Efeito "Lurian" ou efeito "Maluf"?

O mercado, pelos preços atuais, parece ter colocado uma chance próxima de 40% da pesquisa da IstoÉ estar certa e da denúncia de Veja em produzir um efeito "Lurian". Acho essa aposta pesada demais, já que Ibope e Datafolha parecem ser menos enviesados e o efeito "Lurian" pode virar um efeito "Maulf".
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O mercado está subindo fortemente hoje, descolando-se do exterior que opera em queda. Há quem argumente que isso é resultado da pesquisa IstoÉ/Sensus. Há quem argumente que isso é resultado da “bala de prata” desferida por Veja e que pode significar o impeachment de Dilma, caso eleita.  Ainda que a maioria dos modelos teóricos confira ao mercado a característica da racionalidade (dois terços do Nobel de Economia do ano passado foram dados a dois economistas que comungam com esse credo1) , fico com a minoria que acredita que os mercados são movidos pelo “Espirito Animal”. E hoje é o Espírito animal que comanda a alta de mais de 4% em Petrobrás, já que há um viés de preferência do mercado: a aposta majoritária está em que a pesquisa IstoÉ/Sensus e a “bala de prata” de Veja podem valer alguma coisa em termos probabilísticos. Vejamos:

1 – Até onde pode cair a bolsa em caso de vitória de Dilma: levando em conta que o mercado caiu incríveis 9% em três pregões e acumula queda 15% desde 06/10, é pouco provável que os agentes estejam com apostas muito pesadas em relação à vitória de Aécio (isso significa, em termos técnicos, que o mercado não está muito alavancado). Se isso é verdade, uma vitória de Dilma não produzirá um forte undershooting2, que seria de se esperar em um pânico no pregão de segunda.  Se o “consenso” do mercado coloca o índice Ibovespa em 46.000 em caso de vitória de Dilma, ele teria 5 mil pontos para perder no pior cenário.

2 – Até onde pode subir a bolsa em caso de vitória de Aécio: há quem diga que a bolsa pode subir até os 62 mil pontos. Mas como o mercado não está alavancado, aí surge, sim, a possibilidade de overshooting: muita gente pode estar mais defensiva e, ao tomar suas posições pode fazer que o movimento “exagere” e passe de seu ponto de equilíbrio. Vamos dar mais 2 mil pontos ao overshooting: a bolsa chega aos 64 mil pontos. Nesse caso haveria 13 mil pontos para ganhar em caso de vitória de Aécio.

Então, pelo que levantamos em (1) e (2): quem ficar comprado no índice pode perder  5.000 pontos ou ganhar 13.000 pontos. Há uma vantagem de 8 mil pontos para a vitória de Aécio. Imagine agora que o mercado fique indiferente a comprar ou vender se o resultado é zero, ou dito de outra forma, se a probabilidade de ganhar 13 mil pontos for igual à probabilidade de perder  5.000 pontos. Isso equivaleria a dizer que o mercado poderia estar trabalhando com a probabilidade de Aécio ganhar de cerca de 30% contra 70% de chance de Dilma ganhar. Essa alta, portanto, pode significar: o mercado dá 30% de chance de IstoÉ e Veja estarem certos e tem 13 mil pontos para ganhar, caso esteja certo ou 5 mil para perder, caso esteja errado. É uma relação de risco/retorno de 2,6m o que pode ser atraente. Sob o ponto de vista de E.Fama, essa pode ser uma aposta legal. Mas é necessário acreditar que IstoÉ e Veja valham, de fato, os 30%. E, pelo histórico de ambas e por sua declarada preferência eleitoral, os 30% estão caros demais! Do ponto de visto do histórico e da racionalidade, seria melhor pagar menos por essa aposta, mas como Schiller aponta, o mercado é dominado por seu Espírito Animal. Há algo nessa decisão que extrapola a simples racionalidade e joga um peso em algo mais interessante: é muito melhor ganhar 13 mil do que perder os 5 mil, logo, vamos apostar nessa relação que ela pode dar certo! Esse viés para o lado do ganho é algo que viola a racionalidade, mas está presente em todas as decisões dos agentes econômicos, sobretudo no mercado financeiro.

Esse viés pode estar fundamentado pelo fato de que em 1989 a eleição foi definida dias antes do pleito, pelo surgimento da denúncia de que Lula tinha uma filha fora do casamento. Fernando Collor, em debate na rede Globo dias antes da eleição em segundo turno, apresentou ao Brasil o fato de que Lula, que estava em ligeira vantagem nas pesquisas, tinha uma filha, Lurian Cordeiro, fora do casamento e que jamais fora assumida pelo pai. Muitos acreditam que Lula pode ter perdido a eleição nesse caso, já que os eleitores ficaram indignados com a posição de não reconhecimento do candidato. O mercado pode acreditar que a denúncia da Veja, segundo a qual a presidente sabia do esquema da Petrobrás, pode produzir o efeito Lurian nessas eleições.  

Acho que essa é a melhor explicação para a alta e o otimismo do mercado no último pregão. Mas podem existir outras explicações: pode ter saído uma pesquisa tracking de bancos colocando Aécio melhor posicionado que nas pesquisas Ibope e Datafolha ou agentes posicionados no “kit pânico” podem estar saindo de suas posições e isso está afetando os preços.

De qualquer forma, Petrobrás está indo para um patamar muito superior ao seu fechamento de ontem, indicando que as preferências do mercado contrariam os dados das pesquisas Ibope e Datafolha. Aos 52 mil ponto o mercado enxerga essa chance em 35% para Aécio e 65% para Dilma.

De minha parte, continuo com a crença de que o instituto Sensus é absolutamente enviesado e que a nova denúncia de Veja pode mais atrapalhar do que ajudar Aécio. A credibilidade do semanal é baixa fora do eleitorado conservador que faz a base do PSDB/DEM e seu uso no debate eleitoral de hoje pode ser mal visto pelos eleitores. Lembro-me do papelão pelo qual passou Paulo Maluf no debate final com Mário Covas, em 1998. Maluf ameaçava peremptoriamente Covas com uma pasta em suas mãos, onde supostamente ele levava as denúncias do que foi conhecido como o "Dossiê Cayman". Essa ação só ridicularizou Maluf e o afundou de vez junto ao eleitorado. Aécio, caso as pesquisas Ibope e Datafolha estejam, de fato, corretas, pode estar repetindo o gesto de Maluf de 1998. 

Essa aposta parece ser cara demais.

(1)    O prêmio Nobel do ano passado foi dado a Eugene Fama, Lars Peter Hansen e  Robert Schiller. Schiller é defensor da tese do “Espírito Animal”. Sugiro a leitura de seu livro “Espírito Animal” em coautoria com G.Akerlof, esse último laureado com o Nobel em 2001 ao lado de G.Stiglitz, por seus estudos sobre as assimetrias de informação e seus reflexos no equilíbrio dos mercados.

(2)    Termo utilizado pelo economista americano Rudiger Dornbusch em seu modelo de estabilização do saldo de transações correntes. Segundo ele o mercado leva a taxa de câmbio além de seu “ponto de equilíbrio” antes de estabilizá-la. 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com