Por que acreditar em ainda mais altas do Ibovespa após ele renovar sua máxima histórica?

As primeiras impressões sobre por que não é loucura acreditar que esse recorde histórico é apenas o começo de um ciclo mais longo de alta do mercado brasileiro
Blog por Thiago Salomão  

SÃO PAULO - Segunda-feira, 11 de setembro de 2017, 10h32 (horário de Brasília): neste momento o Ibovespa finalmente rompeu os 73.920 pontos, que era o maior patamar intradiário da história do mercado brasileiro, alcançado em 29 de maio de 2008. Ao final deste dia histórico, o índice de ações conseguiu alcançar seu novo fechamento histórico (74.319 pontos) sua nova máxima intradiária (74.635 pontos).

Em 2017, a alta do principal índice de ações da nossa bolsa chega a 23,4%; se fizermos a conta da mínima do Ibovespa do ano passado (região dos 38 mil pontos, vista em janeiro), a alta já chega a 100%. Nas linhas abaixo você NÃO encontrará a explicação sobre por que o Ibovespa chegou neste nível historicamente alto com a realidade ainda tão deprimida da nossa economia (essa explicação você pode ver neste link ou no vídeo que deixarei acima deste texto). O que quero compartilhar aqui são as primeiras conclusões dessa nova máxima histórica e, principalmente, por que acredito que há mais espaço para a bolsa seguir em alta do que formar um "novo topo" e começar a cair, como vimos em 2008.

1. 2017 x 2008: por que não vamos repetir o “fracasso” daquele ano?

O que há de diferente no nosso momento atual com maio de 2008 (época da ex-máxima histórica do Ibovespa?) Bom, naquela época, estávamos na “crista da onda”, com a economia pujante, o Cristo Redentor decolando na capa da The Economist, a nota de crédito entrando no nível “Grau de Investimento” pelas agências de classificação de risco… ou seja: estávamos no “topo” do movimento de euforia que havia se iniciado em outubro de 2002 (isso mesmo, 5 anos e 7 meses!). Pra se ter uma ideia, o Ibovespa saiu de 8.600 pontos para 73.900 pontos neste intervalo - alta de 759% -, sendo que ele subiu em 46 destes 67 meses de rali.

Já nos dias de hoje, nem precisamos ir tão longe para ver que a realidade é bem diferente: em janeiro de 2016, por exemplo, nosso índice chegou a bater nos 37 mil pontos por conta do colapso que nossa economia entrou desde o final de 2014, que culminou com descontrole inflacionário, problemas fiscais, desemprego e retração da economia; isso explica em boa parte o movimento da nossa bolsa nestes quase dois anos, que foi provocado muito mais pela expectativa de que o afastamento de Dilma Rousseff traria uma mudança de rumo da nossa economia - tal movimento ficou conhecido como “rali do impeachment” e levou o Ibovespa a subir 60% em 9 meses que foram marcados muito mais por turbulências políticas do que melhorias econômicas. Em 2017, o cenário não é tão diferente: poucas semanas antes da renovação da máxima histórica, nosso PIB “abandonou” a recessão com um crescimento nada empolgante de 0,2%, a taxa de desemprego continua em um incômodo e resiliente patamar de 13%, os investimentos em formação bruta de fixo (o alicerce para que empresas cresçam de maneira sustentável) segue muito baixo e a nota de crédito brasileira segue abaixo do nível “Grau de Investimento”, com grandes chances de ser novamente rebaixada se a Reforma da Previdência de fato não sair do papel antes das eleições de 2018.

Se o filme do Brasil é bem mais triste do que de 9 anos atrás, o lado bom dessa história é que temos muito o que melhorar - ou seja, a bolsa ainda tem muitas “boas notícias” para colocar no preço. Para ilustrar essa visão, pego a fala do analista técnico da Clear Corretora, Fernando Goes, que durante o programa “In The Money” (apresentado todas as segundas-feiras a partir das 15h35 na InfoMoneyTV) deste dia 11 de setembro disse que o movimento atual do Ibovespa lembra muito mais o início da tendência de alta de 2002 do que o final da tendência de 2008. Na sua análise, o Ibovespa tem espaço para subir pelo menos até os 110.000 pontos, caso ele repita o rali visto na década passada.

