Commodities começam a semana em queda forte.

A semana começa com a continuidade da queda dos preços das commodities. Dessa vez pesou o aumento do saldo comercial de China, que sinaliza a queda de suas importações e a revisão da queda do PIB japonês, de 1,6% para 1,9%. No Brasil alimentos, combustíveis, passagens aéreas e energia elétrica residencial fizeram o IPC-S subir para 0,88%.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A semana começa com os preços das commodities amargando mais uma queda importante: petróleo -1,50% e minério de ferro-1,70%. O gatilho para essa nova queda veio do saldo da balança comercial de China, que teve alta recorde, para US$ 57,5 bilhões em novembro. O principal fator foi a redução do valor, em dólares, das importações, que caíram 7% desde novembro do ano passado. As importações de petróleo caíram de US$ 18,4 bi para US$ 16,4 bi no mesmo período. Caíram as quantidades e os preços, não apenas do petróleo, mas do minério de ferro e outras matérias primas, como o aço. Esse é um ciclo de queda de preços e quantidades que não tem um limite para acabar. Os benefícios vão para os grandes importadores (como a China e países avançados), que devem ter um impulso em sua renda real, mas é perigoso para os países exportadores. Veja o gráfico dos preços do petróleo:

 

Desde junho desse ano os preços caíram coisa de 40% e devem cair mais. É claro que o petróleo tem como fator que acelera a sua queda a forte pressão do aumento pelos EUA. Mas essa queda não seria tão acentuada se não tivesse como cenário básico a desaceleração da economia global. O ex-secretário do tesouro dos EUA, Laurence Summers, em seus trabalho “Reflection on the new ‘Secular Stagnation hypothesis’”1 estimou, com base em estimativas feita pelo governo dos EUA e do FMI, a diferença entre o PIB potencial dos EUA e da Zona do Euro e o PIB efetivo, veja o gráficos:

 

 

 

Os gráficos mostram as projeções para a evolução do PIB para os anos posteriores, feitas em determinados anos (para os EUA 2007, 2008, 2009 ... 2014). Entre as projeções feitas em 2008 e o PIB efetivo, há uma diferença de 13% ou de US$ 4 trilhões para as duas economias. Essa diferença, é evidente, acabou se refletindo em excesso de investimentos e desemprego. Dentre as indústrias que estão com excesso de capacidade, estão as de matérias primas, o que acaba se refletindo na desaceleração das economias dependentes de sua produção.

A América Latina é região que se beneficiou bastante com o “boom” das commodities e teve um crescimento de 4,4% entre 2004 e 2001, contra um crescimento projetado de apenas 1,3% nesse ano. Esses dados são do FMI, que promoveu, em Santiago, um painel sobre a região. O Fundo alertou para os problemas que as economias da região podem enfrentar com a queda dos preços das commodities e com a alta dos juros (que poderá ocorrer nos próximos trimestres). É claro que cada país aumenta ou reduz os efeitos desse impulso à medida de suas conjunturas próprias. O Brasil tem uma disputa particular entre o governo e o mercado, com um pico no processo eleitoral recente. Mas, mesmo com a melhora das condições internas, as economias do continente continuarão a ser pressionadas por esse quadro global2.

As perspectivas, portanto, para  Petrobrás, Vale do Rio Doce e empresas do setor siderúrgico são muito ruins e continuam se deteriorando.

***

O Ibre-FGV divulgou o IPC-S da primeira semana de dezembro e ele acelerou de 0,65% para 0,88%. Veja o gráfico e a tabela:

 

 

Os principais aceleradores da alta, uma vez mais, foram alimentos (hortifrútis estão com 13,12% de alta!), gasolina, passagem aérea e energia elétrica residencial. Uma vez mais: com câmbio em alta (e “deveria” continuar subindo com base nos fundamentos) e com a manutenção das condições severas da seca no Sudeste / Centro-Oeste, a inflação não deve ter refresco.

 

 

 

(1)    http://www.voxeu.org/article/larry-summers-secular-stagnation

 

(2)   O Valor dá a matéria: “Retomada exige ‘decisões difíceis’ na AL, diz painel”. A impressão que um leitor desavisado terá é que o FMI veio ao Chile reproduzir a sua receita tradicional (aplicada no atacado na AL nos anos 1980, na Ásia e AL nos 1990 e, recentemente, no pós Grande Recessão): austeridade, corte dos gastos sociais, corte dos benefícios trabalhistas, etc. Mas não! O FMI mudou sua estratégia depois do fracasso retumbante das políticas de austeridade. O plano que envolve “decisões difíceis” é, ao contrário do que sugere o título, um programa de gastos: reformas na educação, redes de proteção social, inclusão financeira e infraestrutura. O caráter das políticas do FMI mudou e isso não é repassado pelo jornal que, talvez, queira incentivar a ideia de que a panaceia para o Brasil seja o corte profundo dos gastos públicos. A mudança da orientação do FMI não foi feita plenamente, pois isso iria requerer uma reavaliação das teorias econômicas que deram suporte às suas políticas por décadas. Os teóricos do FMI não revisaram suas teorias no sentido de aceitar as críticas que lhes eram feitas antes da Grande Recessão. Ao contrário, recorreram a mais uma reforma na sua própria maneira de pensar a economia, sem alterar o básico. O leitor que se interessar poderá ler o “lampedusiano” artigo de O.Blachard: http://www.voxeu.org/article/where-danger-lurks . Blanchard sugere que a economia se comporta como se a síntese neo-keynesiana funcionasse sempre, EXCETO em situações que ele chamou de “dark corners”; nessas situações há esse escuro, um mundo no qual a Ciência não chegou e que não consegue explicar. Ele avisa que os teóricos neo-keynesianos estão profundamente empenhados em jogar luz nessa escuridão e cita os milhares de trabalhos que têm sido publicados desde a crise. Blanchard não cita, é claro, que há luz nesses cantos (os tais “dark corners”) desde a publicação da “Teoria Geral” por Keynes nos anos 1930. De lá para cá as escolas conservadoras procuraram colocar o “guiso no gato”: deram à sua própria teoria a denominação de keynesiana e mutilaram completamente o keynesianismo original. Para um a leitura mais profunda do tema: “Keynes, H.Minsky - http://www.editora.unicamp.br/john-maynard-keynes.html” ; “O Espírito Animal, R.Schiller e G.Akerlof - http://www.elsevier.com.br/site/produtos/Detalhe-produto.aspx?tid=58737&seg=7&isbn=978-85-352-3680-4&origem=AUTOR&tit=O%20ESP%C3%8DRITO%20ANIMAL”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com