A agenda do mercado não vai colar no curto prazo.

O mercado está definitivamente engajado no "terceiro turno" da economia: impor ao governo Dilma a sua agenda. Acredito que, apesar das dificuldades extremas enfretadas pelo governo, ele não se entregará e isso será fonte de turbulências por um bom tempo. O IPC Fipe mostra os aliemntos em alta forte e, nos EUA, dados apontam para manutenção do discurso "dovish" de Janet Yellen.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Após a forte de queda de ontem, os mercados vão retomando sua rotina, com a bolsa subindo, dólar e juros caindo. Há exageros claros, mas não é provável que a agenda dos mercados vá ser encerrada com a vitória de Dilma. Como coloquei no “post” de ontem, o governo não começou e as demandas sobre ele já estão batendo à porta. O “emparedamento” da política econômica por parte dos mercados é algo que já discuti e ele está tentando se consumar nas manchetes da imprensa: o mercado quer a equipe econômica com nomes amigáveis1; o mercado quer alta dos juros para recuperar a credibilidade da política monetária; o mercado quer um choque fiscal, com aumento abrupto do superávit primário para restaurar a credibilidade da política fiscal ; o mercado quer mudanças nos marcos regulatórios e a lista segue, infindável. O mercado praticamente quer que Aécio Neves assuma a condução da política econômica, com seu programa, apesar de não ter sido eleito. Aliás, essa tem sido a postura de alguns atores da política, que insistem no terceiro turno: tentam iniciar a campanha pelo impeachment de Dilma Roussef. Mas Dilma foi clara em suas proposições; vai continuar com sua política anti-cíclica, no lado fiscal, e com a política monetária que absorva os choques primários da seca sem prejudicar o pleno emprego. Pode fazer uma concessão aqui ou acolá, mas o cerne da política não irá embora com Guido Mantega. E essa, para mim, é uma fonte de atritos com o mercado tal qual o círculo de fogo do pacífico, origem de terremotos, maremotos e tsunamis. Os desafios que o governo Dilma enfrenta (inflação, déficit externo e piora do superávit primário) não serão resolvidos em comum acordo com os mercados. Pior para os investimentos, já que não haverá ajuda do crescimento externo.

Hoje a Fipe divulgou o IPC da 3ª quadrissemana de outubro e ele veio em leve alta. Veja o gráfico e a tabela:

 

 

Os alimentos subiram 1,08% e contribuíram com 66% da inflação, ou 0,24%. Não fosse ela, o IPC teria vindo em 0,13%. A leve aceleração deve continuar se a seca perdurar. As culturas de hortaliças e a manutenção dos rebanhos estão com a água sendo racionada no interior de SP e o regime de chuvas não se normalizou. A alta do dólar, por outro lado, atua para puxar para cima os preços de grãos e da carne. O cenário inflacionário está ruim, apesar da forte desaceleração da economia.

Nos EUA tivemos a divulgação de dados fracos no setor industrial, com as encomendas de bens duráveis em queda de 1,3%. Veja o gráfico:

 

Outro indicador importante, o de preços de residências, o S&P Case Schiller, veio em queda, mostrando que o setor está esfriando. Veja o gráfico:

 

Por fim, contrariando os outros dois indicadores, a Confiança dos Consumidores está em alta forte e atingiu o melhor nível desde 2007. Veja o gráfico:

 

É nesse cenário que o Federal Reserve reúne o Comitê Política Monetária e anuncia amanhã os seus próximos passos no sentido de normalizar a política: acabar com as compras de títulos junto ao mercado, reduzir o aumento da oferta monetária e iniciar o aumento dos juros. Espero que Janet Yellen continue com seu discurso “dovish”, de tranquilizar o mercado quanto aos prazos de manutenção da forte liquidez e juros zero, por muito mais tempo. Apesar dos enormes progressos assistidos nos indicadores de atividade, a maior economia do planeta ainda precisará ficar na UTI por mais algum tempo.

É interessante notar que lá também há os que temem a inflação, apesar dos enormes riscos de deflação. Querem que o FED comece a retirar os estímulos monetários antes que o dragão inflacionário arrase a economia. Mas não terão vez...

 

 

 

 

 

1 – Ontem um grão tucano disse que não basta colocar um “pau mandado” no ministério. É necessário colocar alguém que seja firme e não dependa de Dilma para fazer política econômica. Isso não foi, definitivamente, um elogio a Guido Mantega. Isso depois de uma analista chamar a presidente de “poste”. É claro, o nível dessa discussão está fora da classificação normal. Por mais que existam divergências - e sérias divergências - a forma como alguns críticos se comportam faria Pantagruel sentir-se um noviço.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com