Prejuízo de R$ 400 milhões e ações sobem 7%: o que explica a euforia do mercado com a Gol?

Indo além da última linha do balanço da companhia, números mostram um ótimo resultado, ainda mais em um período que tende a ser mais fraco
Blog por Rodrigo Tolotti Umpieres  

SÃO PAULO - Para quem já está acostumado com a bolsa, sabe que olhar só para o lucro de uma empresa não é sinal de muita coisa. Mas para os novatos no mercado, movimentos como o da Gol (GOLL4) nesta quarta-feira (9) podem ser uma surpresa em um primeiro momento: a companhia aérea registrou um prejuízo líquido de R$ 406,3 milhões no segundo trimestre, mas ações estão disparando mais de 7%.

Mas é só olhar os números com um pouco mais de calma que já é possível encontrar algumas explicações para o reflexo positivo do mercado nesta sessão. Por exemplo, a empresa teve um lucro operacional recorrente, ou Ebit, de R$ 37 milhões, revertendo resultado negativo registrado no mesmo período do ano passado, conseguindo assim seu primeiro resultado positivo para o segundo trimestre em sete anos.

A equipe de analistas do Bank of America afirmou que a Gol é sua "top pick" entre as companhias aéreas e destacou ainda as margens sólidas reportadas pela empresa, impulsionadas por melhores rendimentos e menor custo. "A Gol geriu bem o capital de giro e a receita total foi alimentada pela receita de carga e Smiles, gerando uma margem positiva de 1,7%", disseram em relatório.

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O problema da companhia no lucro foi basicamente por conta do câmbio. Segundo a própria Gol, "em decorrência do câmbio, ganhos extraordinários de R$ 779 milhões no segundo trimestre do ano passado conduziram a um lucro de R$ 253 milhões". "Neste trimestre de 2017, o efeito do câmbio foi o inverso e a companhia contabilizou perdas de R$ 226 milhões, gerando um prejuízo contábil de R$ 475 milhões, sem efeito caixa", explicou a empresa.

Para o BofA, "todas as variáveis-chave estão jogando em favor da empresa" e a projeção é que o segundo semestre seja de um bom "momentum" para ganhos. Segundo os analistas, a companhia tem um potencial de alta de 28%, com pontos positivos provenientes do câmbio e custos mais baixos.

O lucro operacional da Gol não só foi uma boa surpresa por ter sido positivo, mas também por ter ocorrido em um trimestre onde sazonalmente o balanço tende a ser mais fraco, com uma tradicional queima de caixa, o que não ocorreu desta vez. "A administração conseguiu gerenciar ainda mais seu capital de giro e desempenho operacional e a GOL gerou R$ 253 milhões em caixa", destacaram os analistas do BofA.

Se todos estes destaques positivos já seriam motivos suficientes para as ações subirem após o resultado, um grande evento que ocorre nesta quarta também ajuda a puxar os papéis. O Senado votará hoje um possível teto do ICMS para combustível de aviação. O projeto estabelece a redução de 25% para 12% no teto do ICMS do querosene de avião em todos os estados.

Segundo a equipe de análise do BTG Pactul, esse imposto é uma das principais razões pelas quais o preço do combustível de aviação no Brasil é tão mais alto que em outros países. A proposta necessita de pelo menos dois terços de votos favoráveis para ser aprovada, e caso isso ocorra já será enviada para ser promulgada.

"Apesar do impacto que pode causar no fiscal de alguns estados, alguns senadores tem se mostrado favoráveis à mudança pois vai aumentar o número de rotas e diminuiria o preço das passagens. O impacto potencial para as companhias pode ser significativo e reiteramos visão positiva no setor", destaca o BTG.

O mercado sempre nos "brinda" com estas pequenas aulas sobre investimento. E é bom sempre ter em mente, principalmente em época de divulgação de resultado, que só um número não irá definir toda a situação da empresa. Olhar para o balanço com calma, deixando de dar tanta importância para o lucro/prejuízo pode ser a diferença entre aproveitar ou desperdiçar uma oportunidade na bolsa.

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br