Carros: por que Pagar (cada vez mais Caro) por Status?

Entenda os motivos que levam muitos a comprarem carros caríssimos apenas pelo status. Descubra como evitar as armadilhas do marketing que levam ao consumo emocional, e saiba mais como escolher, com consciência, qual carro comprar.
Blog por Leandro Mattera  

"Carro no Brasil é status” – essa é uma frase bastante comum de ser ouvida e, pelo que todos nós observamos, muitos consumidores seguem essa ideia na hora de definirem seus carros, ainda que não admitam.

Muitos deles são aqueles que acham importante impressionar vizinhos, colegas de trabalho, amigos e familiares, bem como procuram chamar a atenção na porta de restaurantes e eventos.

Em contraposição a esta tendência, aqui no Blog Seu Carro e Seu Bolso, o objetivo é trazer orientações para as pessoas que dão valor ao seu dinheiro e querem tomar decisões mais conscientes na hora da compra e manutenção de seus veículos. O foco é priorizar as necessidades e prioridades pessoais.

Por conta disso, é importante discutirmos juntos sobre os motivos que levam à valorização excessiva do status, e os caríssimos impactos financeiros que podem resultar dessa atitude.

1. Imagem é tudo?

De forma resumida, os padrões de consumo na sociedade, principalmente após a 1ª Guerra Mundial, têm sido baseados principalmente nos desejos (infinitos), e não nas necessidades (finitas). Essa mudança foi possível graças à crescente vinculação do ego aos bens materiais.

Desse modo, as pessoas passaram a consumir produtos com o objetivo de projetarem uma imagem perante os outros, o que acaba sendo acentuado pelas ações do marketing. Preste atenção para frases promocionais como “um carro para quem está indo bem”, “quem tem fez por merecer” etc.

Aliás, há certo tempo, li uma entrevista de um presidente de uma marca de luxo e havia uma questão sobre o futuro dos carros. Ele mencionou que continuavam existindo boas perspectivas porque as pessoas ainda iriam desejar se expressar por meio da propriedade de um carro, o que vai ao encontro da ideia de que os carros são bens posicionais.

Os bens posicionais são aqueles que conferem algum atributo valorizado na sociedade. Nesse sentido, quanto mais exclusivo, melhor. Essa longa cadeia passa por roupas de marca, dispositivos eletrônicos, carros, imóveis sofisticados etc.

Nesse contexto, compete a você, consumidor ou consumidora, definir o que é prioritário para você e sua família. Até que ponto a imagem e o status merecem ser valorizados? Isso faz sentido?

2. O preço sempre mais caro do (suposto) status no Brasil:

Antes de prosseguir, é bom lembrar que a vinculação de carros a status não é algo exclusivo do nosso país. Mas, assim como em diversos outros aspectos, essa realidade é exageradamente potencializada por conta da mentalidade brasileira.

Para quem leu o célebre livro "Pai Rico Pai Pobre", o autor utiliza o interessante termo “corrida dos ratos” para designar o infinito ciclo de trabalho e gastos com bens desnecessários, que são usados por pouco tempo.

Agora o fator crucial que torna mais paradoxal isso tudo no Brasil é o seguinte: nós temos os carros mais caros do mundo para compra e manter e, além de tudo, questões relacionadas ao posicionamento deles no mercado acabam elevando ainda mais os seus preços.

Para que a conversa não fique tão abstrata, quero trazer um exemplo impressionante e ilustrativo. Nesta semana, vi a seguinte publicação, do site Car Throttle, contendo uma lista de carros indicados para estudantes americanos na fase inicial da faculdade, pensando em confiabilidade e orçamentos apertados. Veja as fotos dos carros da lista clicando aqui.

Viram só alguns conhecidos? Não é um contraste alarmante em relação ao que vivenciamos no Brasil? Para quem não acessou, a lista contém carros como Honda Civic, VW Jetta, Nissan Sentra e ainda Honda Accord e Toyota Camry.

Para você ter uma ideia melhor das discrepâncias, um Camry zero-quilômetro hoje custa perto dos R$ 150 mil no Brasil. E é bom lembrar ainda que, diante da volta do IPI em 2015, aliada ao aumento da cotação do dólar (sem contar a possibilidade de elevação de tributos incidentes sobre importados), é possível que os carros fiquem ainda mais caros no país.

As distorções acima mostram a relatividade da ideia de status. Além de pagar caro, em muitos casos, o carro adquirido não apresenta os padrões de técnicos de qualidade que seriam esperados para um modelo com proposta diferenciada. Em outros casos, carros que passaram apenas por um face-lift (pequenas mudanças estéticas) são anunciados como “novos”.

Além disso, sempre é bom lembrar que os custos de manutenção também são cada vez mais elevados. Por exemplo, na atual edição nº 664 da revista 4 Rodas, na seção Usado do Mês, é mencionado que um simples par de amortecedores de um Mercedes-Benz Classe C pode custar mais de R$ 7.000.

3. Quem paga pelo status, então?

No meu artigo chamado “Carros: uma revelação e os cuidados para não maltratar o seu dinheiro” (clique para ler), foi apresentada uma afirmação, de um executivo de uma importante marca, no sentido de que a rentabilidade proporcionada pelos modelos premium é cinco vezes superior em relação a modelos generalistas.

Há outros exemplos e análises relevantes no artigo citado e convido você a ler, caso queira aprofundar seus conhecimentos com informações relevantes.

Diante desse cenário, fica ainda mais evidente a responsabilidade do consumidor brasileiro ao aceitar pagar os preços estratosféricos praticados no Brasil. Afinal, se existe demanda, não há motivos para que as fabricantes e o próprio governo revejam as condições atualmente praticadas. Sobre o papel do consumidor e suas atitudes questionáveis, também já foi publicado este artigo (clique para ler) específico sobre o assunto.

Conclusão:

Não é à toa que já fomos motivo de piada para a Forbes, que alertou que: “não há status em um Toyota Corolla, um Honda Civic, um Jeep Grand Cherokee ou um Dodge Durango. Não se deixem enganar pelo preço. Vocês estão definitivamente sendo roubados. Pense dessa forma: o que você diria se um colega americano lhe dissesse que pagou US$ 150 por um par de Havaianas?”

Agora realmente sempre existe um grande desafio quando temos que lidar com aspectos emocionais que influenciam no consumo. Acho esse tema tão relevante que decidi abordá-lo com mais profundidade num capítulo inteiro do meu livro, que contém um método para uma boa escolha de qual carro comprar. Além disso, realizei uma entrevista com uma estudiosa sobre a Psicologia do Consumo para complementar as minhas visões.

Finalmente, não acho que as compras dos carros devam ser apenas racionais. Como costumo comentar com os clientes que atendo na minha consultoria automotiva pessoal, creio que, diante da realidade bastante peculiar brasileira, é essencial priorizar as necessidades e os aspectos técnicos e financeiros relevantes. Após, acho importante conciliar, dentro do possível, as emoções e o seu gosto pessoal, mas de acordo com o que é efetivamente importante para você, e não para os outros.

Como já disse em algumas ocasiões, "ninguém é o carro que possui". Lembre-se disso e busque os seus melhores caminhos automotivos e financeiros.

Comentário em vídeo: Para quem prefere conteúdos em vídeo, fiz esta gravação, de modo mais descontraído, abordando o tema de uma forma um pouco diferente. Convido você a assistir.

Muito obrigado pela atenção, um grande abraço e até a próxima!

Leandro Mattera

Consultor automotivo pessoal na Carro e Dinheiro e autor do livro digital “Como Escolher o Seu Carro Ideal”.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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