Os BC´s e a ladainha da credibilidade

Um discurso um pouco mais altista de juros no FED e a alta de 0,25% da SELIC no Brasil,  foram suficientes para deixar os economistas dos mercados muito felizes. A demonstração de alergia à inflação faz com que os mercados fiquem sensivelmente mais alegres e otimistas, mesmo que isso não represente, de fato, a solução dos graves problemas econômicos nem dos EUA e nem do Brasil. Nos EUA o PIB veio mais acelerado que o esperado e os resultados de Vale e Petro estão movimentando o pregão da Bovespa.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Os bancos centrais dos EUA e do Brasil surpreenderam os mercados. O FED fez um discurso um pouco mais altista de juros do que era esperado e o BCB subiu a taxa Selic em 0,25%. Em ambos os casos os mercados gostaram, afinal bc´s devem mostrar, na média das opiniões dos economistas do ramo, alto compromisso com a as regras. E as regras são: os juros devem ter um viés de alta quando você quer ser amigo dos mercados; ser amigo dos mercados é bom porque os juros longos ficam com menos prêmios e isso induz ao crescimento. Então o  negócio dos bancos centrais para os economistas dos mercados é ter credibilidade junto a eles; e como se a obtém? Vejamos um grande teórico da política monetária falando sobre isso:

Estabelecer as formas de compromisso em um modelo teórico, no entanto, é muito mais difícil do que na realidade. A questão resume-se,   então, se é possível existirem alguns mecanismos institucionais que possam atingir os efeitos ideais do comprometimento da     política (monetária). Talvez a resposta mais útil para essa questão foi dada por  Rogoff (1985), que propõe simplesmente a nomeação de um banqueiro central conservador, o que significa alguém  com uma aversão maior à inflação do que qualquer um na sociedade”1.  

Como toda a teoria que fundamenta a visão de política monetária da maior parte dos economistas do mercado se baseia nesse modelo, então podemos dizer que eles enxergam que o banqueiro central deva ser um completo alérgico à inflação (mais do que qualquer agente) e que isso já basta para que ele tenha confirmado seu compromisso que é, justamente, combater a inflação. Evidente que essa é a visão dos economistas do mercado e está longe de ser uma verdade absoluta, apesar dos mesmos a considerarem exatamente isso. Então, se Janet Yellen diz que “as coisas vão bem e  vamos encerrar nossas compras de títulos” (que são emissão de moeda), os economistas de mercado gostam, já que veem nisso um passo no FED na direção da alta dos juros. Lembre-se: os banqueiros centrais devem ser alérgicos à inflação, mesmo que essa inflação seja zero, ou quase zero. Ainda que as ações tenham caído depois desse discurso, os economistas ficaram eufóricos. 

O mesmo vale para Brasília: o fato de três dos cinco diretores do BC terem decidido pela elevação da Selic em 0,25% fez os economistas do mercado mais felizes. O único efeito prático dessa alta (ou das próximas três que são esperadas) é que ela torna nosso país mais atrativo para os gringos e atua para valorizar nossa moeda. Para a inflação mesmo, nenhum efeito prático, zero. A nossa inflação está alta por conta do super-choque causado pela seca, a Selic não fará chover. Mas como os economistas viram nessa ação uma “aversão à inflação” por parte dos diretores do BC, as taxas de juros longas caíram2 e o dólar caiu. No final, essa alta dos juros é como um remédio de homeopatia: se tomado aos pouquinhos, mal não faz, e pode até ajudar por conta do efeito “placebo”. 

Da mesma forma, o FED conseguirá manter a economia nos trilhos, deixando os economistas mais alérgicos à inflação um pouco mais satisfeitos. Na prática, o FED deve manter sua estratégia intacta: manter os juros baixos e a elevada oferta monetária  pelo tempo que for necessário.

Hoje, nos EUA, foi divulgado o PIB do terceiro trimestre e ele veio bem acima do esperado pela Bloomberg (3%) e pelo Wall Street Journal (2,8%): uma alta anualizada de 3,5%, depois de subir 4,6% no segundo trimestre. Veja o gráfico:

 

Todos os componentes da demanda ajudaram no crescimento: consumo das famílias, investimentos, acumulação de estoques, gastos das três esferas governamentais e, finalmente a queda das importações. Esse dado implica no aumento das crenças dos economistas dos mercados de que o FED pode antecipar a alta dos juros. Mas essa é outra estória.

Por conta da alta dos juros aqui, o dólar voltou a cair e está saindo a R$ 2,41, o que é muito ruim. Subir os juros faz com que o dólar caia e a queda do dólar piora nosso saldo comercial. E isso é ruim já que temos um déficit de transações correntes acima de 3,5% do PIB e em crescimento. A inflação, como disse, está alta por conta do super-choque de oferta oriundo da seca, que elevou os preços dos alimentos e da energia; e com eles sobem diversos outros preços. Hoje a FGV divulgou o IGP-M e ele veio em 0,28% depois dos 0,20% de setembro. O IPC está em 0,46% com a alta dos alimentos e da energia contribuindo fortemente. Em doze meses o IPC subiu 6,82%, com alta de 8,57% da alimentação e 6,98% da energia. A menos que o regime de chuvas se normalize, teremos a manutenção desse quadro por vários meses.

Mas, muito além dessas questões de inflação e política monetária, a Bovespa está assimilando os resultados de Bradesco e Vale do Rio Doce: o Bradesco lucrou R$ 3,875 bilhões no terceiro trimestre, com alta de 26% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, mesmo com um crescimento menor da carteira de empréstimos; já a Vale amargou um prejuízo de US$ 1,4 bilhões que ninguém esperava. A Petrobrás também pode pegar embalo, já que se espera um anúncio de aumento dos combustíveis para amanhã. 

Dilma reinventou Maquiavel: ele dizia para fazer todo o mal de uma vez; ela preferiu fazer o bem. Dos mercados, para garantir algumas noites de sono.

 

 

 

 

 

 

(1)    Clarida, R; Galí, J. e Gertler, M - “The Science of Monetary Policy: A New Keynesian Perspective” Journal of Economic Literature, December 1999.

 

(2)    É o efeito inverso do que seria de se esperar: se as taxas de juros longas caem, os investimentos tendem a subir. Se os investimentos sobem a demanda sobe e isso exerce ainda mais pressão sobre os preços. Mas como eu disse, pouco importam os efeitos, o fundamental é que os economistas vejam compromissos. 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com