Em uma frase, a grande questão para um papel que já disparou 140% em 2017 (e que poderia estar ainda melhor)

Disparada recente não esconde sensação de que Guararapes poderia estar ainda melhor na bolsa ao entrar no Novo Mercado, algo que é alvo de muitas resistências por parte do patriarca da família controladora 
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - "Ele não sabe direito o que é, mas não gosta muito não". Com apenas essa frase, o presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, deu uma boa indicação de por que as ações da Guararapes (GUAR3;GUAR4), apesar de todo cenário positivo, ainda não atingiram novos patamares na bolsa brasileira. 

O "ele" a quem Flávio Rocha se refere é o seu pai, Nevaldo, fundador da companhia, diretor-presidente da Guararapes, presidente do conselho da holding (a quem Flávio Rocha responde) e maior fonte de resistência para que a companhia vá para o Novo Mercado, segmento de maior governança corporativa da bolsa brasileira. A questão foi levantada mais uma vez durante o tradicional programa de entrevista "Roda Viva", da TV Cultura, na última segunda-feira (25) e, entre análises sobre o difícil quadro da economia e política brasileira, esse assunto acabou se mostrando um dos mais espinhosos para o empresário. 

Um dos entrevistadores questiona: afinal, se a Riachuelo compete de forma parelha com a Lojas Renner, por que ela vale quase três vezes menos na Bolsa? Enquanto a Renner vale R$ 24,6 bilhões, a Guararapes tem um valor de mercado de R$ 8,88 bilhões, de acordo com a cotação de fechamento dos papéis na última segunda.

Flávio Rocha traça algumas hipóteses para tamanha diferença. Em primeiro lugar, ele apontou o baixo free float (ações de uma empresa que em circulação estão no mercado, isto é, não estão sob posse dos controladores), com a família Rocha detendo cerca de 85% das ações. Mais precisamente, Nevaldo Rocha e os filhos Flávio, Élvio e Lisiane possuem 75,8% dos ativos ordinários e 89,7% dos preferenciais. Essa baixa liquidez faz com que muitos grandes investidores ainda estejam afastados da empresa, apesar do bom case de investimento e da disparada de quase 140% apenas em 2017, em meio à arrumação da casa com a redução dos índices de inadimplência da companhia. 

Receba os "Insights do Dia" direto no seu e-mail! Clique aqui e inscreva-se.

Porém, não é só esse fator limitante, conforme apontou Rocha, citando assim a "polêmica" entrada ou não da empresa no Novo Mercado. "Nós não estamos ainda no Novo Mercado, apesar de termos todas as condições de estar. Isso impede que fundos importantes tenham acesso à nossa ação", avaliou, para depois admitir, mesmo que indiretamente, que um dos pontos de resistência é justamente familiar. 

A discussão sobre o assunto não é de hoje e inclusive, a hipótese de que a empresa pudesse alçar novos patamares de governança corporativa foi inclusive testada pelo próprio Flávio Rocha. No final de agosto, a jornalistas, ele deu a boa notícia: a Guararapes tinha montado um grupo de estudos para migrar para o Novo Mercado. No dia seguinte, contudo, o próprio empresário "se desmentiu" em comunicado ao mercado. “A Guararapes [...] esclarece que não pretende alterar seu modelo de governança corporativa ou migrar para o Novo Mercado, uma vez que o Conselho de Administração da companhia sempre se mostrou contrário à discussão deste tema”. 

Ou seja, as indicações são de que, apesar do forte apelo pró-mercado de Flávio Rocha e da transformação recente que a Guararapes passou, quem dá as cartas sobre esse assunto ainda é o seu Nevaldo. 

Mas por que tamanha resistência? Para entrar no Novo Mercado, a companhia precisaria fazer uma oferta de ações, uma vez que o segmento exige que pelo menos 25% das ações estejam nas mãos de acionistas não-controladores. Com as posições atuais dos controladores da companhia, a família Rocha seguiria de longe com a participação majoritária. Contudo, seu Nevaldo mostra resistência em vender seus papéis, mesmo que a família siga com poder na empresa. 

Enquanto o imbróglio familiar continua e a Guararapes não entra no Novo Mercado, alguns gestores e os (poucos) analistas que cobrem o papel seguem otimistas com a empresa, pelo menos quando o assunto é as operações da companhia. Aliás, a ação ordinária da empresa é um dos poucos casos em que possui maior liquidez que a PN e está na Carteira InfoMoney desde agosto. 

