Mercado azeda com desemprego menor

No penúltimo pregão nates da eleição os mercados estão mais azedos, formando posições mais defensivas frente ao risco de reeleição. Hoje saem duas pesquisas, Datafolha e Ibope, e tudo indica que ninugém quer se expor em demasia. A taxa de desemprego de setembro foi a mais baixa da série e a renda real subiu 0,45% no ano paesar da baixa criação de empregos e da alta inflação.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

O mercado está azedando bastante, depois de ter feito um pregão bem comportado ontem. Petrobrás desaba quase 5% e o Ibovespa 2,5%. Juros e dólar em alta complementam o “kit pânico”. Já que lá fora as bolsas estão bem, só posso concluir que os mercados estão se posicionando para as eleições com um prêmio maior para o caso de Dilma se reeleger. Apesar das pesquisas Sensus e Veritá ainda darem vantagem a Aécio e apesar de muitos desacreditarem no Datafolha e no Ibope, tudo indica que ninguém quer pagar para ver. Faz sentido. Hoje saem Ibope e Datafolha, após o pregão. No mercado só não se faz seguro quando o prêmio a pagar for igual ou superior aos direitos a receber pelo sinistro. Então, se a chance de sinistro se eleva, é natural que o mercado corra para comprar algum seguro. Veja o gráfico do Ibovespa:

Hoje o IBGE divulgou o resultado da Pesquisa Mensal do Emprego, que é realizada mensalmente em seis regiões metropolitanas: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Apesar de ser uma mostra representativa do emprego no Brasil, ela não é completa, já que contempla apenas parte da população e não infere nada sobre o emprego em pequenas e médias cidades. Assim, apesar de sua significância, ela deve ser vista com limites. O fato é que o desemprego apresentou sua menor taxa para setembro e está em 4,9%, veja o gráfico do IBGE:

 

Na parte meio vazia do copo de água:  empregos na indústria estão sendo destruídos e cerca de 690 mil pessoas saíram da População Economicamente Ativa no ano. Na parte meio cheia do copo de água: essas pessoas podem ter saído como reflexo da melhora da renda das famílias que agora deixam suas crianças e adolescentes por mais tempo fora do mercado de trabalho, aumentando as estatísticas do ensino básico e superior e reduzindo as do trabalho infantil. Já a queda do emprego industrial, a coisa deve ser abordada de outra forma: o emprego industrial está caindo em todo o mundo e essa queda foi acelerada pela crise global. Os duzentos milhões de trabalhadores altamente especializados que entraram no mercado de trabalho global entre 2000 e 2008, a partir da China e da Índia, com salários muito baixos, já haviam feitos as estatísticas dos países altamente industrializados se ressentirem. A crise global apenas acentuou essa tendência. As intensas discussões, feitas sob a direção do Board do Federal Reserve, suportam essa visão. Ainda que se diga que “reformas estruturais”, que flexibilizam a legislação trabalhista, possam atenuar essa tendência, não há evidência empírica nessa direção. O México, tido como novo paradigma nesse sentido - por ter arrancado diversos direitos trabalhistas de seu já combalido contingente de trabalhadores1 – vai perdendo seu ímpeto de crescimento, apesar das “bondades” feitas ao setor industrial às custas dos direitos trabalhistas.

Do ponto de vista prático, a renda continuou subindo em termos reais, veja o gráfico:

A renda real cresceu 35% de seu mínimo em 2004, subindo 2,5% ao ano. Neste ano, apesar da alta da inflação e da redução da criação de vagas, a renda real subiu 0,45% até setembro ou 1,55% em doze meses. A taxa anual da alta dos rendimentos reais deve ser de 0,77%. Há quem diga que esse comportamento foi inflacionário, mas o comportamento da produtividade2  deve ter compensado parte dessa alta. Esse é um assunto que vai dividir os economistas de mercado no curto prazo, mas precisa ser analisado com muito mais cuidado após as eleições. Aspectos cíclicos e estruturais do mercado de trabalho são tratados com muita passionalidade por aqui e poucos avanços foram obtidos nos últimos anos. Compare-se as produções brasileiras recentes  com as realizadas liderada sob a liderança de Janet Yellen, nos EUA. Nesse campo, ainda há muito a se compreender.

 

(1) Nos 1990 os defensores das reformas orgulhavam-se dos avanços obtidos no México com um surto de industrialização na região do Rio Grande, na fronteira dos EUA. A “industrialização” relâmpago criou milhares de empregos, mas as indústrias “maquiadoras” apenas baratearam os custos de montagem para a indústria dos EUA, reduzindo o emprego de baixa qualificação acima do Rio Grande e sendo incapaz de criar aumento sustentável da renda para os Mexicanos. Hoje a legislação trabalhista impede o pagamento de horas extras e os mexicanos têm direito a sete dias de férias por ano.

 

(2) A produtividade como medida efetiva é um desafio enorme para a teoria econômica e está longe de apresentar um a solução convincente. Em geral, os trabalhos da área assemelham-se aos tratados escolásticos, tais como os que discutiam “quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete?”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com