A vitória de Dilma implica em manutenção da política econômica atual.

Os mercados derreteram com a vitória de Dilma. Apesar da imprensa falar em "diálogo", os pontos centrais do que é reclamado pelos mercados não vão ser entregues de bandeja por Dilma tão cedo. Corte da oferta do crédito, corte de gastos e aumento de impostos e mudança na gestão da Petrobrás não devem ser vistos como um programa a ser realizado nos primeiros meses desses quatros anos. O máximo que considero provável é uma leve alta dos juros para alegrar aos mais descrentes com a dinâmica inflacionária.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Às 20:00 horas de ontem, quando foi anunciado o resultado das eleições, a credibilidade dos institutos Sensus, Veritá e Paraná evaporaram . O pregão de sexta feira, que teve uma alta meteórica de Petrobrás, baseada nessa pesquisa e em dois supostos trackings de duas importantes financeiras nacionais, foi um dos momentos mais esdrúxulos da história do mercado financeiro. Alguns bilhões de dólares trocaram de mãos,  sob o patrocínio de uma pesquisa completamente manipulada e pelo boato acerca dos trackings. Mas ao que interessa: os ativos brasileiros já estão sofrendo a correção esperada e Petrobrás bateu o seu valor, em dólares, muito próximo ao seu mínimo em dez anos, veja o gráfico:

 

Na sua mínima, R$13,76, e com o dólar cotado a R$ 2,52, a ação ficou a US$ 5,46, muito próxima ao “fundo” de março desse ano e muito abaixo dos R$ 6,84 dos pregões da crise global de 2008. O próprio Ibovespa, que tem empresas privadas e é muito representativo do valor do capital no Brasil, tem esse comportamento , voltando ao patamar de março desse ano. Veja o gráfico:

 

As taxas de juros para 2017 também explodiram, refletindo a mudança de percepção em relação ao risco Brasil:

 

Também por conta dessa aversão, o dólar explodiu e está saindo a R$ 2,52, veja o gráfico:

 

Toda essa queda de valor dos ativos brasileiros é uma reação dos investidores à política seguida pelo governo e que tem como pontos cruciais de desacordo no curto prazo:

1)      – A inflação subiu e pode ficar sem controle caso o governo não faça nada.

2)      – A política fiscal está frouxa e deve ser reapertada para que a relação dívida/pib se estabilize.

3)      – A política de gerenciamento da Petrobrás deve mudar para que seus indicadores de endividamento e rentabilidade melhorem.

4)      – As intervenções do governo no setor bancário, via CEF, BB e BNDES devem mudar para que haja mais espaço ao setor privado.

Resolvidas essas questões - e essa é a visão corrente do mercado e de muitos economistas brasileiros – o estado de confiança melhoraria e os investimentos subiriam, fazendo o crescimento se acelerar em uma rota sustentável. A imprensa destacou que Dilma promete “diálogo” com a sociedade, mas é pouco provável que os quatro pontos acima sejam entregues de bandeja no curto prazo.

Hoje o responsável pela análise para América Latina do Banco Goldman Sachs recomendou que o BC suba imediatamente os juros para que a credibilidade da política monetária seja retomada e, com isso, as expectativas sejam ancoradas. Acredito que de todas as quatro questões, essa é a mais fácil de ser atendida: se subir em dois pontos percentuais a Selic assegura que o BC ancore as expectativas, então está barato. Uma alta da Selic pode derrubar os juros longos e acalmar o mercado por algum tempo. Mas a inflação não está subindo por conta de juros baixos: ela está subindo por conta de um enorme choque oriundo da seca. Alimentos e energia elétrica atuaram diretamente para a alta do IPCA e os seus efeitos secundários só não foram maiores porque a economia já estava em desaceleração.

A política fiscal não será alterada no curto prazo porque a visão do governo é a oposta da do mercado: como a economia desacelerando, cortar gastos ou aumentar impostos implicará em aumentar ainda mais os efeitos recessivos da queda dos investimentos e do setor externo. A visão do governo é sustentar a demanda pelo gasto público até que o setor privado volte a gastar. Nesse sentido, o governo prefere aumentar a dívida pública no curto prazo para sustentar a taxa de crescimento. E essa posição será mantida a qualquer custo, mesmo com a forte pressão dos mercados no sentido contrário. Acredito, no entanto, que uma via intermediária pode ocorrer, afinal, os esforços feitos no lado dos gastos do governo podem ser diluídos pela queda dos investimentos por conta da alta dos juros e queda das bolsas. “Comprar” a confiança dos investidores na política fiscal é mais difícil1 , pois ela tem efeitos depressivos muito elevados. Porém, o futuro ministro poderia fazer um “compromisso” com os mercados por meio de um discurso mais transparente. Mas não acho que isso vá ocorrer tão cedo.  

Tanto a política de gerenciamento da Petrobrás como a questão dos bancos públicos, uma vez mais, devem continuar exatamente como estão. São questões vistas como programáticas pelo governo e não sofrerão mudanças para acalmar os ânimos. O máximo que veremos serão mudanças de comunicação, não de conteúdo.

Não haverá, por mais que se pressione o governo por isso, as mudanças sugeridas pelos mercados ou pelos economistas mais alinhados com o programa tucano. A recuperação do Brasil, portanto, deverá ser mais lenta e altamente dependente da melhora do setor externo. A única coisa que pode ajudar, e muito, é o BC deixar o câmbio se desvalorizar. Mas, novamente, o BC está “amarrado” com a enorme dívida externa do setor privado, que pode sofrer um estrangulamento se a moeda continuar a perder valor.

Portanto, tal como tenho dito: um governo Dilma traz para o presente a maior parte dos efeitos de uma piora do cenário de 2015 no cenário global; o governo Aécio traria euforia agora, mas pioraria na crise global, depois.

 

(1)    Como vimos recorrentemente nos anos 1990 e 2000 no Brasil e temos visto nos PIIGS.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com