg. Desse total, cerca US$ 800 milhões estão alocados em títulos de empresas russas. Se são empresas russas, é de  esperar que as mesmas estejam enfrentando queda de suas receitas - já que a economia do país depende fortemente das receitas de exportação de petróleo e matérias primas – e que as suas dívidas externas estejam subindo de valor – já que o rublo se desvalorizou 100% nos últimos doze meses. Os gestores da PIMCO disseram estar tranquilos já que suas apostas são para render frutos no médio prazo, mas não sei se seus cotistas estão tão tranquilos assim. E o que vale para as empresas russas vale para empresas de países emergentes em geral e para empresas americanas que sejam produtoras de matérias primas.

Essa crise da Rússia expõe as entranhas do que pode ser  uma bolha de crédito: por considerar que os riscos estavam muito baixos (por conta dos juros muito baixos), os bancos globais emitiram uma quantidade enorme de empréstimos a empresas produtoras de matérias primas, de países avançados e de países emergentes. Como na crise dos anos 1980, quando os petrodólares eram captados junto aos exportadores de petróleo e enviados para as dívidas da América Latina. Quando Paul Volcker, então presidente do FED, mandou os juros básicos para os 19%, as dívidas dos países latino-americanos viraram pó e, junto com elas, os ativos bancários. Agora podemos assistir a uma enorme perda de valor e ao aumento das inadimplências, das dívidas de empresas de matérias primas.

Portanto não é a disputa da Rússia pela soberania da Ucrânia - um evento completamente externo aos modelos macroeconômicos - que está causando a crise atual. Sob o ponto de vista de Taleb, tudo isso se moldaria completamente às suas teses: Putin é imprevisível, os ucranianos também, o mesmo se fala do bloqueio comercial à Rússia e seus efeitos sobre a sua economia. Mas isso já estava acontecendo antes dos problemas ucranianos. Veja o comportamento do minério de ferro:

 

O minério de ferro vem caindo desde o pico de US$ 184 a tonelada, de fev/2011 e hoje atingiu a cotação de US$ 67,90, uma queda de 63%. E o mesmo acontece com outras matérias primas, o que vem fazendo os saldos comerciais se contraírem nos países emergentes, junto om os resultados de suas empresas. O aumento da fragilidade dessas empresas e países, portanto, não é acidental, pois está associada à desaceleração da economia global. A única coisa que poderia interromper esse ciclo, que vem derrubando cada vez mais o estado de confiança dos agentes, é a manutenção da política expansionista dos EUA, coisa que saberemos mais tarde, após a reunião do FOMC. A única coisa que podemos adiantar: a Rússia está mais para bode expiatório que para um “black swan”. Faltava o motivo para disparar a corrida dos ativos de maior risco. Putin apenas apertou o gatilho.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com