Os desequilíbrios do Brasil e do mundo.

Mesmo com uma desvalorização cambial de cerca de 50% desde 2011, nosso saldo da balança comercial continua a cair. A fonte principal dessa queda está na desaceleração da Europa, da China e da Argentina. Essa mesma causa explica, em grande medida, a queda da produção industrial brasileira, que acumula queda de 3% no ano. Nem mesmo as desonerações tributária e a oferta de crédito dos bancos públicos impediram o derretimento de nossa indústria.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A agenda para o comentário de hoje está lotada de assuntos relevantes: a revisão do crescimento da União Europeia e da Zona do Euro; preços do petróleo; resultados de bancos no Brasil; o IPC da Fipe de outubro; o saldo comercial de outubro e a produção industrial e a expectativa em torno do reajuste dos combustíveis pela Petrobrás. De uma forma ou de outra estão todos ligados.

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A Comissão Europeia revisou para baixo a sua projeção de crescimento para a Zona do Euro: 0,8% frente aos 1,2% projetados meses atrás. Alguns países: Alemanha (1,8%), Irlanda (1,7%), Grécia (0,6%), Espanha (1,1%), França (1,1%) e Itália (0,6%). Todos esses países participaram da crise de 2008, socorrendo seus sistemas financeiros e, com isso, elevando suas dívidas soberanas. Para os mais pobres houve o ataque de 2010/2011 que fez com que seus títulos derretessem e suas economias afundassem ainda mais na recessão. A solução, gerenciada pela Alemanha, pela Comissão Europeia, pelo BCE e pelo FMI foi um ajuste fiscal radical. Hoje, com cerca de 19 milhões de desempregados - dentre os quais 3,3 milhões de jovens abaixo dos 25 anos - os europeus esperam a recompensa pela austeridade praticada nos anos anteriores. Eles têm claro, nos dias de hoje, que o ajuste baseado em austeridade produz mais desemprego, desigualdade e baixo crescimento e que o “milagre” do crescimento sustentado não existe. O PIB da região, como já coloquei em outro “post”1, está cerca de 15% abaixo de onde estaria, caso tivesse crescido, desde 2008, pela sua média histórica. Eis o preço de um “choque” financeiro curado pela austeridade. Os EUA mostram que a realidade poderia ter sido completamente outra. Tendo um PIB de 4,7 trilhões de euros2 essa perda é de cerca de 710 bilhões de euros, ou coisa de 2.180 euros por habitante.

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Muito relacionado à desaceleração da Zona do Euro,  da Argentina e da China, o saldo comercial de outubro foi anunciado ontem e foi um déficit de US$ 1,2 bilhões. Veja o gráfico dos saldos acumulados em dólares:

 

Após atingir o pico histórico de US$ 51 bilhões em jul/2007, ele despencou continuamente e hoje estamos na posição de 2002, mesmo com o real tendo se desvalorizado em 47% desde 2012. Atuam para “anular” parte dos efeitos da desvalorização a queda dos preços das commodities e a forte desaceleração de nossos parceiros comerciais. Veja o gráfico do CRB, índice composto por uma série de produtos básicos, que nos dá uma ideia da queda dos preços:

 

Do pico mais recente de 2011, quando ele estava em 367, o índice despencou 27%, sendo 15% apenas de julho para cá. Se levarmos em conta, ainda, o papel da desaceleração da Zona do Euro e da Argentina, podemos entender um pouco mais a forte inversão do saldo comercial. Abaixo o gráfico com o saldo anual com os principais países da Europa:

 

Desde a crise, saímos de uma posição levemente credora até atingir um déficit de cerca de US$ 16 bilhões. Essa inversão ocorre por conta da forte desaceleração da região que passa a importar menos e lutar acirradamente para exportar mais. A Europa entrou com uma reclamação formal contra ao Brasil junto à OMC para que o país retire de sua política o apoio aos setores industriais atingidos pela crise. Dentre outras medidas, exigem o fim das isenções a setores específicos e fim da exigência de conteúdo nacional. Com esse saldo comercial ficará muito difícil aos representantes europeus justificar essa demanda. A única ação firme que o governo deve ter, no momento, é a desvalorização da taxa de câmbio, que deve continuar até que a balança reaja3.

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A produção industrial de setembro caiu “apenas” 0,2% e acumula queda de 2,9% no ano. Todos os setores caíram no ano, veja a tabela do IBGE:

 

 

O destaque é para os bens de capital e eles refletem a forte queda dos investimentos e as importações.  Dos duráveis, o destaque é queda das exportações de automóveis para a América Latina das vendas para o mercado interno, apesar das isenções tributárias e do crédito via bancos oficiais. É de se esperar que a indústria comece a reagir a partir de outubro, com a redução do ruído político e com a intensificação dos efeitos da desvalorização cambial.

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A Fipe divulgou o IPC de outubro e ele fechou em 0,37%. Veja o gráfico e a tabela:

 

Novamente a alimentação representou a maior alta e foi responsável por 50% da inflação de outubro. Vale notar que ela veio pressão da carne, encarecida pela seca e pela demanda russa e, de outro lado, pelas culturas de hortifrutigranjeiros afetadas pela seca. Ainda é cedo para prever uma queda, mas é provável que ela ocorra por conta das chuvas em novembro. Já a carne deve continuar pressionada, pois Ângela Merkel sinalizou hoje que o boicote À Rússia não tem data para acabar.

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O Banco Itaú divulgou seu resultado do terceiro trimestre e ele veio em R$ 5,4 bilhões, acima da expectativa de R$ 5 bilhões do mercado. Houve crescimento de 35% frente ao resultado do terceiro trimestre do ano passado. Já o Santander apresentou um resultado de R$ 536 milhões, bem abaixo dos esperados R$ 1,3 bilhões. A Porto Seguro veio com lucro de R$ 232 milhões, com alta de 33% em relação ao mesmo trimestre do ano passado.

A Bovespa, apesar dos bons resultados dos bancos, está operando em queda, com destaque para Vale5 (-3,5%) e Petr4 (-3%).

A Petrobrás terá a reunião do Conselho de Administração em Brasília, que deverá aprovar as demonstrações financeiras do terceiro trimestre e deliberar pela alta dos combustíveis. Em relação aos preços dos combustíveis vale um destaque: o petróleo continua despencando no mercado internacional. Além do crescimento dos estoques dos EUA, que já vem ocorrendo sistematicamente ao longo do semestre, o mercado foi surpreendido com a notícia de que a Arábia Saudita reduziu os preços para exportação para o mês de novembro.  Veja o gráfico do petróleo Brent, negociado em Londres:

 

 

O petróleo acumula queda de 27% desde seu pico de US$ 115 em julho. Decidir por um aumento de combustível nesse momento é complicado, para dizer o mínimo. Afora essa questão, o mercado aguarda o desenrolar dos aspectos “policiais” oriundos da operação Lava a Jato.

 

 

(1)    http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/10/a-europa-em-crise-e-as-contas-do-brasil.html .

(2)    file:///C:/Users/robo/Documents/pib%20zona%20do%20euro.pdf .

 

(3)    A macroeconomia tem diversos modelos para determinar a taxa de câmbio de equilíbrio. Ela deveria levar a um equilíbrio externo compatível com o equilíbrio interno (de baixa inflação e pleno emprego). Mas essa formulação do problema nega o fato central da balança comercial: ela nunca está em equilíbrio. No entanto, com uma trajetória tão desfavorável, que implica em redução do nosso crescimento e aumento de nossa exposição externa, a desvalorização torna um instrumento óbvio.   

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com