Derretimento contínuo e contágio.

Os mercados já estão avaliando os estragos que as empresas de matéria prima podem produzir a partir de suas dívidas, tanto as localizadas nos países avançados, como nos países emergentes. São mais de US$ 1 trilhão de dívidas em poder de bancos e fundos que podem ter sua avaliação de risco revisada para baixo. As bolsas continuam sua trajetória de derretimento incentivada pela falta de notícias positivas.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje as bolsas ensaiaram uma reação. Os futuros dos EUA e as bolsas europeias tiveram uma manhã sinalizando para os mercados que tudo começava a melhorar. Mas não deu. As coisas não melhoraram em nada no final de semana. Ao contrário, a OPEP sinalizou que não deverá mudar sua oferta nem mesmo quando o barril cair abaixo dos US$ 40. Os dados econômicos divulgados nos EUA foram mistos: a produção industrial subiu fortemente em novembro e a pesquisa Empire Manufactoring, feita pelo FED de Nova York veio negativa, pela primeira vez em dois anos.  E então os mercados viram os preços do Brent despencar e isso bastou para a virada. As quedas já são de mais de 2% na Europa, Brasil e México. Nos EUA o S&P500 caiu mais de 0,5% e está sendo ampliada a percepção de aumento do risco das dívidas corporativas das empresas do setor de matérias primas.

Em relação às dívidas corporativas tenho discutido aqui no blog de forma sistemática: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/02/a-proxima-e-enorme-crise-da-divida.html ( 10/12/2014) ou http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/12/panico-e-fim-da-complacencia-dos.html (9/12/2014) . Boa parte da injeção de vários trilhões de dólares – feitas pelo FED, pelo Banco da Inglaterra, pelo Banco Central Europeu e pelo Banco do Japão - foi parar em dívidas que o sistema financeiro fez para as empresas de países emergentes e empresa de energia nos países avançados.   Com a queda do valor dessas dívidas a tendência é que os ativos dos bancos fiquem mais frágeis e que eles reajam com redução do volume de empréstimos, não apenas a esses setores, mas a todos. Ao reduzirem a oferta de crédito, os bancos aumentam ainda mais a fragilidades desses setores e ameaçam seriamente a recuperação da economia global. Os mercados acionários demoraram a acordar para o que já vinha acontecendo nos mercados de dívida ( http://www.bloomberg.com/news/2014-12-11/stock-traders-ignoring-the-message-from-junk-bond-traders.html ). Agora é claro que haverá (na verdade está ocorrendo) um corre-corre para fugir dos ativos mais arriscados. Aos poucos, as empresas e países que eram vistos como bastante seguros vão se transformando em apostas arriscadas.

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Nos EUA foi divulgada a produção industrial e ela veio em alta forte no mês de novembro. Analistas ouvidos pela Bloomberg esperavam uma alta de 0,7% e ela veio em 1,3%. A utilização da capacidade instalada veio em 80,1%, indicando que o setor industrial está com forte expansão. Veja o gráfico da utilização da capacidade instalada em percentual:

 

Na crise de 2008 ela caiu para quase 65% e vem se recuperando desde então. Essa forte expansão da indústria, dos serviços e da agricultura tem conseguido fazer com que o mercado de trabalho melhore, com a taxa de desemprego caindo abaixo dos 6% e com os salários começando a subir um pouco mais. E por conta disso o mercado está apostando que o FED comece a subir os juros no meio de 2015 e a sinalizar os primeiros passos na redução da oferta monetária que está em US$ 4,4 trilhões, cerca de cinco vezes mais que o normal. Mas, com o mundo tão frágil por conta da China e da Zona do Euro, com a queda das matérias primas e a consequente desaceleração dos países que são seus produtores e com a inflação super baixa nos EUA, é pouco provável que os diretores do banco central americano consigam realizar essa alta planejada. O vice-presidente do banco, o renomado economista Stanley Fischer, falou na semana passada que a alta de 2015 é inevitável. Outro economista importante, professor de Columbia e  ex-diretor do FED na gestão de Ben Bernake, Frederic Mishkin, disse que seria bom que o FED subisse os juros de lima só vez para os seus níveis normais, por volta de 3,5% - 4%, para que os mercados não se assustassem. Mas é cada vez mais provável que a direção do FED tenha um cenário positivo no meio do ano que vem para andar nessa direção. Ao contrário, os sintomas de desaceleração estão cada vez mais evidentes. Teremos uma noção clara a esse respeito na quarta feira, quando a presidente do FED, Janet Yellen, em sua entrevista à imprensa, após a reunião do comitê de política monetária (FOMC), sinalizar as próximas ações.

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A Petrobrás enfrenta mais um pregão de derretimento (chegou a bater quase 10% de queda) por conta da queda petróleo, da alta do dólar e do adiamento (segundo) da publicação da demonstrações contábeis do terceiro trimestre. Apesar de ter mostrado dados do desempenho operacional, de ter sinalizado que sua necessidade de caixa para 2015 está blindada, a empresa não teve êxito em segurar a deterioração das expectativas negativas geradas por mais esse atraso. Ainda que a empresa tenha conseguido a anuência de seus credores em mais esse adiamento (há dívidas que seriam declaradas vencidas se a empresa não publicasse seu balando até 15 de janeiro), a conta da falta de transparência pesou muito mais. Levando em conta que o dólar subiu novamente, chegando aos R$ 2,70, a perda em dólares dos investidores é maior. Veja o gráfico em dólares das cotações da Petrobrás:

Petrobrás em dólares (barra = mês)

 

 

De sua máxima de julho desse ano, ela despencou 67% em dólares. Também estão sob fogo cruzado as empresas do setor de siderurgia, como a CSN (-6,39%), Gerdau (-1,83%) e MMX (-7,69%).

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com