Você é um investidor compulsivo?

A bolsa de valores é equivocadamente comparada a um cassino, assim como investidores eventualmente são comparados a apostadores. Mas, apesar da enorme diferença entre uma bolsa e um cassino, existem comportamentos muito semelhantes entre investidores e apostadores compulsivos.
Blog por Caio Sasaki  

O mercado vicia. Quem frequenta fóruns sobre investimentos financeiros ou simplesmente troca opiniões numa conversa de bar com outros traders ou profissionais do mercado de renda variável está bastante acostumado a ouvir esta frase. Ela pode tanto representar o encantamento que a bolsa de valores causa nas pessoas quanto o lado patológico, que modifica os hábitos do indivíduo e tira sua capacidade de autocontrole. É bastante comum encontrar pessoas que encaram a bolsa de valores como um cassino e dedicam toda sua esperança na expectativa de ganhar mais dinheiro ou recuperar parte daquilo que já perderam, ainda que não se deem conta disto. Se sabe que, ao contrário de um cassino, os negócios em mercados de capitais oferecem real possibilidade de ganhos consistentes através de análises bem feitas e gestão de risco apurada, o que, aliás, justifica as negociações em bolsa como algo lícito, ao contrário de bingos, cassinos, jogo do bicho e alguns outros jogos de azar. Mas por quê este mesmo vício acontece em ambientes distintos?

Em 2010, um neurocientista cognitivo chamado Reza Habib fez uma pesquisa com “jogadores patológicos” e pessoas que jogavam socialmente. Seus testes consistiam em simulações de vitória, derrota e “quase vitória” em caça niqueis, porém sem valor algum em jogo. Observando as reações do cérebro dos candidatos numa câmara de ressonância magnética, Habib percebeu que as jogadas em que parecia que haveria uma combinação vencedora, porém num último instante mudava para perdedora, ou seja, uma quase vitória, causavam sensação de vitória nos jogadores compulsivos e sensação de derrota em jogadores não patológicos. Neste caso, as áreas ligadas à emoção eram mais ativas em jogadores patológicos e provoca estímulos para uma nova jogada. Os cassinos sabem muito bem disto e configuram suas máquinas para gerar muitas quase vitórias e estimularem seus jogadores a continuar apostando. Portanto, partindo deste estudo, não é muito difícil encontrar um acontecimento paralelo no ambiente de mercados de capitais.

Quem negocia com frequência na bolsa de valores certamente já experimentou a sensação de estar a poucos pontos (ou centavos) do objetivo final da operação, com lucro, porém, num último instante, houve uma mudança no movimento transformando aquele quase lucro num prejuízo ou num ganho menor do que o pretendido inicialmente. E é justamente aí que os investidores compulsivos pensam “Quase! Na próxima eu tenho certeza que vou conseguir!”. Embora esta expectativa não seja fabricada, como ocorre nos cassinos, ela possui o mesmo efeito estimulante sobre algumas pessoas, fazendo com que estas continuem operando mesmo após inúmeras perdas consecutivas. Aliás, isto ajuda a justificar porque parte do público que não frequenta cassinos e bingos, porque são proibidos por lei, acaba “apostando” na bolsa de valores. O vício é um problema seríssimo que afeta muitas pessoas, em diversos campos, muitas vezes sem que elas se deem conta disto, então como evitar cair neste ciclo de auto sabotagens?

Não sou um profissional especializado em tratar este tipo de distúrbio, contudo, nenhum vício começa em estado crônico. É o tipo de problema que vai se agravando com o tempo. Além disso, todo vício é fruto de um hábito, e todo hábito é disparado por um gatilho que nos impele a buscar algum tipo de satisfação, muitas vezes imediata. Portanto, em primeiro lugar, é importante balizar as possíveis perdas através de um planejamento prévio em que conste quanto se está disposto a perder numa operação, numa semana de operações ou num mês de operações. Uma vez que este limite for atingido, pare de operar neste período ou reduza o tamanho da operação. Outro mecanismo, mais direto, que ajuda a controlar a execução de um trade consecutivo e mal planejado é criar um hábito (de preferência saudável) para inibir tal impulsividade, como parar para tomar um copo d’água após cada operação perdedora, por exemplo. Ainda existem muitas outras táticas e procedimentos para evitar estes problemas, mas é importante ressaltar que casos realmente graves não se apresentam com grande frequência, em qualquer indivíduo. Estas patologias tendem a prejudicar poucas pessoas, propícias para o desenvolvimento de distúrbios comportamentais, e boa parte de quem acaba perdendo mais do que estava disposto é vítima de mera displicência. Portanto, assim como pessoas que se confundem e se atrapalham eventualmente não são disléxicas, um trader que opera muito também não pode, necessariamente, ser considerado patologicamente compulsivo. Menos mal!

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil do blogueiro

É trader, formado em Física pela USP e chegou a fazer mais de 300 operações por dia na Nasdaq e na Bolsa de Nova York. Foi estrategista em instituições como Citibank, Interfloat e XP Investimentos e hoje dedica parte de seu tempo para formar traders independentes. contato@sasakitraders.com.br