A OPEP e os preços globais de matérias primas.

A OPEP deve definir, a partir de amanhã, a sua política para o teto de produção diária dos seus doze membros. Um corte de 2 milhões de barris/dia poderia estabilizar os preços, que despencaram  32% nesse ano. Mas é pouco provável que isso aconteça e as incertezas, aumentadas com a percepção de que a economia global está em com uma perspectiva ruim para 2015, pode fazer os preços oscilarem fortemente. Uma ação tímida da OPEP pode derrubar os preços do óleo Brent abaixo dos US$ 70.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Amanhã a Opep1 se reúne em Viena para definir uma política para o futuro do mercado. Os preços do petróleo estão em queda, ameaçando a saúde financeira das empresas exploradoras, os países produtores e parte do sistema financeira que está alavancado junto ao setor. A queda dos preços é consequência da desaceleração global e do aumento da oferta de óleo e gás por parte dos EUA. Veja o gráfico abaixo com o comportamento dos preços nas últimas décadas:

 

O ciclo de alta dos preços, que saíram dos US$ 20, no início dos anos 2000, para o pico histórico de US$ 140, em 2007, foi impulsionado pelo rápido aumento da demanda global, pela queda da produtividade das antigas áreas2 de exploração e, em menor medida, pela forte especulação financeira. Os extremos de preços têm consequências reais para produção e para a demanda do mercado global: na baixa, os produtores com maior custo param de produzir, reduzindo a oferta total e, na alta, há o incentivo para a exploração de áreas com custos mais elevados. Nos anos 1990 o barril chegou a cair abaixo dos US$ 10 e muitos analistas do mercado diziam que a indústria iria desaparecer como resultado da substituição do petróleo como importante matéria prima industrial e fonte de energia. Claro que as previsões mais “otimismo” em relação à dependência do petróleo mostraram totalmente erradas. Ainda que exista a demanda para a redução das emissões de carbono, a demanda global deve manter-se próxima da oferta, dentro de um quadro de ocupação de mais de 95% da capacidade de produção. Os EUA participaram ativamente do último ciclo de aumento da oferta global, com exploração das jazidas de xisto, que fizeram a produção subir de 4 milhões de barris por dia para os atuais 9 milhões. Veja o gráfico:

 

A expectativa é de que a Opep não consiga chegar a um acordo de corte de produção, que hoje é de cerca de 30 milhões de barris/dia. Seus membros estão propensos a reagir às quedas de preços com aumento de produção, de forma semelhante à que têm agido as empresas globais de exploração de minério de ferro. Os preços do minério despencaram mais de 60% desde o sue pico histórico em 2010 e as empresas continuam anunciando aumento de produção. Veja o gráfico dos preços do minério de ferro:

 

E é sobre esse trilho que estão as commodities: depois de um longo ciclo de alta, proporcionado pelo acelerado crescimento da China, Índia e outros emergentes; os preços devem se manter bem abaixo dos máximos históricos. Essa é a tendência para as matérias primas, mas não para os alimentos. Os alimentos devem continuar caros por conta do fato de que o consumo de bens de primeira necessidade não tem um comportamento tão sensível ao ciclo econômico como o tem os bens de consumo duráveis e as grandes obras de infraestrutura (industrial, comercial, residencial e de bens públicos). Veja o comportamento do índice de commodities CRB, que têm, além das matérias primas, alimentos em sua composição:

 

Mesmo com a queda das matérias primas, o índice caiu “apenas” 30%. A redução dos preços dos alimentos foi muito menor. As perspectivas de crescimento global para 2015 estão sofrendo revisões para baixo e isso põe mais peso nas quedas das commodities, mas tem efeito mais suave sobre os preços de alimentos.

Assim, dentro das expectativas do mercado, é possível esperar uma forte oscilação dos preços do petróleo depois da reunião da OPEP. Se ela não conseguir reduzir o teto de sua produção, é possível que os preços despenquem abaixo do US$ 70. Se já está difícil formar um preço justo para a Petrobrás diante de seu imbroglio particular, em meio a um cenário global tão instável a tarefa fica impossível.

 

 

(1)    A Organização dos Países Produtores de Petróleo tem sede em Viena e foi fundada em 1960. Hoje são membros: Angola, Arábia Saudita, Argélia, Catar, Equador, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque, Kwait, Líbia, Nigéria e Venezuela.

 

(2)    Houve, durante alguns anos, a crença de que os hedge funds globais poderiam segurar os preços nas alturas. Mas, dado seu tamanho e a estrutura de oferta, o mercado de petróleo admite, no máximo, uma ação secundária dos especuladores financeiros. Eles podem intensificar um ciclo de alta ou de baixa, mas não conseguem definir uma tendência de longo prazo.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com