Porque o PIB veio tão baixo?

O PIB brasileiro cresceu apenas 0,1% no terceiro trimestre. A queda do Consumo das Famílias foi decisivo para tornar o número modesto. Pesou fortemente a queda do interesse dos consumidores por bens de consumo duráveis (sobretudo automóveis), na esteira da queda da confiança e do elevado endividamento. O investimentos, no entanto, subiram e, junto com os Gastos do Governo, asseguraram a alta. O setor externo consolida sua participação como principal fator negativo para o nosso crescimento a partir de 2007.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O IBGE divulgou o PIB do terceiro trimestre e ele veio em alta de 0,1%. Os três primeiros trimestre do ano, comparados aos três primeiros do ano passado, apresentaram crescimento de 0,25%. Se o PIB crescer 0,5% no trimestre atual, a economia brasileira encerra o ano com 0,1%. A alta interrompe as duas quedas do ano, de -0,2% e -0,3%, e encerra a chamada recessão técnica1 brasileira. Veja o gráfico com o crescimento do PIB desde 2006:

 

O PIB subiu com velocidade média de 0,48% no período de 1993/2003, de 1,21% entre 2003/2007 e de 0,575% de 2007 até agora. Esses sub períodos foram escolhidos levando-se em conta a vulnerabilidade de nossa economia aos choques externos. O melhor período do país foi o de 2003/2007 e ele foi fortemente influenciado pelo impulso da economia global. A partir daí, como o gráfico mostra, tivemos uma queda violenta em 2008, por conta do “crash” internacional e uma forte recuperação entre 2009 até 2012. Em 2012 a economia brasileira começou a se desacelerar por conta da crise da dívida europeia, atingiu seu máximo no primeiro trimestre de 2013 e, depois de iniciado o ciclo de reversão do plano de estímulos do Federal Reserve (essa reversão foi chamada de “tapering”), a economia brasileira desacelerou de vez. O ritmo de queda aumentou com a piora do estado de confiança, no primeiro trimestre do ano, em função do processo eleitoral. Veja o gráfico com o comportamento da contribuição do setor externo ao crescimento do PIB:

 

Cada uma dessas barras indica a contribuição do setor externo (exportações menos importações) ao crescimento do PIB a cada ano. Desde 2007 a contribuição tem sido negativa, pelo aumento das importações e queda das exportações (queda da velocidade de aumento). Isso reflete tanto a valorização cambial como o recrudescimento da competição comercial decorrente da crise global. Além da contribuição direta, que afeta, sobretudo, a produção industrial, o setor externo também influencia a taxa de crescimento por meio dos Investimentos Estrangeiros (por meio de compra de ações/participações e empresas nacionais, por meio de suas filiais e por meio de financiamento), que depende do estado de confiança dos investidores estrangeiros. Com a queda do estado de confiança, os investimentos também contribuíram decisivamente para o encerramento da forte aceleração que ocorreu entre 2003/2007. Veja o gráfico com o comportamento individual dos componentes da demanda:

 

Como pode ser notado, os componentes da demanda Consumo e Gastos do Governo, têm  uma trajetória suave, com baixa alteração entre os trimestres. Já o investimento oscila fortemente, refletindo as intensas variações do estado de confiança dos empresários, que o utilizam para suas decisões de gasto em cada trimestre. Elas são fortemente influenciadas pelas expectativas em relação ao ambiente externo e pelas condições da economia doméstica. O desvio padrão - que é uma media de desvio entre os gastos a cada trimestre -, de cada componente é, em termos anuais: Consumo das Famílias 3,5%, Gastos do Governo 5,08% e Investimentos 17,67%. Ainda que o peso dos Investimentos seja menor que o do Consumo e dos Gastos, 18% contra 85%, a sua volatilidade é que explica, junto com o setor externo, as variações na taxa de crescimento do PIB2.

