"Call binário" podendo até dobrar de valor? A explicação sobre o caso Wiz - e as chances da empresa na bolsa

Últimos meses foram de forte queda para os papéis WIZS3 em meio à questão sobre a renovação do contrato entre Caixa Seguradora e CNP; o acordo avançou, mas diversas questões seguem no radar
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - Avanço nas negociações ou mais uma fonte de incerteza? O cenário continua ambíguo na Bolsa para as ações da corretora Wiz (WIZS3), uma das preferidas do setor de seguros de muitos analistas de mercado, mas que segue sofrendo na bolsa. Tamanha volatilidade nos últimos meses ocorre em meio ao imbróglio sobre a renovação do acordo entre a Caixa Seguradora com a CNP - e que ganhou mais um capítulo na manhã na última sexta-feira na bolsa. 

Para entender um pouco mais o que está em jogo sobre esta questão, vale voltar um pouco na história. Fundada em 1973, a Wiz (antiga Par Corretora) é uma seguradora com foco no modelo de "bancassurance". Trata-se da parceria ou relacionamento entre um banco e uma seguradora, onde esta usa o canal de vendas do banco para vender os produtos de seguros. No caso da Wiz, a parceria é com a Caixa Econômica Federal.

A principal fonte de receita da Wiz é a venda de produtos de seguros da Caixa Seguradora (uma joint venture entre a francesa CNP Assurances e a Caixa) atrelados aos produtos financeiros da Caixa. E essa passou a ser a grande questão para a empresa. 

O mercado passou a acompanhar, mais do que os ótimos números apresentados pela companhia, uma possível revisão do acordo entre a CNP e a Caixa. A sua rescisão significaria um grande revés para a Wiz, já que ela não seria mais a corretora exclusiva da Caixa Seguradora nas agências do banco, o maior em tamanho da base de clientes e que, na avaliação de diversos analistas, ainda não atingiu o seu pleno potencial. O contrato venceria somente em 2021, mas a manutenção desse era vista como crucial para as atividades da Wiz, principalmente porque o mercado “antecipa” esses eventos futuros nos preços atuais.

Receba os "Insights do Dia" direto no seu e-mail! Clique aqui e inscreva-se.

Na manhã da última sexta-feira, surgiu uma novidade. Mais precisamente, um comunicado, que trouxe alívio para alguns, mas também muitas dúvidas ao mercado, levando a uma grande oscilação para as ações WIZS3. Na sessão anterior, os papéis abriram estáveis, chegaram a subir e depois passaram a registrar baixa de até 7%, para fecharem em queda de cerca de 4,5%, com um volume negociado quase quatro vezes acima da média das últimas 21 sessões, ao atingir R$ 145 milhões.

Vamos então ao comunicado: a Caixa Seguridade e a CNP comunicaram terem firmado  um memorando de entendimentos, não vinculante, para a formação de uma nova sociedade que atuará nos ramos de seguro de vida, prestamista e previdência privada, com distribuição exclusiva na Caixa Econômica Federal. O banco ressaltou, inclusive, que um “novo veículo societário” será criado e que a exclusividade na distribuição vigorará de janeiro de 2018 até fevereiro de 2041 - levando à extensão do acordo assim por mais 20 anos. No âmbito do acordo entre as empresas, a CNP renunciaria aos direitos de exclusividade da atual parceira entre as partes.

Acordo quase renovado: qual o problema, então?
Apesar do avanço das negociações (algo esperado com ansiedade pelo mercado), o comunicado lançou dúvidas sobre como ele deverá impactar a Wiz na bolsa. Conforme destacou o Bradesco BBI, ainda permanece incerto se a companhia deve ou não fazer parte da nova estrutura. Além disso, o novo acordo confirma os rumores sobre o plano da Caixa de dividir as linhas de seguros entre os diferentes parceiros, o que pode impactar algumas receitas da empresa. 

Em comunicado, a própria Wiz informou que alterações relevantes nos contratos entre Caixa Seguridade e CNP Assurances poderiam, eventualmente, “impactar materialmente as operações e resultados futuros da companhia". Ela afirmou ainda que sua exclusividade para distribuição, intermediação e comercialização de seguros e outros produtos da Caixa está vinculada à parceria comercial com a CNP Assurances. 

As dúvidas ocorrem por alguns fatores. Por um lado, a visão que o mercado possui é de que a Wiz agrega valor ao negócio e que deve manter muitos contratos (dado que tem apresentado bons números em diversos segmentos). Por outro lado, a aversão ao risco parece ser maior, justamente pela incerteza sobre a revisão de alguns desses contratos.

Enquanto a confiança é muito grande de renovação dos contratos de seguro prestamista, vida e previdência, alguns analistas e gestores que acompanham o papel não possuem tanta confiança na renovação do seguro habitacional, correspondente a cerca de 25% das receitas da Wiz.

