O déficit externo ainda está em trajetória explosiva

A definição de Levy, Barbosa e Tombini como trio de direção da política econômica satisfaz a condição necessária para que os ajustes da economia brasileira sejam feitos. Mas eles não satisfazem a condição suficiente. Mais importante que o déficit fiscal, o déficit externo está em elevação e exige algum tipo de ação. Os paradoxos nessa questão, no entanto, não são menores que os do ajuste fiscal.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Na sexta feira o mercado subiu mais de 5% com o vazamento da informação de que o ministério da fazenda será ocupado por Joaquim Levy, o planejamento por Nelson Barbosa e o BC por Alexandre Tombini. A alta se justifica em função da probabilidade do trio conseguir adotar um a política efetiva de “correção” do déficit público e externo sem afetar em demasia a demanda agregada. Assim, essa solução agradaria aos mercados e aos aliados políticos do governo. Ainda que as dificuldades para o sucesso dessa gestão sejam enormes, a formação do trio, sem dúvida,  é um passo e tanto. Levy já participou do governo Lula,  foi secretário da fazenda do Estado do Rio de Janeiro na gestão de Sérgio Cabral e exibe em seu currículo um doutoramento em economia pela Universidade de Chicago, catedral do conservadorismo econômico contemporâneo. Soube transitar com tranquilidade entre políticos e banqueiros e tem o perfil necessário para devolver “credibilidade” ao Tesouro, sobretudo depois das diversas acusações de “contabilidade criativa” levadas a cabo pelo atual secretário do tesouro Arno Agostin. Nelson Barbosa conhece a coisa pública de perto e pode transitar facilmente entre a base aliada, de sorte a costurar um ajuste fiscal convincente. Sua proximidade com o partido é capaz de mitigar as possíveis críticas que surgirão, inevitavelmente, ao longo do período de travessia até o ponto de inflexão da taxa de crescimento do país. Tombini é presidente do BC desde 2010 e é quadro de carreira do banco. Apesar de setores mais xiitas da oposição ao governo terem feito críticas veladas ao suposto abandono da meta inflacionária, Tombini é um quadro técnico, experiente e totalmente moldado para a função. Esse equilíbrio entre as três principais peças da política econômica, apesar de não ser a condição suficiente, é condição necessária. A forte alta da bolsa na sexta (e hoje também!) é uma decorrência lógica. Os prêmios embutidos nos preços de ativos brasileiros tornam as posições “vendidas” (pessimistas) vulneráveis frente a um cenário mais favorável à credibilidade da política econômica.

Apesar do déficit fiscal ser o mais urgente para o mercado, é o déficit externo que nos expõe a uma fragilidade considerável. O déficit de transações correntes atingiu, segundo o BC, 3,73% do PIB no acumulado de doze meses e cerca de 3,94% no acumulado de 2014. Ele está em trajetória de aumento, veja o gráfico abaixo:

 

Os fatores que levaram o déficit a aumentar nessa escala foram:

  • a queda dos preços das commodites, que exportamos para o resto do mundo,
  • a queda da demanda global por nossas exportações
  • a desaceleração da economia global, que leva a competição comercial a aumentar nossas  exportações (veja o “post” de 04/11 http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/11/os-desequilibrios-do-brasil-e-do-mundo.html )
  • O aumento das importações de petróleo por conta da seca que levou ao aumento da geração de energia pelas termoelétricas
  •   a manutenção da taxa de câmbio em um patamar baixo, favorecendo as importações e desfavorecendo as exportações.

A manutenção do taxa de crescimento déficit nessas proporções indica que em algum momento do futuro o país deverá fazer um ajuste para evitar que seu endividamento externo fique excessivamente elevado1. Veja o gráfico com a evolução das dívidas externas pública e privada:

 

O setor privado expôs-se mais ao endividamento externo desde a crise de 2009 e isso é consequência de um evento global: o direcionamento de recursos dos bancos dos países avançados para as empresas dos países emergentes. Esse movimento fez com que as dívidas privadas dos países emergentes subisse em US$ 692 bilhões desde a crise do Lehman Brothers. Mas há cálculos que indicam que esse número pode ter chegado aos  US$ 1,2 trilhões, segundo a  The Economist (Emerging-market corporate debt: Invisible bonds, 12/11/2014). Hoje a dívida externa brasileira privada é de US$ 204 bilhões. Há ainda os empréstimos inter-companhias, com mais de US$ 193 bilhões. O total do passivo privado em dólares é, portanto, de US$ 398 bilhões. Esse é, com certeza, o principal obstáculo à uma desvalorização cambial que efetivamente possa fazer seus efeitos sobre o balanço de transações correntes. Desvalorizar o dólar em mais 20% ou 30% pode levar o setor privado a ter sérios problemas financeiros.  É por isso que o BC intervém todos os dias para evitar que o dólar suba demais; se a moeda brasileira perde valor, as empresas podem ficar à beira da bancarrota.

E esse é o problema de sempre para os formuladores de política econômica: os benefícios de toda política têm custos; é necessário saber pesar quando os primeiros superam os segundos. Para estabilizar o ponto mais fraco de nossa economia, o novo trio de direção baterá de frente com essa limitação.

Hoje a FGV divulgou o IPC-S da terceira semana de novembro e ele veio em 0,58%, com alta de 0,08% em relação à semana anterior, veja o gráfico:

 

Os alimentos, transportes e habitação continuam fazendo o indicador subir fortemente. São os efeitos da seca sobre alimentos e energia elétrica e do aumento dos combustíveis sobre os transportes. Tudo indica que o índice fechará novembro entre 0,60% e 0,65%. Se mantiver esse ritmo, no ano o IPC-S fechará em cima do teto da meta de 6,5%¨. Como reportei na semana passada, grande parte dessa alta decorreu da seca da desvalorização cambial. É provável que o BC acelere um pouco a alta da Selic para complementar o “choque de credibilidade”. Estou colocando como provável um aumento de 0,5% da Selic na próxima reunião do Copom, dias 2 e 3 de dezembro.

 

 

 

 

(1)    Há diversas hipóteses sobre qual é o endividamento externo “elevado”. Vou considerar como tal, o déficit que só é financiado a taxas de juros crescentes.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com