União dos políticos à custa dos minoritários: a ofensiva de R$ 1 bi da Cemig que liga novo alerta sobre as estatais

Companhia anunciou que convocará AGE para aumento de capital bilionário - e, ao que tudo indica, não é para fazer o que o mercado espera 
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - Capaz até de unir adversários políticos, a estatal mineira Cemig (CMIG4) faz mais uma ofensiva para manter pelo menos parte das suas usinas que estão prestes a serem leiloadas pelo governo (com certame marcado para a próxima quarta-feira). Porém, ao que tudo indica, será a muito custo para os acionistas minoritários - chegando inclusive a impactar os papéis da empresa, que chegaram a ter queda de 5%, para depois, a despeito do noticiário, virar para alta logo na primeira hora do pregão. 

Na noite de ontem, em aviso aos acionistas, a companhia de energia anunciou a convocação de uma AGE ( Assembleia Geral Extraordinária) em 26 de outubro para deliberar sobre um aumento de capital de até R$ 1 bilhão. Segundo a companhia, o porcentual de diluição de participação para os detentores tanto de ações ON quanto PN será de 13,7095%. Serão emitidas até 66.849.505 novas ações ON e até 133.150.495 PN, em uma emissão privada; os ativos serão emitidos a R$ 6,57 - ou seja, a um deságio de 20% em relação ao fechamento da última segunda-feira, quando os ativos PN fecharam a R$ 8,24, “incentivando” minoritários a subscrever para evitar uma diluição. 

Em fato relevante, a estatal disse que o aumento de capital "servirá para robustecer a estrutura de capital e o caixa da companhia, de modo a contribuir para a redução da sua alavancagem financeira". Porém, o mercado segue cético sobre qual será o destino do aumento da capitalização.

Logo após o anúncio, os analistas apontaram que a oferta poderia ser positiva. Contudo, se os recursos fossem utilizados apenas para desalavancar a empresa e não financiar aquisições, conforme ressaltou o BTG Pactual. Porém, não é isso que deve acontecer. 

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Antes mesmo do comunicado da estatal, o vice-presidente da Câmara, deputado Fabio Ramalho (PMDB-MG), classificado como o "deputado-RI" da Cemig, afirmou que a companhia faria aumento de capital, aliado a uma venda de ativos, para tentar ficar com as usinas de Jaguara e Miranda. Segundo ele, a empresa também aguarda receber uma carta-fiança do Citibank para poder fechar uma proposta financeira pelas hidrelétricas. Além dessas opções, ela poderia inclusive vender os papéis da transmissora de energia Taesa para levantar os recursos necessários.

Poucas horas antes do leilão de usinas, a estatal tenta convencer o governo a retirar do leilão pelo menos uma das quatro hidrelétricas e está oferecendo o montante a ser levantado na capitalização para que a usina de Miranda não faça parte do certame. De acordo com a coluna Painel, da Folha de S. Paulo, a União topou o acordo.

Desta forma, conforme aponta o Bradesco BBI,  o anúncio do aumento de capital inesperado suscita dúvidas sobre o programa de venda de ativos, uma vez que tudo indica que a estatal quer manter os ativos ora perdidos, enquanto o mercado espera que a Cemig venda, não compre ativos. 

Porém, os analistas seguem dando um voto de confiança à empresa: "mantemos nossa recomendação de Compra, dando à Cemig o benefício da dúvida de que seu foco principal deve ser vender ativos para reduzir a alavancagem, e não comprar ativos. O aumento de capital de R$ 1,0 bilhão reduziria a relação dívida líquida/Ebitda da Cemig dos atuais 3,98 vezes para cerca de 3,66 vezes".

Já para o Bank of America Merrill Lynch, a incerteza quanto ao uso dos R$ 1 bilhão e a potencial diluição podem pesar nas ações da Cemig no curto prazo. "Embora observemos que este dinheiro adicional poderia dar algum alívio de curto prazo ao balanço esticado da empresa, observamos que ele não aborda as questões do balanço da empresa e os investidores tendem a permanecer cautelosos até o próximo leilão de hidrelétricas. Contudo, não acreditamos que o  anúncio de hoje altera os planos de desinvestimento e acreditamos que a venda de ativos-chave poderia desbloquear um valor significativo para os acionistas", apontam os analistas.

De qualquer forma, o anúncio da capitalização  acaba indo contra toda a expectativa de diminuição da empresa e a interferência da bancada mineira no assunto remete aos tempos áureos de intervenção do governo no setor. E, como sabemos, o saldo não é positivo para os acionistas, o que impacta mais uma vez a confiança já abalada dos investidores com relação às estatais.  

 

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br