Produção industrial sinaliza alta de 1,5% do PIB em 2015

A produção industrial continua se confirmando como o componente mais frágil de nossa economia. Bens de Capital e de Consumo Duráveis estão em um nível  8% e 10% mais baixos do que estavam e fevereiro. Mas os últimos dados são de recuperação e é possível apostar em uma alta da produção industrial ao longo de 2015. Com isso, mantidas a severas restrições externas, o crescimento de 1,0% - 1,5% é muito provável. Com uma melhora na Zona do Euro, podemos chegar a 2,5%.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBGE divulgou hoje os resultados da Pesquisa Industrial Mensal de outubro e eles mostram que a indústria ficou estagnada em relação a setembro. Em relação a outubro do ano passado a queda foi de 3,6%, com destaque para os Bens de Capital (-11,4%) e Bens Duráveis (9,4%). São os gastos dos agentes que envolvem decisões de longo prazo: tanto os empresários como as famílias ou decidiram não comprar, ou podem ter comprado bens importados. Veja a tabela do IBGE:

 

Vale notar que essa é uma tendência global, que vem sendo observada há meses, sobretudo na Zona do Euro e na China, e nossa economia vem sendo sistematicamente exposta à competição cada vez mais acirrada. À medida que as economias não encontram mercado para suas manufaturas, elas espremem todas as possibilidades: as nossas exportações caíram e as importações subiram. Piorou, de forma importante, a queda da confiança dos empresários e das famílias, por conta do processo eleitoral. Todas as grandes decisões foram adidas, seja porque a incerteza ficou maior, seja porque as linhas de crédito ficaram mais curtas. Veja o gráfico da produção industrial de bens de capital e bens de consumo duráveis:

 

Note que a produção industrial ficou estagnada depois da recuperação do “crash” de 2008, chegando mesmo a cair ao longo do período jan/2010 – jun-2013. Mas após isso, mesmo com os intensos pacotes de estímulos (na forma de isenções fiscais, que custaram vários bilhões de reais ao superávit primário, e de aumento do crédito dos bancos estatais), a produção desses itens despencou severamente. E essa queda pode ser explicada: pela desaceleração global; pelo início do ciclo de retirada do Quantitative Easing1 nos EUA (que afetou a confiança nos países emergentes), a taxa de câmbio que ficou valorizada em relação aos competidores internacionais (em especial a Zona do Euro e China) e a queda da confiança por conta das disputas eleitorais. Entre fevereiro e junho desse ano a produção de bens de consumo duráveis (principalmente automóveis) caiu 31%. Em relação ao pico de jun/2008, a produção dos duráveis desabou 12% até outubro. Mas, a partir de junho, tanto para os duráveis como para os bens de capital a produção começou a subir e as altas acumulam 29,5% e 15,8%. Apesar da interrupção de outubro, quando ambas estagnaram, o patamar está bem acima do “fundo do poço”, e isso é importante. Apesar das fortes pressões externas e da perspectiva de ajustes nos gastos governamentais (que imporão uma nova rodada de restrições na demanda), a produção industrial deve apresentar crescimento daqui para a frente.

A forte queda observada em junho foi atípica, e resultou de um conjunto de impulsos que estão se esgotando: alta dos custos de energia, copa do mundo e eleições. A alta dos custos para a indústria deverá continuar em 2015 mas, tudo indica, ela será limitada. O maior risco é um racionamento, mas se ele ocorrer, será mais para o fim do ano. Mas haverá impulsos positivos do lado dos investimentos públicos, que devem voltar a partir do primeiro trimestre de 2015, no plano federal e no segundo, para os governos estaduais. Do lado dos gastos das famílias, é de se esperar que eles retornem à sua média de 2010/2013, com espaço para subir até 12%, caso Levy não caia na tentação de comprimir os financiamentos ao consumidor dos bancos públicos. Que subam metade disso, e a indústria terá recuperado meio caminho e terá dado uma contribuição importante para a recuperação no primeiro semestre de 2015. Por isso, por essa base muito deprimida, é que mantenho minha projeção de crescimento para 2015, dentro do intervalo de 1,0% a 1,5%. Essa taxa poderá ser materializada em um cenário de restrição externa para os emergentes dependentes de commodities (é o nosso caso). Em um cenário de sucesso para o BCE, no qual a taxa de crescimento para a Zona do Euro sofra algum incremento em relação a 2014 (o que é plausível, posto que o BCE provavelmente fará o aumento de suas intervenções e que a Zona do Euro está com sua “base deprimida”), então coloco um viés de alta para o PIB de 2015, com a taxa de crescimento ficando no intervalo de 2,0% - 2,5%.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com