Além disso, com a renovação do acordo já para 2018, ao invés de novos termos apenas em 2021, espera-se que algumas comissões possam vir abaixo do vigente no atual contrato, o que prejudicaria as margens da companhia. Um gestor ouvido pelo InfoMoney que possui participação na Wiz ainda não revisou os cenários para a empresa, mas afirmou que o preço-alvo no caso-base para a ação WIZS3 deve diminuir, uma vez que o novo contrato passará a valer a partir do ano que vem, uma vez que as partes envolvidas não esperarão até 2021 para a renovação. 

Contudo, considerou o anúncio como bastante positivo por já levar a um desfecho antes do que o mercado antecipava e também por acreditar na parceria renovada por conta dos bons serviços apresentados pela companhia: "o risco diminuiu muito", avalia. Aliás, para ele, a própria renegociação dos contratos já no ano que vem eleva a confiança. Com toda uma infraestrutura montada nas agências da Caixa, o gestor avalia ser muito difícil, mesmo que a CNP não renove com a Caixa Seguridade, que a Wiz deixe de ser a corretora nesse segmento dado o pouco tempo hábil para uma nova empresa estar apta para disputar esse segmento dentro da Caixa. Além disso, tudo indica que o banco estatal está bastante satisfeito com as operações da Wiz, que têm espaço para crescer ainda mais. 

Pior cenário já precificado
De qualquer forma, as negociações entre as partes (e que envolvem o governo, que tratou de movimentar as negociações de olho no fiscal) ainda continuam e geram um ambiente de tensão aos que possuem o papel, que aguardam por novidades nas próximas semanas. Porém, entre os gestores e casas de análise consultados pelo InfoMoney, a avaliação é de que a cotação atual para o papel já reflete o pior cenário para as negociações. 

Em uma avaliação preliminar sobre os cenários para a companhia, os analistas do BTG Pactual acreditam que, no ambiente mais pessimista, em que a Wiz perderia completamente o segmento habitacional (algo considerado improvável por eles), a ação ainda deve valer mais de R$ 20, o que representaria um potencial de valorização acima de 16% frente ao fechamento da última sexta-feira (2). No melhor cenário, a ação poderia chegar aos R$ 28,00, ou um potencial de valorização de quase 68% também frente à última sessão: "apesar das incertezas, gostamos da relação risco-recompensa de possuir a ação", apontam. 

Para outro gestor ouvido pelo InfoMoney, que também possui fatia na empresa, apesar da negociação com o governo ainda gerar desconfiança para os investidores (com muitos preferindo "esperar para ver") caso ela seja positiva para a Wiz, a ação pode chegar aos R$ 30,00, podendo atingir até os R$ 35. Ou seja, a empresa pode mais do que dobrar o seu valor de mercado. 

Mas, além da questão com a Caixa, a Wiz vem buscando diversificação nos seus canais de atuação, o que agrada o mercado, uma vez que ela tenta atuar em outros caminhos além da Caixa. A compra no final de junho da Finanseg, empresa especializada na comercialização de produtos de consórcios, vai neste sentido. Além disso, os fortes números apresentados pela Wiz nos últimos três trimestres, que provocaram revisões para cima nas estimativas de lucro, ainda brilham os olhos dos investidores. 

Neste sentido, após a turbulência da última sexta-feira, as ações da Wiz registram recuperação nesta segunda, com ganhos de cerca de 3%. Mas, mesmo com tantas visões positivas, há quem esteja com um "pé atrás" com os papéis WIZS3. Afinal, no último trimestre, enquanto o Ibovespa subiu 18,3%, os ativos da corretora registraram baixa superior a 13%. Olhando para 17 de maio, dia anterior ao Friboigate, a diferença também é vertiginosa: baixa de 23% ante os ganhos de 10% do benchmark da bolsa brasileira. Assim, em um movimento de forte alta da bolsa, muitos investidores não negam as qualidades da Wiz, mas seguem cautelosos sobre o case de investimentos da companhia e preferem investir em outras ações dada a demora dos papéis de se recuperarem. Para os investidores, pior do que investir em uma ação que só caiu neste período, é ver todo o resto do mercado subindo, dando uma sensação de "dupla derrota". 

Enquanto isso, quem está posicionado no papel tem um otimismo cauteloso, mas destaca a grande boa notícia: o horizonte para a resolução de tamanho imbróglio diminuiu muito, passando de 2021 para 2018. Em qualquer cenário, mesmo com a volatilidade possivelmente maior no curto prazo, a Wiz poderá virar a página mais rápido.  

Gostou desta análise? Clique aqui e receba-as direto em seu e-mail!

Deixe seu comentário

Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br