 2. Ibovespa está BEM longe da máxima histórica (isso aos olhos dos gringos)

Já falei aqui no InfoMoney sobre alguns gráficos que testam desvendar a “verdadeira” máxima histórica do Ibovespa. Isso por que muitos analistas contestam que se descontarmos o Ibovespa ao CDI (benchmark de renda fixa, o que seria a “taxa de carrego” do investidor que preferiu deixar o dinheiro em bolsa ao invés de posicionado em qualquer ativo de renda fixa) ou descontarmos a inflação do período, o nosso índice hoje estaria muito abaixo dos patamares de 2009. Você pode ver mais sobre essas contestações clicando aqui, mas pra quem quer pular o debate já dou meu parecer sobre isso: acho tudo balela. Não que essas comparações estejam erradas (longe disso, elas de fato fazem muito sentido), mas esse tipo de análise não é nem um pouco prático. É como querer argumentar que o Cristiano Ronaldo faz mais gols por ano do que o Pelé porque hoje em dia um jogador de futebol faz muito mais partidas por ano do que na época do Rei do Futebol: é um argumento que acaba caindo no campo da subjetividade. No futebol, é legal debater o campo das ideias, mas no mercado financeiro essa dialética torna-se pouco útil.

Agora, tem um gráfico que é realmente MUITO importante se atentar, que é o Ibovespa “dolarizado”. O que seria isso? Nada mais do que dividir a pontuação atual do Ibovespa por uma taxa de câmbio R$/US$. E por que ele é realmente importante? Simples: o investidor estrangeiro não vê nosso Ibovespa “em reais”, ele precisa converter os dólares dele antes de fazer a compra das ações brasileiras - é a mesma conta que você faz quando quer saber se vale mais a pena comprar o novo iPhone aqui no Brasil ou na sua próxima viagem pro exterior.

Aí é que está o pulo do gato: enquanto nosso Ibovespa em reais hoje está beirando os 75 mil pontos, o mesmo Ibovespa em dólares está na faixa dos 24 mil pontos, considerando a taxa de câmbio atual de R$ 3,10. Em maio de 2008, na última máxima histórica, o Ibovespa em dólares era quase o dobro disso: 44.616 pontos. Ou seja, aos olhos do gringo, o Ibovespa ainda está na metade do caminho da máxima histórica. Lembrando que os estrangeiros respondem em média por 50% do volume mensal negociado em ações no Brasil.

3. “Metade” do Ibovespa ainda não está na máxima histórica

Uma informação um tanto curiosa mas que pode ser bem útil para o investidor: um levantamento feito pela consultoria Economatica mostrou que, das 59 ações que atualmente fazem parte do Ibovespa, 20 delas haviam atingido suas máximas históricas entre 7 de junho e 8 de setembro. Em termos de participação, esses 20 papéis respondem por 49,5% da carteira teórica do índice.

Esse número por si só não quer dizer que o restante dos 50% do Ibovespa vai subir para a máxima e por isso o índice tende a avançar ainda mais. Mas, como você pode ver na lista abaixo com as 20 ações perto da máxima histórica, não fazem parte desta lista: Vale, Petrobras, Banco do Brasil e BRF. Essas 4 empresas têm feito o “dever de casa” e mostrado melhoras constantes em seus resultados e na gestão de negócio e, aos poucos, estão reconquistando a confiança dos investidores. Somente estas 4 companhias juntas somam 23% da carteira teórica do Ibovespa, por isso uma melhora neste quarteto ajudaria a estender os ganhos do índice.

4. Comparação de cada carteira (análise completa em breve...)

Infelizmente, não consegui terminar a parte mais divertida desta análise, que é a comparação da carteira do Ibovespa de 2008 com o Ibovespa atual. Amanhã (terça-feira, 12 de setembro) farei uma publicação com esses dados, mas já deixarei aqui duas curiosidades que mostram por que não vale tanto a pena querer ficar comparando o Ibovespa atual daquele de 2008, tendo em vista as gritantes diferenças de composição de ativos:
i) Em 2008, Petrobras e Vale respondiam por 31,1% do Ibovespa; hoje, a dupla é apenas 16,5%
ii) ao mesmo tempo, Itaú tinha 2,92% de importância na máxima histórica de 2008, quase 4 vezes menor do que a participação de 10,9% de hoje - o que a coloca como ação mais importante do índice atualmente.

Amanhã trago mais informações sobre essa análise. Mas já deixo o recado otimista a todos vocês: não é por que subimos 100% em 20 meses que não temos mais espaço para subir.

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br