Entenda por que a desestatização da Eletrobras pode trazer uma revolução no setor elétrico

Anúncio feito na noite da última segunda-feira (21) provocou uma valorização de 20% nos ADRs da estatal na bolsa de Nova York
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - A noite da última segunda-feira (21) foi marcada por uma grata novidade para o mercado: o Ministério de Minas e Energia propôs a desestatização da Eletrobras (ELET3;ELET6), citando 10 "considerações" que o fez tomar essa decisão (leia a íntegra do comunicado clicando aqui). Para mensurar o tamanho da surpresa, os ativos ON da companhia elétrica fecharam com ganhos de 49,30%, a R$ 21,20. 

Mais detalhes sobre o processo de desestatização foram dados nesta terça-feira (22) pelo próprio ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho (veja mais clicando aqui). Mas o que o mercado já tinha tomado ciência até então era: o processo de "diminuição do Estado" será feito nos moldes da Embraer (EMBR3) e da Vale (VALE3), com uma oferta primária de ações na qual o governo não participará comprando papéis, o que diluirá sua participação para um nível minoritário (isto é, menor que 50%), mas ele ainda terá uma "golden share", o que lhe dará direito a vetar decisões estratégicas. A expectativa do governo é arrecadar R$ 20 bilhões com essa oferta, o que tem previsão acontecer ainda na primeira metade de 2018.

“Esse movimento permitirá à Eletrobras implementar os requisitos de governança corporativa exigidos no Novo Mercado, equiparando todos os acionistas – públicos e privados – com total transparência em sua gestão”, disse o ministério de Minas e Energia. Atualmente a Eletrobras está listada no Nível 1 da B3, e possui três tipos de ações na bolsa - ON (ELET3), PNA (ELET5) e PNB (ELET6). O governo detém cerca de 63% das ações ordinárias - divididas entre União (51%) e BNDESPar (13%).

Mas afinal, por que a notícia animou tanto os investidores no after hours da Nyse e deve impulsionar as ações na B3 (antiga BM&FBovespa) nesta terça-feira? Apesar de não ter um plano claramente definido de privatização - e mesmo sabendo que esse plano pode enfrentar resistências políticas -, o fato é que o cálculo que o mercado faz para achar o valor de uma empresa com gestão privada é diferente de uma empresa estatal, pois ele coloca em suas contas de valuation que a gestão fora do Estado será focada em eficiências e terá menos intervenção do governo. Por isso, uma estatal sofre um "desconto" em bolsa quando comparado com seus pares privados. 

Aliado a isso, vale destacar que a Eletrobras é atualmente negociada na bolsa com um largo desconto em relação ao NAV (Valor Presente Líquido), apontando que o desempenho recente das ações foi fraco por conta de incertezas em torno do plano de recuperação implementado pela gestão. "A decisão é 'inesperada e positiva', afirmam os analistas do banco, embora façam uma ressalva: é preciso mais detalhes para calcular potenciais impactos sobre o valor justo do patrimônio da empresa. A definição de provisões fora do balanço que podem ser incluídas no leilão de privatização e esclarecimentos sobre se quantas ações o governo venderá são um dos pontos em aberto citados pelo Santander.

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Para se ter uma ideia do "desconto" da Eletrobras em bolsa: o Santander estima que o NAV potencial da empresa pode chegar a R$ 69 por ação, utilizando múltiplos de mercado; no último pregão, as ações ordinárias e preferenciais classe B fecharam R$ 14,20 e R$ 17,80, respectivamente - ou seja, teríamos aí um potencial entre 390% e 290% para estes papéis. "A potencial privatização poderia destravar um novo valor aos acionistas, já que um novo sócio ou investidores poderiam acelerar o plano de recuperação e melhorar o custo da dívida e da estrutura de capital", afirma. 

"A história está sendo feita"
Já a equipe de análise do Bradesco BBI acredita que o detalhamento sobre o formato da operação e quando ela deve ocorrer devem ser divulgados rapidamente, dada a necessidade sobre a questão fiscal - lembrando que o governo anunciou semana passada um aumento na meta de déficit fiscal para R$ 159 bilhões para os anos de 2017 e 2018. Em cima dessa urgência, o banco preparou um relatório intitulado "A história está sendo feita", com 4 pontos que podem ser anunciados pelo governo.

Primeiro: a privatização da Eletrobras antes das eleições só seria possível somente se o governo vender a holding, e não os ativos individuais. Segundo ponto: um possível formato para a privatização poderia ser combinando com uma oferta primária de ações (ajudando a desalavancar a companhia) com uma oferta secundária, em que o governo venderia um participação significativa. Terceiro ponto: os minoritários provavelmente devem se beneficiar e a ação deve reagir mesmo com os detalhes ainda pendentes. O quarto e último ponto: privatizar a Eletrobras seria bom para o setor elétrico uma vez que, dada regulação pró-mercado, não seria necessário um player nacional para os grandes investimentos. 

Em cima desses 4 pontos, o Bradesco BBI também elencou 4 questões importantes que ficarão no radar dos investidores: 1: a Eletrobras privatizada será permitida de vender a capacidade de geração renovada a preços de mercado (de R$150 por MWh, contra as cotas a R$ 40 MWh) e os minoritários poderão capturar esse benefício? 2: quem vai tomar o risco dos recebíveis de cerca de R$ 35 bilhões da RBSE? 3: as distribuidoras da Eletrobras serão vendidas separadamente para evitar diminuir o valor da privatização? 4: qual a solução para alguns passivos como o corte de subsídio de combustível, dívidas compulsórias, reembolso da RGR pela Eletrobras aos consumidores?

R$ 40 bilhões de criação de valor
A nova Eletrobras seguirá o modelo adotado em diversos países, como Portugal, França e Itália, que transformaram suas estatais de energia elétrica em grandes corporações que atuam no mundo inteiro e mantêm sua identidade nacional, afirma a LCA Consultores. Já o Itaú BBA acredita que o processo pode gerar uma mudança positiva na dinâmica do setor de energia, inspirando outros nomes estatais como Copel (CPLE6) e Cemig (CMIG4).

Para os analistas do banco, um player privado poderia adicionar pelo menos R$ 40 bilhões em criação de valor através de uma enorme iniciativa de redução de custos. A saber: a Eletrobras fechou o último pregão valendo R$ 24,1 bilhões em bolsa.

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br