Não são "só" os R$ 15,8 bi: a vencedora involuntária na Bolsa e quem mais ganhou com os leilões do governo

Analistas viram com bons olhos o fato da estatal mineira Cemig não ter participado dos leilões de energia - já no caso do petróleo, a expectativa fica para o pré-sal
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO -  Apesar de não gerar tanto ânimo para o mercado, a última quarta-feira (27) trouxe certo alívio para a equipe econômica com o sucesso de dois leilões - tanto de energia quanto de petróleo. Em São Paulo, pela manhã, foram concedidas a estrangeiros quatro usinas que antes tinham concessão da estatal mineira Cemig (CMIG4) - e que gerou muita polêmica no mundo político. E, à tarde, no Rio, foram arrematados 37 blocos para exploração e produção de petróleo e gás. O ágio das concorrências surpreendeu as expectativas do próprio governo, levando a uma receita de R$ 4,2 bilhões acima do que a União estava esperando, ao somar R$ 15,8 bilhões. 

Enquanto a Cemig não levou nenhuma usina - e ainda aposta por uma decisão judicial no imbróglio - as estrangeiras levaram as concessões das usinas, o que também foi visto como positivo. Assim, reunidos esses fatores, o leilão foi visto como um sucesso, tanto do ponto de vista macroeconômico quanto do ponto de vista setorial. Resumidamente, aponta o Bank of America Merrill Lynch, que destaca três pontos: i) o governo conseguiu arrecadar mais de R$ 12 bilhões; ii) todos os ativos foram concedidos a operadores privados e iii) o processo mostrou que os grupos globais continuam interessados nos serviços públicos brasileiros. 

O primeiro lote, da hidrelétrica de São Simão, em Goiás e Minas Gerais, foi arrematado pelo grupo chinês Spic Pacif Energy PTY, única proposta oferecida, por R$ 7,18 bilhões, ágio de 6,51%. O último lote, de Volta Grande, em Minas Gerais e São Paulo, foi arrematado pela italiana Enel, com ágio de 9,84% e valor de R$ 1,4 bilhão. Todos os contratos têm prazo de 30 anos.

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Já o segundo e o terceiro lotes foram arrematados pelo consórcio francês Engie (EGIE3), que possui ações listadas na bolsa brasileira - e dão um bom termômetro de qual foi a visão dos analistas de mercado sobre como foi o certame. Para o Credit Suisse, a Engie está no caminho certo ao apontar que, em um período de altos custos com o déficit de geração hídrica (medido pelo fator GSF, na sigla em inglês) o crescimento na base de ativos se torna a principal alternativa para gerar valor. Com a expectativa de que a relação entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) aumente para apenas 1,8 vez no ano de 2018, que ainda deixa espaço para outros possíveis negócios. 

O BofA ressalta a forte experiência da companhia no comércio de energia. Embora 70% da capacidade do leilão das hidrelétricas já esteja bloqueada em contratos de longo prazo de 30 anos, a um valor de R$ 143/MWh (Megawatt-hora), os analistas do banco veem aumento nos preços para os 30% ainda não contratados. A estimativa é de que, a cada variação positiva de R$ 10/MWh, o VPL (Valor Presente Líquido) da companhia aumentaria em R$ 80 milhões. Além disso, o resultado do leilão de ontem deve ser um passo crucial para aumentar a duração do fluxo de caixa de curto prazo da empresa. Apesar das visões positivas, pelo menos por enquanto, os analistas não recomendam a compra para a ação: o BofA mantém recomendação neutra para os ativos, enquanto o Credit Suisse possui recomendação underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para os ativos. 

Cemig: a vencedora involuntária
Porém, até para uma ausente ilustre do leilão, o certame foi bom, mesmo contrariando a própria companhia e muitos políticos da bancada mineira no Congresso. A ausência da Cemig no leilão como positivo para o case de investimento da companhia, apontaram o BofA e o BTG Pactual em relatórios.

Às vésperas do leilão, a companhia anunciou um aumento de capital de mais de R$ 1 bilhão e a expectativa era de que os recursos captados fossem utilizados para reaver a usina de Miranda através de um acordo com o governo. Isso faria com que essa usina não fosse para o leilão, o que não aconteceu (e gerou algumas indiposições com integrantes da bancada mineira). 

Como o acordo não foi concluído e a Engie levou Miranda, a expectativa é de que os recursos da capitalização sejam utilizados para diminuir a alavancagem da companhia, o que era visto como a melhor opção pelos analistas (confira mais sobre o assunto clicando aqui). 

Há algumas hipóteses para a ausência da estatal mineira no leilão, como o balanço em dificuldades da empresa e o alto nível de endividamento. "Uma oferta bem sucedida poderia ter reduzido o valor patrimonial dado o aumento potencial do custo estrutural do capital da Cemig. Este evento reforça nossa visão de que a gestão da empresa está totalmente focada no plano de desalavancagem em curso da empresa", apontam os analistas do BofA. Porém, vale ressaltar, o caso ainda pode voltar a Justiça.

A novela entre Cemig, governo de Minas e União começou em dezembro de 2012 quando, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, foi aprovada a Medida Provisória 579/12, que reduziu o preço da energia elétrica no país. A medida permitiu ao governo renovar as concessões das usinas, transmissoras e distribuidoras de energia que venceriam entre 2015 e 2017. Em troca disso, as concessionárias beneficiadas têm que aceitar receber remuneração até 70% menor pelo serviço prestado. Ficaram de fora do plano as hidrelétricas da Cesp (CESP6), Cemig e Copel (CPLE6), controladas, respectivamente, pelos governos de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. A Cemig não aceitou a medida e recorreu à Justiça, alegando que em três delas – São Simão, Jaguara e Miranda – a concessão deveria ser renovada automaticamente. 

Leilão de petróleo
Também vale citar a 14ª Rodada de Licitações de blocos para exploração de petróleo e gás natural, que arrecadou R$ 3,842 bilhões para o governo, um ágio de 1.556,05% e foi vista como muito bem sucedida.  Foram arrematados 37 blocos para exploração e produção de petróleo e gás natural. A maior oferta por bloco foi de R$ 2,24 bilhões, por Petrobras (50%, operadora) e ExxonMobil (50%), C-M-346, da bacia de Campos.

Porém, neste caso, os olhos do mercado agora se voltam para o pré-sal. O próprio presidente da Petrobras (PETR3;PETR4), Pedro Parente, admitiu que um dos motivos que fez a estatal, em parceria com a gigante ExxonMobil, dar o maior lance do leilão são as chances da área ter reservatórios na área do pré-sal.  

Parente se disse satisfeito com o resultado do leilão e afirmou que a Petrobras demonstrou que está seguindo a estratégia já divulgada, de ser seletiva na escolha de áreas que faria ofertas. “Fomos realmente seletivos, nós não ganhamos todas, perdemos uma, vocês viram, então isso comprova que estamos realmente pagando aquilo que a gente acha que vale”, explicou, ao apontar que o pagamento equivale a 0,8% de investimentos até 2021.

Olhando o resultado dos leilões, há sinais positivos para as companhias que participaram e até para as que ficaram de fora, como é o caso da Cemig. Contudo, mais desdobramentos devem estar por vir, uma vez que a batalha da estatal mineira pelas usinas pode ter ainda não acabado, enquanto o mercado aguarda pelo apetite dos investidores estrangeiros pelos novos leilões de petróleo. 

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br