Produção industrial em queda joga petróleo abaixo dos US$ 70

O petróleo Brent caiu abaixo dos US$ 70 o barril em consequência da desaceleração da produção industrial na China e na Europa. As estimativas mais pessimistas para a economia global, exceto os EUA e Reino Unido, vão confirmando que o credo da austeridade fiscal é tóxico para o crescimento em qualquer período (curto e longo prazos). Se os BC´s não reagirem , por meio de programas de estímulos mais intensos, os desequilíbrios globais tendem a se acentuar. O momento é de alto risco para "commodities".
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O mês de novembro fechou com o Ibovespa subindo 0,18% e 6,45% no ano. Petrobrás, que caiu 4,8% na sexta, fechou novembro com queda de 16,92% e 29,46% no ano. A maior empresa nacional foi pressionada pela deterioração da confiança no Brasil, pelos possíveis impactos da operação lava a jato e pela queda global dos preços do petróleo. Hoje os preços romperam os US$ 70 o barril no mercado Brent, da Europa. Veja o gráfico das cotações:

 

A queda vem sendo impulsionada pelo aumento da oferta dos EUA e pelo esfriamento da demanda global. Quanto mais a demanda global mostra-se morna, mais o petróleo deve cair, em uma espiral de queda que pode chegar aos US$ 60 rapidamente. Na quinta feira passada já havia feito um “post” a respeito (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/11/amanha-opep-1-sereune-em-viena-para.html ). E nesses dois pregões as condições só pioraram.

Hoje foram anunciados os PMI’s (pesquisas sobre a produção industrial feita pela empresa britânica Markit) em diversos países, e elas vieram em derretimento. A China teve queda de 50,4 em novembro frente a outubro. E assim foi  na Alemanha (49,5 contra 51,4), França (50,1 contra 50,4) e Itália (49 contra 49,4). Dados abaixo de 50 indicam contração da atividade industrial. Com a queda da atividade industrial na China e na Europa, as pressões  baixistas sobre as matérias primas se intensificam. Agora as grandes empresas de pesquisa (corretoras, bancos e consultorias) passam a trabalhar com um cenário cada vez mais pessimista para os preços futuros das commodities. Petrobrás (PETR4) assinala queda de 21% ano, Vale do Rio Doce (VALE5), de 35% e CSN (CSNA3) de 57%.

A Europa vai justificando os receios dos principais centros de pesquisas, sobretudo depois da Itália mostrar uma retração de 0,1% no terceiro trimestre do ano. Veja o gráfico abaixo sobre o comportamento do PIB trimestral italiano:

 

A Itália é um caso exemplar, pois mostra os resultados da política adotada pela Troika (Comissãi Europeia, Banco Central Europeu e FMI) no sentido de estabilizar as finanças públicas. A partir de 2010, com a forte crise das dívidas europeias, a Troika recomendou (o que é praticamente obrigar, nesse caso) que os países com problemas fizessem um forte ajuste fiscal. Com queda de despesas, os governos melhorariam a sua capacidade de pagamento e, como consequência, ganhariam a confiança dos mercados. Com a confiança dos mercados estabelecida, os juros sobre as dívidas soberanas parariam de subir e a economia estaria novamente estabilizada. Ocorre que a dívida foi estabilizada mas as economias continuam em queda. Mesmo as que não estavam em queda, passaram a crescer de forma anêmica, como é o caso da Alemanha, que teve um PIB de 0,1% no trimestre. A Zona do Euro está com uma inflação anual de 0,3% e isso é praticamente uma deflação. Por tudo isso, o mercado passa a esperar, uma vez mais, algum tipo de estímulo mais forte por parte do Banco Central Europeu. Na quinta ele se reúne e espera-se que ele passe a recomprar os títulos das dívidas soberanas que estão nos balanços dos bancos comerciais1. Se o BCE fizer a economia da região poderá respirar um pouco mais e abre-se uma perspectiva positiva para a economia global. Mas é necessário esperar a reunião de quinta, já que esse assunto vem sendo discutido de forma exaustiva desde 2012.

O IPC-S, medido semanalmente pela FGV fechou novembro com alta de 0,65%, dentro da nossa projeção. Os destaques foram os aumentos de energia elétrica, que fizeram o item Habitação encerrar o mês em 0,85%; Transportes, com 0,62% e Alimentos, com 0,65%. Veja os gráficos do IPC-S:

 

Como as expectativas para 2015 ainda continuam elevadas, em torno dos 6,5%, e como as perspectivas para o câmbio e alimentos continuam de alta, é provável que o BC suba a taxa Selic em 0,5% na próxima reunião do Copom, que começa amanhã e termina na quarta.

Com a piora contínua das economias da China e da Zona do Euro, aumentam as probabilidades de adoção de planos de estímulos mais agressivos por parte dos BC´s. A queda dos preços das commodities, no entanto, ainda precisa de muito mais esforço do que isso.

 

 

(1)    O presidente do Bundesbank, Jens Weidmann é contra esse tipo de atuação pois isso significa, na prática, permitir que os países aumentem seus déficits públicos. Ele se mantem em ter os formuladores de política que, mesmo diante das evidências ao contrário, insiste na tese de que a austeridade foi boa para a Europa. Na sua opinião a Europa precisa de reformas estruturais para aumentar sua competitividade; a crise atual nada teria a ver com a queda da demanda. Essa visão é cada vez mais criticada. O FMI, por exemplo, que foi signatário dos planos de austeridade de 2010, voltou atrás e agora defende que a “consolidação fiscal” seja feita de forma mais lenta e que os países aumentem seus gastos de investimentos.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com