OCDE reafirma desafios para 2015 e ações devem continuar subindo.

As taxas de crescimento dos EUA e da Alemanha mostram que a economia global tem dinâmicas bem diferentes entre as economias. Enquanto os EUA vão conseguindo manter um crescimento mais elevado, as outras "economias avançadas" sofrem para sair do lugar. A OCDE divulgou seu relatório para as perspectivas econômicas e apontou a Europa como maior risco para a economia global. Com isso, juros ainda muito baixos e enorme liquidez internacional, devem manter as ações como principal referência para os gestores globais.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A economia dos EUA cresceu quase 1% no terceiro trimestre do ano, acima das expectativas do mercado. O Bureau of Economic Analysis, responsável pelo levantamento, informou que todos os componentes da demanda contribuíram para a alta, exceto os estoques das empresas. A taxa de crescimento, no entanto, sofreu uma desaceleração no terceiro trimestre em relação ao segundo: 3,9%, em termos anualizados, contra 4,6%. É mais provável que a taxa de crescimento estacione ao redor dos 3,0% - 3,5%, já que a taxa de 4,6% foi “fora da curva”; ela sucedeu à enorme queda do primeiro trimestre, decorrente dos efeitos do inverno severo. Veja o gráfico das taxas trimestrais de variação do PIB:

 

A alta do PIB vem mostrando o sucesso do programa de estímulos Quantitative Easing em devolver dinamismo à maior economia do planeta. E essa aceleração estimulou a especulação do mercado sobre a possibilidade do Federal Reserve começar a subir os juros básicos mais cedo do que esperavam os diretores da autoridade monetária. Os juros dos títulos de dez anos subiram ligeiramente e o dólar se fortaleceu sobre outras moedas, em particular o euro. Ainda que a divulgação posterior de um índice de confiança do consumidor mais fraco tenha segurado os mercados, fica claro que a trajetória de crescimento dos EUA  está em patamar superior à do resto do mundo industrializado. Quanto à aposta de que o FED subirá a taxa de juros mais cedo, não há razão para isso. A autoridade monetária está buscando dois objetivos: a melhora das condições do mercado de trabalho e uma inflação próxima aos 2%. Os preços observados no levantamento trimestral e medidos pelo PCE (personel consumer expenditure index), são os preferidos pelos diretores do FED como medida para a inflação. O PCE veio em 1,4%, bem abaixo dos 2% desejados pelo FED. Veja o gráfico abaixo:

 

Enquanto esse quadro se mantiver é pouco provável que a política monetária sofra alterações nos EUA.

 A Alemanha, por sua vez, divulgou hoje o PIB do terceiro trimestre e ele meio magro, em 0,1%. O país sofre com a perda de suas exportações e dos investimentos, resultado do ciclo de estagnação da União Europeia, que teve sua perspectiva de crescimento rebaixada pela OCDE. A maior economia europeia sente agora as consequências das políticas de austeridade adotadas no continente, que é seu principal cliente. Além da política de austeridade, adotada por quase todos os países da Zona do Euro, a Europa se ressente com a timidez das atuações do Banco Central Europeu. O banco central da região não foi capaz de implementar um plano de expansão da liquidez com a mesma eficiência dos bancos centrais dos EUA e do Reino Unido. Os quadros abaixo mostram como o BCE não conseguiu aumentar a liquidez da Zona do Euro (Euro Area)  e como seus déficits primários (primary balance) foram mais restritos:

 

No começo do ano os organismos internacionais previam três velocidades de crescimento: a dos EUA, a dos outros países avançados e a dos emergentes. A grande frustração veio da Europa, com um crescimento menor do que o projetado e com seus efeitos sobre o resto da economia global, sobretudo os emergentes. A Europa responde por 30% do PIB global e por 36% do comércio global. Essa sua enorme participação explica o “efeito contágio” de seu baixo crescimento sobre o resto do mundo. Veja os gráficos abaixo com a participação no PIB global (Share of world GDP) e no comércio global (Share of world trade):

 

 Agora o FMI está incentivando os países a adotarem uma política fiscal mais expansionista, sobretudo por meio de gastos em infraestrutura, como forma de incentivar a fraca demanda privada. Apesar de ser o principal “motor” da economia europeia, a Alemanha está longe de ter o sucesso dos EUA em termos de recuperação. Veja o gráfico abaixo, que compara o crescimento das duas economias:

 

A economia alemã chegou a cair mais que a dos EUA após o “crash” de 2008, mas teve uma velocidade de recuperação mais lenta. Mais importante que esse passado recente, é o alerta que a OCDE faz para o ano que vem: a Europa representa o grande risco para a economia global e seus governantes devem fazer alguma coisa para evitar o “pior cenário” em 2015.

Com a consolidação desse cenário da OCDE, podemos esperar um baixo crescimento global, com baixas taxas de juros e alta liquidez. Nesse mundo, as ações continuam a contar com forte impulso e tendem a continuar como uma das principais recomendações dos gestores globais.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com