Pânico e fim da complacência dos mercados?

Com a queda de 5,5% da bolsa de Xangai o sinal amarelo se acendeu. Foi a maior queda desde agosto de 2009, com a PetroChina desabando 8% e o Banco Industrial e Comercial da China outros 9%. A erosão da percepção de risco que hoje afeta os mercados emergentes pode contaminar as grandes corporações globais de matérias primas e, na sua esteira, o próprio sistema bancário. Nesse cenário, é bem provável que os bancos contraiam a oferta de crédito para esse setor, determinando o fim da complacência dos mercados.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os riscos percebidos pelos agentes dependem, em grande medida, do nível das taxas de juros. Leve em conta que um devedor gasta parte dos retornos dos seus investimentos com o pagamento de suas dívidas e então a saúde do mesmo depende da relação entre os retornos de seus investimentos e os custos de suas dívidas. Se as taxas de juros caem muito, como caíram nos últimos anos (veja o gráfico abaixo com os juros básicos dos EUA), os riscos percebidos pelos agentes (bancos e todos os compradores de títulos de dívidas privadas) caem vertiginosamente. O mercado passa a ver como menos arriscados, devedores que antes tinham uma classificação pior. Veja o gráfico dos juros dos EUA:

 

Esses são os juros praticados no mercado interbancário e estão em 3,25% desde dezembro de 2008, o menor nível em anos. A manutenção desses juros tão baixos, acaba por empurrar os bancos (e os compradores de títulos privados, pessoas físicas, seguradoras e fundos) a empréstimos com maior risco de maneira a obter algum tipo de retorno em seus ativos, agora inflados pela enorme emissão de moeda efetuada pelos bancos centrais. A corrida do sistema bancário (e não bancário) para esses ativos de maior risco foi chamada de COMPLACÊNCIA DOS MERCADOS. Foi ela que fez com que os bancos inventassem as “estruturas inovadoras” que levaram à crise sub prime que levou o mundo à Grande Recessão. Foram os juros muito baixos que produziram essa corrida às operações de crédito aparentemente seguras, mas que se tornam podres rapidamente, à primeira alta em seus custos. E os custos das dívidas sobem à medida que os juros começam a subir. Além disso, as operações mais seguras podem piorar de qualidade se a geração de lucro ou de caixa das empresas piora por conta de algum evento, como a redução do nível de atividade ou de uma DEFLAÇÃO. Na deflação, as receitas dos devedores caem, mas suas dívidas não: o que antes era uma boa operação de crédito, torna-se rapidamente uma operação candidata ao default, à inadimplência.

Partindo dessas considerações não é difícil imaginar que há setores inteiros que estão altamente endividados e que estão assistindo à piora da percepção em relação à sua “saúde” financeira em função: (1) da queda das receitas derivadas das quedas de preços e volumes de matérias primas (commodities) (2) da perspectiva de alta dos juros por parte do Federal Reserve, a partir do ano que vem.

E talvez seja isso - a percepção de que a dívidas das corporações altamente relacionadas às matérias primas - que esteja por trás das quedas dos mercados nos últimos dias. Hoje a Petrochina caiu 8%, com a bolsa de Xangai derretendo 5,43%, a maior queda desde agosto de 2009. Os bancos globais emprestaram, insisto na questão, US$ 1,2 trilhões às empresas dos países emergentes que agora estão desabando por conta do ciclo de queda das commodities.

E como as empresas produtoras de commodities têm uma enorme relação com o sistema financeiro, é natural que a erosão de sua geração de caixa, por conta da queda dos preços, leve ao aumento da percepção de risco de default por parte dos bancos. Veja como as grandes empresas do setor tiveram suas ações desvalorizadas em relação ao pico de junho:

 

Esse processo que se iniciou em junho, com  a percepção de que a desaceleração sincronizada da Zona do Euro e da China está se disseminando com força pela economia global1, pode nos levar rapidamente para uma situação de contração da oferta de crédito dos bancos globais e à intensificação da desaceleração da economia global2. Essa contração do crédito, quando iniciada, dá origem a um processo de contração progressivo da atividade econômica e dos ativos bancários. Ela foi denominada racionamento de crédito e ocorre ciclicamente nas economias capitalistas.

Processos como esses, em que a queda dos preços dos ativos leva simultaneamente à redução da demanda e ao aumento da oferta, não tem hora para acabar. É o pânico. Em geral só acabam quando entra no mercado um comprador de última instância, como um banco central ou um tesouro. Foi assim com os títulos sub-prime na Grande Recessão, com as dívidas da América Latina nos 1980 e com as dívidas europeias a partir de 2010. Ocorre que governos e bancos centrais não compram petróleo, minério de ferro ou ações...

O processo ora em curso só terminará com a melhora da percepção em relação aos emergentes (uma ação espontânea...) ou com um novo ciclo de intervenções dos grandes bancos centrais.

Em relação às empresas de matérias primas: fique de fora!

 

 

 

 

 

 

(1)    Lembro ao leitor que os técnicos do FMI estão debruçados sobre o que chamam “spillvoers”. São os efeitos da crise de um país sobre outro(s), pelos canais do comércio e das finanças. Ocorre, porém, que esse tema é estudado antes mesmo do surgimento oficial da economia como ciência, no século XVIII. O próprio FMI surgiu para evitar os tais “spillovers”. Talvez isso explique porque a organização tenha sido brutalmente ineficaz para evitar crises ao redor do mundo, atuando, ao contrário, como “gatilho” para crises ainda maiores, como as da América Latina nos 1980, da Ásia, Rússia e América Latina nos 1990, Argentina nos 2000 e, finalmente, PIIGS no pós Grande Recessão.

 

(2)    Essa deterioração da qualidade do crédito de forma sistêmica, disseminado por toda a economia, foi batizado “momento Minky”. Uma alusão ao keynesiano Hyman Minsky, que se especializou nas instabilidades geradas pelo sistema financeiro.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com