BC quer câmbio domado e a defasagem aumento da gasolina é miragem.

O Copom divulgou a ata de sua última reunião e culpou o dólar e a energia elétrica pela inflação . Com a energia elétrico tudo bem, mas o dólar é o menos culpado dessa história; subir os juros só vai tornar mais difícil e dolorosa a inevitável correção da balança comercial que está com sua trajetória mais do que insustentável. Observo que na questão "aumento da gasolina" a maior furada que alguém comete é acreditar na defasagem dos preços internos em relação aos externos.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central sou a ata da última reunião e ela foi trivial. O BC subiu a taxa de juro por que a inflação está alta e é resultado da  “ocorrência de dois importantes processos de ajustes de preços relativos na economia – realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais e realinhamento dos preços administrados em relação aos livres”. Entenda-se: o dólar está subindo e houve um forte aumento dos preços de energia. Então o BC subiu a taxa básica para compensar os efeitos disso e evita rum descontrole inflacionário. Veja o gráfico abaixo:

 

Há quatro períodos, sendo dois de apreciação e dois de desvalorização do real em relação ao dólar. Veja os resultados:

 

 

Fica evidente que as relações diretas entre a taxa de câmbio e o IPCA não são triviais. Apreciando-se 10,87% ao ano ou desvalorizando-se 71% a.a., a taxa de câmbio pouco afetou o IPCA entre 2006 e 2009. Já para o período de 2009 até agora, mesmo com a forte oscilação do câmbio, a inflação ficou irredutível entre 5,5% e 6%. Há quem diga que a política monetária foi capaz de fazer isso; há quem diga que a credibilidade da política econômica é o fator principal. Mas estamos falando de uma oscilação de -32% a 58% de um dos preços mais importantes da economia! Há mais coisas por trás dessa resistência da inflação em relação ao câmbio e uma das mais importantes é que os preços internacionais também variaram em dólares, tornando os preços em reais mais estáveis, mesmo diante dos movimentos da taxa de câmbio. Em termos teóricos, seria mais provável, portanto, que a taxa real de câmbio não tenha oscilado tanto como a taxa nominal, porque os preços internacionais em dólares compensaram as variações da taxa de câmbio. E isso é aparentemente mais importante que o movimento da taxa de juros, que cumpre um papel relevante não na estabilização dos preços domésticos, mas na “suavização” dos movimentos da taxa de câmbio, pelo fato atrair ou afastar o capital estrangeiro. Considero, portanto, a alta da taxa de juro como mais um movimento do BC no sentido de evitar uma desvalorização contínua da taxa de câmbio que, ao contrário, deveria subir mais para ajustar a balança comercial. Para a inflação pesaram mais os aumentos de alimentos e energia elétrica, que responderam por cerca de 40% da inflação acumulada até setembro. O importante, de fato, é que esse aumento na taxa Selic deixou o mercado um pouco menos intolerante com a política econômica.

 

Coisa parecida ocorre com a Petrobrás. O governo insistiu, na última reunião do Conselho de Administração da Petrobrás em se preocupar em demasia com a inflação e desprezar os efeitos, extremamente negativos, da manutenção dos preços dos combustíveis. A Petrobrás está com sua situação financeira debilitada por conta dos aumentos investimentos que fez e precisa recuperar caixa. A única forma de fazer isso é aumentando os preços dos combustíveis. I impacto disso na inflação é alto, mas é um custo necessário a ser pago pela sociedade, já que todos serão compensados pelos futuros resultados da exploração do pré-sal. Além  disso, essa é uma ideia simpática a quem quer punir os usuários de combustíveis fósseis. O governo vem incentivando a compra de automóveis pela população, por meio das isenções tributárias e pela enorme oferta de crédito. E poderia criar esse “custo adicional” a quem polui. O aumento dos preços também é bom porque deixará o mercado mais calmo. Ainda que o governo deva priorizar os interesses de seus cidadãos aos interesses dos mercados, a forte volatilidade das ações acaba por deprimir os investimentos. E poderia elencar mais uma dezenas de motivos para apoiar a tese dos aumentos de combustíveis. O QUE NÃO PODEMOS DIZER É QUE HÁ DEFASAGEM COM OS PREÇOS INTERNACIONAIS. Veja o gráfico:

 

 

 

Ele é a cotação do barril do petróleo tipo Brent, negociado na bolsa de Londres, convertido em reais pela cotação do dólar no dia. Assim temos aí o preço em reais do petróleo mais negociado no mundo: e ele caiu cerca de 11% de novembro de 2013 para cá. No mesmo período a Petrobrás teve aumento de suas receitas em cerca de 7% (entre petróleo, gás, óleo diesel e derivados). Dizer que houve defasagem de preços é cometer um erro, para dizer pouco. Mas viva o aumento!

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com