BCE opta por inação. BCB eleva SELIC em busca de credibilidade.

O BCE não conseguiu chegar a um acordo para a forma de atuar (ou não atuar) sobre a crise econômica da Zona do Euro. Com isso o mundo está derretendo. No Brasil, o BC subiu mais 0,5% a taxa Selic, dentro do esperado pelo mercado, e dá mais um passo para recuperar a credibilidade. Por conta da decisão do BCE, é melhor deixar o otimismo de lado por algum tempo.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O Banco Central Europeu anunciou, através de seu presidente: "projeões sugerem inflação mais baixa", "perspectiva continua sendo de recuperação modesta" , "demanda por exportações deve ser beneficiada por recuperação global" , "equipe intensificou os estudos técnicos para medidas adicionais" , "BCE precisa estar preparado para fornecer acomodação se necessário" ou "começo de 2015 que dizer 'EM BREVE' e não na próxima reunião".

Enfim, o BCE anunciou que não tomará novas medidas tão cedo. Esse emaranhado de frases resume a total confução em que está metida a autoridade monetária europeia. Apesar de estar claro que sua economia está afundando, ainda não existe a possibilidade de intervenção.

Os efeitos dessa inação sobre a economia global serão severos, como aliás já têm sido. A perspectiva otimista para o próximo trimestre fica, portanto, retirada por enquanto. O que está ruim, de fato, pode piorar. 

 ***

 O Banco Central elevou a taxa Selic para 11,75% como reação à elevação da inflação observada e pela manutenção das expectativas de inflação para 2015. Com a inflação acumulada em doze sempre no teto da meta e com as perspectivas de manutenção dos choques de oferta, a reação do BC ocorreu dentro do esperado. Veja o gráfico com as altas da taxa Selic:

 

É importante ressalta, uma vez mais, que o maior impulso que a inflação recebeu foi o intenso choque de oferta originado na super-seca das regiões Sudeste e Centro-Oeste, que elevou os preços de energia elétrica e alimentos. Ambos contribuíram, diretamente, com mais de 40% da alta do IPCA e contribuíram, indiretamente, para a alta dos outros itens. Somou-se ao choque da seca a desvalorização cambial cujos efeitos foram muito fortes em 2013, mas continuaram a influenciar os preços em 2014.

A alta dos juros básicos, vale lembrar, tem como objetivo principal afetar as expectativas dos agentes. Segundo os modelos do tipo DSGE1, utilizado pelo Banco Central, a inflação atual é fortemente influenciada pelo que pensam os agentes sobre o comportamento futuro dos preços. Se eles esperam que a inflação suba no futuro, eles já reagem e procuram se “defender” aumentando seus preços agora. E como as expectativas para a inflação de 2015 estão subindo, o BC resolveu acelerar a alta dos juros, de 0,25% para 0,50%. Veja o gráfico das expectativas para a inflação de 2015:

 

Como pode ser observado, a inflação esperada está subindo continuamente e está perto do teto da meta, de 6,5%. Como é possível que a inflação corrente continue subindo e como os riscos derivados da manutenção de um cenário muito ruim para a oferta hídrica em 2015, é possível que o BC continue subindo os juros pelas próximas reuniões, até que as expectativas comecem a cair. É de se esperar, portanto,  que o ambiente inflacionário continue “apertado” até a terceira reunião do BC  em 2015, que é em abril. Não é exagerado pensar em mais uma alta de 0,5% e duas de 0,25%, mesmo que o comunicado do Copom tenha sido bem cauteloso:

Considerando os efeitos cumulativos e defasados da política monetária, entre outros fatores, o Comitê avalia que o esforço adicional de política monetária tende a ser implementado com parcimônia.

O esforço adicional é esse ciclo atual de aumento dos juros; e ele avisa que seus efeitos demoram a serem sentidos. Difícil é interpretar o que é “parcimônia”: se mais 1%, se mais 0,75% ou se mais 2% de novas altas. E esse é o enorme buraco que o sistema de metas de inflação abre em sua coerência: apesar de ser um sistema que procura retirar dos formuladores do Banco Central a possibilidade de “improvisar e fazer o que bem entendem”, ele não consegue estabelecer regras totalmente explícitas quanto à taxa básica2. Daí que ficamos com essa incerteza em relação a qual seria a trajetória pensada hoje pelos membros do Copom para os juros básicos nos próximos meses. Ao evitar explicitar isso em seus discursos e documentos, o BC acaba preservando para si alguma capacidade de “improvisação”. É claro que estamos em um estágio muito superior ao que tínhamos décadas atrás em relação à formulação da política monetária. Mas ela continua dando espaço para que não saibamos hoje se a taxa pensada pelos diretores para abril de 2015 é 12,75%, 13% ou 12,50%. O importante, no entanto, é que com essa ação o BC consegue ir recuperando sua credibilidade.

***

A Fipe divulgou a inflação de novembro e ela subiu para 0,69% na cidade de São Paulo. Dos 0,69%, metade veio dos alimentos, que subiram fortemente. Também subiram os combustíveis e o vestuário. Veja o gráfico e a tabela do IPC-Fipe:

 

 

 

 

 

 

(1)    Dynamic Stochastic General Equilium, é um modelo “neo-keynesiano” utilizado pelos sistemas de metas de inflação para estabelecer as REGRAS para a condução da política monetária. 

 

(2)    O Sistema de Metas foi implementado depois de muita discussão acerca da forma correta de se lidar com a política monetária. Monetaristas e adeptos da teoria das expectativas racionais argumentavam, a partir dos anos 1970, que o BC nunca conseguiria “enganar” os agentes, aumentando ou reduzindo a oferta monetária. Essas variações na oferta da moeda resultariam do desejo dos formuladores, em “conluio” com políticos populistas, de sempre afetar o nível de emprego positivamente. Os monetaristas argumentavam que a oferta monetária não consegue aumentar o nível de atividades, e o emprego, porque os agentes sempre olham para os resultados de política: o aumento da inflação. Se o BC tentasse aumentar a oferta monetária, os agentes reagem à inflação futura, aumentando seus preços agora. Se os preços sobem imediatamente, não há aumento do emprego, só da inflação. O “dilema” acadêmico e político foi batizado de “regras X discricionariedade” e resultou em algo como o Sistema de Metas de Inflação e nos DSGE. Para impedir que os BC´s ficassem tentados a adotar posturas populistas, adotou-se um sistema com REGRAS.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com