Ânimo com minério pode estar com os dias contados - mas Vale tem "cartas na manga" para atravessar cenário

De acordo com a Wood Mackenzie, cotação do minério a US$ 70 não deve se sustentar, mas a Vale mantém resiliência
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - Na semana passada, a revista Forbes destacou que, ao contrário do que muitos grandes gestores vinham apontando, o cenário de hard landing para a China, (ou seja, de uma desaceleração econômica brusca em meio à nova composição de crescimento do país), havia sido adiado novamente. Além disso, na coluna, destacou-se a crescente importância do país, que está virando ao menos tão importante para o Brasil quanto os EUA, além de mais importante para o sudeste da Ásia do que os americanos, entre outros nomes que sinalizavam o crescente grau de importância do país. 

Os dados desta segunda-feira corroboraram esse cenário e, associados a fala de autoridades chinesas, impulsionaram a disparada das cotações do minério spot e futuro em mais de 7%. 

Em entrevista ao InfoMoney, o analista do setor de mineração e siderurgia da Wood Mackenzie, Cicero Machado, destacou que três fatores vêm recentemente impulsionando o minério de ferro: i) a resiliência das políticas pró-crescimento do governo chinês; ii) o crescimento dos estoques e iii) a atuação do governo chinês no sentido de fechar algumas siderúrgicas do país pouco eficientes, algumas até clandestinas. A atuação vem se tornando uma tarefa política importante no país e, com o fechamento dessas siderúrgicas, há uma transferência da capacidade para siderúrgicas maiores.

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Neste sentido, está a fala do primeiro-ministro Li Keqiang, que pediu no fim de semana mais esforços para cortar o excesso de capacidade de produzir aço. Vale ressaltar, que os apelos da China para conter o excesso de produção não são novos. Em janeiro de 2016, a China inicialmente se comprometeu com "reformas do lado da oferta" em seus setores de aço e carvão - reduzindo o excesso de capacidade de produção neles. No ano passado, a capacidade foi reduzida em 6% e 8% nesses setores, respectivamente enquanto que, em 2017, pelo menos dois terços das reduções almejadas para 2017 já tinham sido obtidos até maio. Já no primeiro semestre, segundo o governo, cerca de 120 milhões de toneladas de capacidade de produção de aço foi atingida porque a poluição que ela causa foi eliminada - 11% da capacidade de produção de aço e 15% da produção anual. No sábado, porém, duas siderúrgicas em Tianjin e Hunan que haviam recebido ordem para interromper a produção de rebarbas de aço de baixa qualidade até o fim de junho estavam ainda produzindo após o prazo. Com isso, Li disse que é preciso manter a firmeza para reduzir o excesso de capacidade. 

Com essa disparada na derradeira sessão de julho, o minério de ferro futuro caminhou para o segundo mês em alta. Nesta sessão, quem sentiu com maior força o movimento foi a Vale, que viu suas ações subirem cerca de 4% na máxima do dia, enquanto os ganhos no mês são de cerca de 8% (abaixo da alta do minério spot no período, de 13,5%).

A grande dúvida para a Vale
O minério de ferro vem sendo um dos grandes pontos de dúvida para a mineradora, mesmo em meio a catalisadores positivos para a companhia no longo prazo, como a reestruturação societária e o novo código de mineração (que, apesar de ser criticado pelo CEO da Vale, é visto como positivo por analistas em um prazo mais longo por reduzir as incertezas regulatórias).

Assim, as dúvidas de muitos investidores passam a ser: os preços do minério são sustentáveis? Agora é a hora para o investidor comprar ações da Vale? Ou o cenário para o minério segue nebuloso? 

De acordo com o BTG, os fundamentos de curto prazo parecem bem sustentados, com a China mantendo seu momentum de crescimento e sem um cenário de super oferta iminente. Os estoques de minério permanecem altos, mas sem nenhuma destruição agressiva está à vista, enquanto os spreads de metal da indústria siderúrgica chinesa permanecem muito saudáveis. Assim, em uma comparação mensal, a ação volta a ser negociada a níveis "baixos", com um yield de fluxo de caixa livre de 16%. 

