Desaceleração dos serviços aumenta aposta em ação do BCE

O setor de serviços acompanhou a indústria e está em desaceleração na Zona do Euro. A própria empresa que faz a pesquisa, a inglesa Markit, alerta que, na ausência de qualquer ação adicional do BCE, a região afundará na recessão. Esse é mais um evento que aumenta a chance do BCE anunciar novas medidas de estímulos, mesmo na ausência de ação da Comissão Europeia. Por conta disso, é possível ver o primeiro trimestre com alguma melhora em relação ao momento atual.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje começa a reunião do Banco Central Europeu e ela deve girar em torno da deflação e da queda do nível de atividades na Zona do Euro. Hoje a Markit, instituto inglês que faz a pesquisa, divulgou o PMI-Serviços e ele mostrou, novamente, desaceleração. Os serviços estão em seu menor patamar em dezesseis meses. A França está pior, com 47,9 (abaixo dos 50 é retração); mas Alemanha, Itália e Espanha também estão em desaceleração.  O economista chefe do instituto alertou que, se nada for feito, a região entrará em recessão. E essa foi a deixa para os mercados aumentarem as apostas em uma ação mais efetiva por parte do BCE que encerra amanhã sua reunião de política monetária.  Apesar das enormes divergências internas, é bastante provável que o BCE aumente suas operações de compras de títulos, aumentando não apenas o valor, mas os tipos de títulos elegíveis para as operações. Se o BCE permitir a recompra de títulos públicos, é provável que o sistema bancário europeu tenha muito mais liquidez que hoje e isso deve aumentar o nível de confiança, que está baixo. Essa fraqueza da região foi responsável pela desvalorização do euro em 15% desde junho. Também desvalorizou o Yen, em 18,5% e diversas outras economias da Ásia. O real está com desvalorização de 17% no mesmo período, Veja o gráfico do Euro/US$ e do Yen/US$:

A desvalorização da moeda é uma das consequências do enfraquecimento da economia e acaba sendo uma “solução” para isso: a desvalorização cambial estimula as exportações e inibe as importações. Ocorre, no entanto, que se o nível de atividade global está em queda, a desvalorização  não tem a mesma eficiência que teria em um ambiente de crescimento. Mais que isso: se todos os países desvalorização suas moedas, ninguém desvaloriza. Quando todos os países deixam suas moedas se desvalorizar, ocorre o que é chamado “processo de desvalorizações competitivas”. Hoje inova-se, batizando o evento de “guerra cambial”, mas é mesmíssima coisa. E é velha conhecida dos economistas. É por meio desse mecanismo, o comércio internacional, que a queda do nível de atividades vai se espalhando por outros países1A consequência é a queda do nível de atividades em escala global. Lembre que a Zona do euro tem peso elevado no crescimento e no comércio globais (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/11/ocde-reafirma-desafios-para-2015-e.html ).

É natural, portanto, acreditar que o Banco Central Europeu aumente seu programa de estímulo monetário, mesmo que a Comissão Europeia continue adiando sua decisão de estimular os gatos públicos em investimentos. Se isso efetivamente ocorrer, é possível vislumbramos um cenário melhor para os primeiro trimestre de 2015, já que isso melhorará as expectativas em torno dos preços das commodities, que podem interromper seu processo de queda.

 

 

 

(1)    Apesar de ser um dos mecanismos mais básicos da Economia Internacional, disciplina da Economia específica no tema, o FMI está insistindo com seus membros em sua “redescoberta”. Hoje há uma preocupação do FMI com o que ele chama de spillover (exatamente esse efeito de espalhar a desaceleração e a crise financeira por vários países). Depois de ter receitado o pacote de austeridade durante a crise das dívidas em 2010, hoje o FMI pede o inverso: políticas de gastos e expansão monetária. Para quem quiser: 

http://www.imf.org/external/np/pp/eng/2014/062514.pdf ; 

http://www.ecb.europa.eu/pub/pdf/scpwps/ecbwp1557.pdf ;  

https://www.imf.org/external/np/res/seminars/2014/arc/ . 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com