A Petrobrás afunda e o emprego confirma PIB entre -0,5% e 0,0% em 2014.

Em meio a operações policiais, novas denúncias e investigações externas e internas, a auditoria Price Waterhouse se recusou a assinar o balanço da Petrobrás. A empresa ficará sem publicar seu balanço por prazo indeterminado, mas se comprometeu, em nota, a entregá-lo ao público, mesmo sem a aprovação do auditor, até 12/dez. Pela primeira vez na história recente, a maior empresa da bolsa teve sua negociação suspensa por cerca de uma hora pela Bolsa de SP. Piora o quadro os números magros do varejo e a perda líquida de vagas formais em outubro, segundo o Ministério do Trabalho.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje é, sem dúvida alguma, o dia mais infernal para o governo desde a crise de 2008. A operação lava a jato está realizando uma mega blitz, com mais de setenta mandados a serem cumpridos, a Petrobrás adiou o anúncio de seu resultado por conta da recusa da auditoria Price em assinar o balanço da empresa, os dados do varejo vieram magros, com contínua queda das vendas de automóveis e, para piorar, o CAGED de outubro foi um número negativo, duro de digerir.

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A operação policial conhecida como” lava a jato” prendeu um ex diretor da Petrobrás, diretores e funcionários de empresas prestadoras de serviços à empresa, além de fazer uma série de apreensões de documentos e equipamentos. A Petrobrás, maior empresa nacional é, mais uma vez, destaque nas páginas policiais. As confirmações dadas ontem pelo TCU e CGU de que há indícios de fraude em diversas áreas e a condução de investigações nos EUA por parte da SEC e do Dpto de Justiça, fizeram com que a empresa de auditora ficasse emparedada, recusando-se assinar as demonstrações financeiras da empresa no terceiro trimestre. Depois de vários trimestres assinando os balanços, é possível que agora, diante das fortes notícias e inquéritos, em âmbito criminal, os auditores tenham, de fato, acordado para o risco que corriam (e, na verdade, ainda correm). Caso comprovado que a Petrobrás teve suas demonstrações contábeis afetadas pela onda de corrupção que é objeto de investigação, a auditoria pode ser punida de forma severa, tal como está previsto nas regulações brasileiras e internacionais. Ela é “fiadora” da qualidade das informações prestadas ao público, e qualquer prejuízo que os usuários externos1 das mesmas tenham, em função de informações não fidedignas, é passível de punição. A reunião anterior do Conselho de Administração chamava a atenção do mercado pelo reajuste de preços dos combustíveis. Mas foi a “batalha” entre os executivos e conselheiros da empresa com a auditoria independente que ocupou a pauta. Saíram de lá sem consenso e até agora não há definição para que as Demonstrações sejam aprovadas. O leitor precisa ser informado que isso nunca aconteceu na história da empresa ou das grandes empresas listadas em bolsas, ao menos nos últimos vinte anos. Como consequência desse evento escandaloso, as ações da empresa só começaram a ser negociadas com uma hora e meia de atraso. No exterior, desesperados, os investidores negociavam os ADR´s da Petro com mais de 8% de queda. Quando abriu no Brasil, o papel estabilizou-se e passou a ser negociado ao redor dos R$ 13,00, em um ambiente de forte desconfiança e desorientação. A empresa, em seu comunicado ao mercado feito ontem, promete entregar os resultados até 12/dez, mesmo que os auditores não o assinem. Ela tem obrigação de entregá-los aos credores de bônus no exterior e à SEC  (A Securities Exchange Comission , a CVM dos EUA) com o risco de ser severamente punida. Cotada a R$ 13,20 e com o dólar a R$ 2,61, a petroleira bateu US$ 5,06, uma das menores cotações desde 2005. Veja o gráfico da Petrobrás, com a cotação em reais da Bovespa divida pelo dólar:

 

Petrobrás (barras = mês)
 

O grau de aversão ao risco Brasil tende a aumentar ainda mais, alimentando um ciclo vicioso que confirma a tese de que o PIB desse ano fechará entre -0,50% a 0,0% (http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/07/adeus-ao-crescimento-ate-2017-ficaremos.html )

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O IBGE divulgou hoje os dados do varejo de setembro e ele cresceu 0,4%, um número mirrado, mas que resultada daquilo que os economistas mais conservadores se recusam a aceitar: o Consumo das Famílias é pouco influenciado pelos juros e pelas expectativas, tendo uma relação direta com a renda. Veja o gráfico do consumo:

 

A linha verde é o dado mensal com ajuste sazonal e o vermelho é a média de seis meses. Como você pode notar o varejo cresce fortemente com a atividade econômica (renda subindo de 2003 a 2014) e passa a cair suavemente com a queda da atividade. Já as vendas de veículos têm um comportamento mais adverso, veja o gráfico:

 

Ele é bem mais “nervoso”  e depende fortemente das condições de crédito e, de certa forma, do estado de confiança dos trabalhadores, já que eles compram esses bens de alto valor endividando-se. As incertezas em relação ao futuro afetam diretamente as decisões de comprar ou não os veículos. Do pico de novembro-2012 até o mês de setembro, as vendas internas caíram  17% e, no ano, caíram cerca de 11,5% (medidas pela média de seis meses). Essa queda forte explica boa parte da queda do emprego industrial, que também é turbinado pela queda das compras externas e pelo aumento da competição externa.

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No mercado de trabalho, tal como tenho informado recorrentemente no blog, continuam em queda, em uma tendência ininterrupta desde 2010. Veja o gráfico da criação de vagas formais informadas pelo Ministério do Trabalho e do Emprego:  

No mês de outubro a criação de vagas foi negativa, com a perda de 30.283 postos de trabalho no Brasil. Desses, 11 mil foram na indústria e mais de 30 mil na construção civil. Ajustando pela sazonalidade, essa geração de emprego se compara aos piores momentos da crise de 2009.

A minha expectativa de crescimento para 2014 está mantida: -0,5% a 0,0%. Para 2015 fico no intervalo de 1,0% - 1,5%. Não é possível ver um cenário melhor...

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Para complementar o cenário doméstico, os resultados de grandes empresas, anunciados hoje, vieram muito aquém do esperado, refletindo a desaceleração\o das economias global e doméstica e a seca., São elas: CSN ( prejuízo de R$ 250 milhões com queda de 17% nas vendas de aço no trimestre); CEMIG (queda de 93% no lucro, com R$ 29 milhões), Light (prejuízo de R$ 53 milhões depois do lucro de R$ 321 milhões no trimestre anterior) e CPFL (com um lucro de R$ 97,4 milhões).  

 

 

 

 

 

 

 

1 – Usuários externos são os principais destinatários das demonstrações contábeis e são os investidores e credores em geral. (segundo o CPC, Estrutura Contábil, Cap. 1; in Ferreira, R.J. , 2013 ; “Contabilidade Avançada”, RJ, Ferreira) 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com