Se no curto prazo, o preço do minério pode animar, o cenário pode não se manter nos próximos meses, aponta o analista da Wood Mackenzie. De acordo com ele, o mercado conta estruturalmente com um excesso de oferta e, até 2020, 5 grandes produtoras de minério de ferro (Vale, BHP, Rio Tinto, Roy Hill e Anglo American) vão adicionar 130 milhões de toneladas em oferta da commodity. Enquanto isso, do lado da demanda, haverá um crescimento modesto na China, principalmente por conta da substituição de produtores chineses de alto custo por produtores do mercado marítimo de menor custo. Assim,  produtores chineses fecharão as portas e empresas exportadoras tomarão parte dessa lacuna deixada por eles.

Neste sentido, aponta Cicero Machado, a previsão da Wood Mackenzie é de que os preços do minério de ferro vão sofrer uma piora expressiva até o ano que vem para depois se recuperarem, mas sem atingir os patamares atuais da commodity. Se para 2017, a expectativa é do minério spot fechando o ano a US$ 58, o final do ano que vem deve ser de um minério a US$ 48, em meio ao excesso de oferta chegando ao mercado. Só depois de 2018, a recuperação deverá começar. com a valorização da moeda de produtores como Austrália e Brasil pressionando os custos e levando a um aumento da cotação da commodity, ao mesmo tempo em que haverá uma maior consolidação da indústria. Para além de 2023, a estimativa é do minério a US$ 60 - ou seja, recuperação, mas ainda bem abaixo dos US$ 70 atuais. 

Porém, aponta Machado, isso não deve ser um fator tão alarmante para os investidores da Vale. "A Vale é extremamente bem posicionada com relação aos custos. Se o minério de ferro oscilar entre US$ 50 e US$ 60, ou até a US$ 48, as margens ficarão reduzidas mas, ainda assim, serão extremamente saudáveis", ressalta o analista. Ele aponta que os investidores e produtores ficaram um tanto quanto "mal acostumados" quando o minério estava na casa dos US$ 150, no início de 2013. "As margens do setor eram  de 80%, 90% por tonelada, algo que não existia no mundo". Assim, apesar da queda dos preços da commodity, a Vale segue continua bastante competitiva no mercado tendo em vista que o seu custo de produção CFR (Cost and Freight, já inclusas as despesas decorrentes da colocação da mercadoria no navio e o frete até o destino) projetado para 2017 de US$ 33,50 a tonelada para uma base de minério com 62% de ferro. 

Além disso, a atuação da Vale para aumentar a qualidade de seus produtos é uma pode ter reflexos positivos para a mineradora. Machado ressalta que a companhia está criando um novo produto, o SFLA (Sinter Feed Low Alumina), com um teor de minério de ferro de cerca de 65,4%, além de mudar as especificações para o que classifica como BRBF (Brazilian Blend Fines), com o teor de minério de ferro passando de 62,3% para 63%. 

"Essas mudanças visam atender ao atual maior apetite das siderúrgicas chinesas por minérios de alto teor num momento em que as mesmas buscam aumentar produtividade. Outro ponto que vale salientar é o fato de que se está vendo cada vez mais um aumento no da diferença de preços entre produtos de baixo teor (como os da FMG) e os de alto teor (como os da Vale). Assim, melhorando as especificações dos seus produtos, a Vale poderá maximizar suas margens (e os produtores de minérios de baixo teor, como a FMG, continuarão a ter descontos significativos, pelo menos no curto prazo)", ressalta Machado.

Assim, os dias de glória para o minério não devem voltar tão cedo - e a tendência nos próximos anos é de baixa para a commodity. Mesmo assim, os investidores da Vale não devem ter motivos para se desesperar. A companhia continuará registrando números bastante saudáveis - e resiliência em meio a esse cenário, aponta o analista. 

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br