No último trimestre a grande influência, no entanto, foi a queda do Consumo das Famílias. Ela pode ser explicada, sem dúvida, pela queda do consumo de bens duráveis que, por sua vez, foi influenciada pelo estado de confiança dos consumidores, pelo seu alto endividamento e, por fim, pela oferta menor de crédito. Essa queda do Consumo das Famílias deve ser pontual, recuperando-se nos próximos trimestres a uma velocidade “morna”.

Os investimentos tiveram um comportamento positivo, mas os estoques continuam aumentando, mesmo que em ritmo menor. Quando os estoques sobem eles são contabilizados como investimento e afetam positivamente o PIB. Mas, quando caem, acabam amenizando a taxa de crescimento. Esse efeito “amortecedor” dos estoques foi mais intenso nos trimestres passados e atuará para reduzir a taxa de crescimento dos investimentos nos próximos trimestres.

Os fatores que estão dramaticamente incertos para a definição do PIB em 2015 são: (1) os gastos do governo poderão ter uma contribuição muito negativa, caso o governo busque a meta de superávit primário de 1,2%; (2) os investimentos privados dependem do estado de confiança dos investidores externos e (3) o setor externo e o risco de racionamento de energia podem complicar a dinâmica da recuperação.

Por conta desses riscos, é bastante razoável manter a projeção do crescimento de 2015 no intervalo de 1,0% a 1,5%, como coloquei no “post” de 21/07: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/07/adeus-ao-crescimento-ate-2017-ficaremos.html .

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Na Europa, a Itália anunciou que a sua taxa de desemprego atingiu 13%; para os jovens entre 15 e 25 anos ela está em 43,3%. Apesar do recrudescimento das condições econômicas Jens Weidmann, o presidente do Bundesbank, banco central alemão, continua insistindo que a Europa precisa de reformas trabalhistas e não estímulos fiscais e monetários. O alto desemprego e a baixa taxa de crescimento, segundo o banqueiro central, resultam da teimosia política dos trabalhadores em aceitar reduções expressivas em seus salários. Weidmann esteve na linha de frente da Troika na defesa da austeridade fiscal três anos atrás. O resultado desastroso dessa política, no entanto, nada tem a ver com os cortes de gastos e aumento de impostos. Sorte da Europa é que ele está se isolando, com o aumento da pressão dos países membros por ações mais efetivas do Banco Central Europeu. O próprio FMI vem fazendo uma campanha nesse sentido.

Essa percepção aumentou com o anúncio de que a Zona do Euro teve uma inflação anualizada de 0,3% em outubro, o que caracteriza um ambiente deflacionário.

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O BC divulgou o superávit primário (Receitas menos despesas, exceto os juros da dívida pública) de R$ 3,8 bilhões em outubro contra um déficit de R$ 25,5 bilhões em setembro. No período de doze meses o superávit é de 0,56% em relação ao PIB. A meta definida pelo governo era de 2%.

 

 

(1)    Nos EUA, o National Bureau of Economic Research define como recessão a queda de dois PIB trimestrais. É uma simplificação eu está longe de obter o consenso.

(2)    Os modelos macroeconômicos do tipo DSGE ou RBC consideram como fonte de variação do crescimento o consumo e não o investimento. Para eles as famílias possuem um plano de gastos que envolvem várias gerações (podem ser gerações finitas ou infinitas). Os gastos são distribuídos entre as diversas gerações em função da taxa de desconto entre o consumo futuro e o presente. Se descontado, o consumo no futuro for maior que o consumo no presente, as famílias decidem consumir menos agora, aumentando sua poupança, para consumir mais no futuro. Essa atitude maximiza seu consumo. Os modelos consideram essa relação entre consumo e juros com uma equação algébrica que é denominada IS. Ocorre, no entanto, que podemos ver que o comportamento do consumo é suave ao longo do tempo, mesmo em um ambiente de forte oscilação dos juros e a contribuição da poupança das famílias é apenas marginal, afinal a grande maioria dos brasileiros não poupa de forma voluntária; o grosso da poupança vem topo da pirâmide, dos lucros corporativos e do setor externo.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com