Conservadores vencem eleições nos EUA. Ruim para a economia global.

Obama perdeu a maioria do Senado e agora terá dificuldades em manter suas políticas e isso deve aumentar, aos poucos, a volatilidade dos mercados. Em meio a um processo frágil de recuperação essa notícia não foi boa. Além disso, os conservadores exigirão, cada vez mais, posições mais duras na política externa, aumentando as tensões globais. E mais: bons dados do mercado de trabalho, queda dos preços de petróleo e minério de ferro e ansiedade na espera pelo aumento, já certo, dos combustíveis pela Petrobrás.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Ontem o Conselho de Administração da Petrobrás deu carta branca para o aumento dos combustíveis e a Diretoria deve anuncia-lo em breve.   O “boato médio” diz que vai ser algo entre 5% e 8%. Houve muita gente que reclamou pelo fato do aumento não ter sido anunciado ontem mesmo, mas isso é detalhe. O aumento está dado e isso nem é mais importante. Importante foi a estratégia definida pelo Conselho para o próximo período e os resultados do terceiro trimestre. O ambiente para a empresa está turbulento: o seu controlador passou por um teste eleitoral; a nova diretora deve ser definida, com uma pressão enorme do PMDB; a empresa está  sob a mira de investigações policiais; os planos de expansão na prospecção, refino e transporte se veem com um mercado menos disposto a financiar a empresa, altamente endividada e, não menos importante, o mercado global de petróleo está em queda. Eis um quadro que pode ser chamado de tudo, menos trivial. Considerando a velocidade de decisão do controlador e a ansiedade dos mercados,  as ações vão sofrer com a volatilidade, mas dentro da normalidade recente. Pelo sim, pelo não, o mercado está descontando o papel em uma queda de 2,5%.

Hoje o minério de ferro bateu sua mínima em cinco anos, saindo a US$ 76 a tonelada. Veja o gráfico dos preços mensais do minério:

A tendência não é animadora, posto que a atividade econômica da China deve continuar em baixa, sobretudo nos setores mais intensivos no uso do ferro, como as construções de infraestrutura. Os estoques globais estão subindo e o fundo do poço não é tão claro. Note que esse movimento se dá um com juros muito baixos e enorme liquidez internacional. No período pré-crise, até 2008, a alta das commodities foi atribuída às especulações dos fundos hedge, que ganhavam rios (oceanos, talvez!) nos mercados futuros. Sempre fui cético em relação a esse diagnóstico, posto que em qualquer commoditie precisaria ser estocada, de sorte que os fundos conseguissem sustentar seus preços no mercado à vista em uma tendência tão longa. O gráfico acima mostra uma alta de 1042% do minério, de 2004 a 2011, resultando em uma alta de 23% a.a.. Foi um dos maiores ciclos históricos de alta dos preços das matérias primas e dos alimentos e ele resultou do forte crescimento dos países emergentes liderados pela China. Todo um ciclo anterior da história econômica brasileira, que pode ser contado em décadas, foi de enorme constrangimento do crescimento por conta dos baixos preços das commodities. Após subirem fortemente no pós Segunda Grande Guerra, eles caíram como resultado da diminuição cíclica do crescimento global, sobretudo a partir do ciclo de juros longos feitos pelo Federal Reserve, sob a liderança de Paul Volcker. Preços tão baixos, como os do petróleo e do minério de Ferro, indicam que a o ciclo de baixo crescimento e risco deflacionário existe e pode se intensificar se nada for feito.

E é a partir dos riscos de desaceleração global e deflação que chegamos às eleições para o Congresso odos EUA. Os republicanos, que já tinham a maioria da Câmara dos Deputados (House), obtiveram a maioria absoluta no Senado. Veja o quadro abaixo:

Obama agora terá que negociar com os conservadores ávidos para voltar ao poder depois de oito anos de afastamento. Vão querer acabar com o programa Obama Care , que tentou democratizar o acesso aos planos de saúde para a população de baixa renda. A saúde, nos ESUA, é uma das piores dentre os países de alta renda e o seu programa foi um dos pontos mais atacados pelos republicanos. Além disso, os conservadores exigirão uma postura mais “hawkish” (falcão) tanto na política externa como na política monetária. E com uma política externa mais dura, podemos esperar por um mundo ainda mais instável do ponto de vista das guerras. A única boa notícia para Obama foi a aprovação, em diversos estados, do aumento dos salários mínimos. Veja os aumentos por estado:

Eles subirão gradativamente, de acordo com cada estado, e o Congresso ainda votará o aumento proposto por Obama, para US$ 10,10. Essa é outra questão vista como fundamental pelo presidente Democrata, mas é demonizada pelos republicanos, que veem o salário mínimo como uma fábrica de desemprego1. Também ficarão mais  ouriçados os falcões do Comitê de Política Monetária do FED, que hoje são uma pífia minoria. Uma derrota de Obama agora sinaliza um aumento das chances de vitória de Mitt Romney, provável candidato republicano para as próximas  eleições. Nesse caso, com um governo republicano, Janet Yellen seria substituída por um presidente de banco central mais conservador, do tipo que tem alergia à inflação, mesmo quando o problema é a deflação. E é por isso que vejo a derrota de Obama como a derrota do Quantitative Easing e como a elevação da chance de termos uma política monetária mais dura depois do fim do mandato da atual presidente, que termina em 2018. Apesar de ainda estarmos longe disso, é bom lembrar que a estrutura dos juros de mercado lida com títulos de dez anos.

Por enquanto, a maior economia do planeta vai se beneficiando da gestão positiva do FED que teve mais uma boa notícia: a ADP Systems contabilizou a criação de 230 mil vagas em outubro, veja o gráfico:

Esse é um bom indicador para o dado a ser divulgado na sexta, sobre o mercado de trabalho. Vale lembrar que o mercado de trabalho é o grande termômetro que o FED utiliza para balizar sua estratégia de administração do Quantitative Easing. Tudo indica que o plano está conseguindo sustentar a economia, a despeito dos obstáculos internos e externos.

 

 

 

 

(1)   Os republicanos acreditam que ao colocar um piso no salário, o governo impede que, nas fases de baixa na atividade econômica, os salários caiam. Essa queda estimularia as empresas a contratarem mais gente, evitando o desemprego. Com o mínimo fixado pelo governo, essa queda não ocorre e isso aumenta o desemprego. Você, de lima forma ou de outra, conhece bem essa discussão.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com