"A Guararapes está de volta após muitos desafios ao longo de vários anos", destacou o Bradesco BBI em agosto. Os analistas apontaram que, depois de melhorar os processos de cobrança, iniciado no primeiro trimestre de 2015, e do início das operações do Centro de Distribuição automatizado de Guarulhos, a empresa possui agora as ferramentas necessárias para completar sua reestruturação, com uma oferta mais forte para o cliente e uma distribuição mais efetiva. "Este é um processo que está em andamento há vários anos e causou muitas dores de cabeça à empresa ao longo do caminho, mas acreditamos que agora os problemas da companhia ficaram no passado".

A expectativa pelo crescimento das vendas nas mesmas lojas e de expansão nas margens brutas podem inclusive levar a uma diminuição do desconto entre a Renner e a Riachuelo, acreditam os analistas. Contudo, os dois fatores (free float e estar fora do Novo Mercado) apontados pelo próprio Flávio Rocha "jogariam do outro lado", representando uma fonte de resistência a um fechamento maior do desconto entre as duas companhias. 

GUAR3: a ação do conservador e do agressivo
Embora uma possível migração ao Novo Mercado seria um importante "gatilho" para a ação, não é esse o motivo chave pelo qual gestores estão posicionados nela. E tal visão positiva fica ainda mais evidente ao perceber que tanto investidores mais conservadores e com postura "Buffetiniana" quanto gestores mais jovens e agressivos possuem posição em GUAR3.

Em entrevista à InfoMoneyTV, Florian Bartunek, fundador da Constellation Asset, gestora com R$ 3 bilhões sob gestão em fundos de ações e que possui o megaempresário Jorge Paulo Lemann como um dos sócios, destacou o ânimo para a empresa mesmo sem a entrada no Novo Mercado. Para ele, eventos como esse costumam contribuir para a valorização de ações, já que o acionista se sente mais protegido, mas esse não deve ser o principal motivo para comprar o papel. 

Para ele, em geral, ir para melhores níveis de governança valoriza o preço da ação. E isso é bom para o empresário. "Rocha é um executivo sensacional, que toca muito bem a empresa e que confia no mercado, por isso, quer que ele seja seu sócio. Então, para mim, essa migração é questão de tempo. Mas, mesmo que isso não aconteça, não é um problema. O que importa é que o resultado dela continua ótimo. Ela vai bem do jeito que está e, além disso, a governança dela não é ruim. Essa migração pro Novo Mercado seria a cereja do bolo", comentou. 

Já Rodrigo Glatt, gestor da GTI, que administra R$ 86,5 milhões no fundo de ações GTI Dimona Brasil, apontou no programa "30 minutos para se aposentar com ações" que há três fatores para acreditar na alta do papel: i) o processo de maturação das lojas após um grande período de investimentos; ii) a expectativa de maior eficiência com o novo centro de distribuição (conforme já apontado acima) e iii) o reconhecimento menor de provisões à frente, o que consequentemente vai melhorar o lucro da companhia. 

Assim, balanceando a excelência da companhia com o fato dela não estar no Novo Mercado, os gestores e analistas de mercado seguem posicionados na ação. Porém, a sensação de muitos que querem entrar no papel é de que a empresa poderia estar ainda melhor caso entrasse alçasse mais esse grande passo na Bolsa - e isso também pode ser positivo para a família controladora da companhia. 

As lições que Nevaldo pode aprender com Luiza
Neste sentido, Nevaldo Rocha pode aprender com outra empresa familiar, o Magazine Luiza (MGLU3), que está em busca de novos patamares na bolsa, inclusive entrar no Ibovespa. Desde que Luiza Trajano deu lugar ao seu filho Frederico no comando da empresa, em 2016, a transformação foi total na empresa, que se modernizou e agora colhe os frutos na bolsa (conforme já destacado algumas vezes nesse mesmo blog Investidor de Sucesso, como você pode ver aqui, aqui e aqui).

Se, ao contrário do Magazine Luiza até 2015, não há o que reclamar frente as questões operacionais da Riachuelo sob o comando de Flávio Rocha, os investidores em potencial ainda se ressentem do que a empresa poderia ser caso Nevaldo deixasse maior espaço para a entrada de mais sócios (minoritários, vale ressaltar) na empresa. Ou seja, deixando ainda mais abertura para o seu filho atuar - e promover mais mudanças para a companhia. 

Gostou desta análise? Clique aqui e receba-as direto em seu e-mail!

Deixe seu comentário

Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br