Após a "crônica de uma morte anunciada", RD voltará aos seus dias de glória no mercado?

Números da companhia no segundo trimestre não agradaram e foram impactados pela alta base de comparação com o ano anterior - contudo, analistas seguem otimistas 
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - O segundo trimestre foi "a crônica de uma morte anunciada". Através dessas palavras que, em teleconferência, o diretor de Planejamento e RI da RD (RADL3), Eugênio de Zagottis, definiu o que aconteceu neste período para uma das queridinhas da bolsa. Durante o auge da crise econômica, a companhia conseguiu se sobressair e entregar ótimos resultados, mas os desafios para manutenção de margens começaram a aparecer e os analistas começaram a se perguntar: a companhia continuaria a entregar balanços cada vez melhores? 

O último trimestre já havia sinalizado alguma fraqueza, que foi confirmada na última quinta-feira à noite, quando a companhia divulgou números que frustraram as estimativas de muitos analistas (que já esperavam dados fracos). A companhia teve queda de 12% no lucro líquido do segundo trimestre sobre um ano antes, para cerca de R$ 138 milhões, afetado por uma queda nas vendas do período. A RD registrou ainda crescimento de vendas em mesmas lojas de 6,1% no segundo trimestre, ante alta de 14,5% entre abril e junho de 2016. 

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O ganho inflacionário menor impactou a margem bruta, que atingiu 29,4% no segundo trimestre, uma pressão de 2,1 pontos percentuais na comparação anual. No caso do varejo, tiveram um aumento médio nos preços de lista de apenas 3,1%, significativamente abaixo dos 11,8% registrados em 2016, e que representou uma pressão na margem bruta consolidada de 1,6 ponto percentual. 

A ação reagiu na bolsa aos fracos resultados, com os papéis chegando a cair cerca de 2% no início das negociações. Porém, destacou Zaggotis, os números não deveriam ser uma surpresa: "todo mundo já sabia que ia ser um trimestre desafiador, pois comparamos o período com uma margem recorde de 2016 e com reajustes de preços menores". O presidente da empresa, Marcílio Pousada, reforçou o discurso: "a queda na margem foi normal e esperada, o índice de 2016 que era impossível”. 

E esses foram os pontos destacados por analistas de mercado para explicar o fraco resultado da companhia. "Como esperado, o balanço foi impactado por um aumento de preço menor de medicamentos autorizado em março pelo Governo, o que levou a um aumento médio de preço para a RD de 3.1% (versus 11,8% em 2016). O resultado disso foi uma queda de 220 pontos-base em margem bruta e 150 pontos-base em margem Ebitda, refletindo um maior controle de despesas. Já o lucro registrou queda por conta das maiores despesas com D&A", apontam os analistas Fabio Monteiro e Luiz Guanais, do BTG Pactual. 

O Bank of America Merrill Lynch destacou ainda que, além do reajuste menor dos remédios, houve o efeito negativo do calendário no segundo trimestre que se combinou a um pior momento, já que o vírus zika que eclodiu no ano passado aumentou as vendas de produtos de saúde e beleza no segundo trimestre do ano anterior (o que elevou e muito a base de comparação). A visão sobre o calendário foi confirmada pela RD, que apontou que a “má notícia” do trimestre foi abril em meio aos seguidos feriados após os finais de semana, que impactam negativamente a venda de sábado ou domingo.

E, de acordo com o diretor da RD, no terceiro trimestre, a margem ainda poderá sofrer alguma pressão. Porém, aponta, a empresa deve "abrir espaço para um quarto trimestre melhor e a margem do terceiro trimestre não deve ficar tão longe da margem do ano passado”, apontou na teleconferência. 

Longo prazo: sempre positivo!
Apesar do resultado fraco, diversos analistas seguem positivos sobre as perspectivas para a companhia, além de destacar o "lado bom" do balanço da companhia. Conforme apontaram os analistas Roberto Otero e Gustavo Holzheim, do BofA, o maior controle de despesas gerais e administrativas foi um grande destaque positivo, é uma conquista muito relevante e sustentável. 

Outro ponto de destaque é que a RD reportou a abertura de 54 novas lojas no trimestre, enquanto 5 foram fechadas, encerrando o período com 1.506 lojas em operação no total, incluindo as 3 lojas da 4Bio. Desse total, 36,1% ainda estão em processo de maturação. Nos últimos 12 meses, foram abertas um total de 211 lojas, enquanto o guidance de 200 novas lojas para 2017 foi reiterado pela companhia. E, mais uma veaz, a RD aumentou a sua participação de mercado, passando de 10,9% para 11,7% na comparação anual. A região que mais registrou expansão foi a Nordeste, com ganho de 1,3 ponto de participação de mercado (para 4,9%), além de 0,7 ponto percentual em São Paulo. 

"O destaque ficou para o Nordeste, muito por conta de sua expansão orgânica, algo que tende a continuar, dado que em julho a RD entrou no estado do Ceará com 4 unidades em Fortaleza, o que faz a RD estar presente em 19 estados, totalizando 93% do mercado farmacêutico Brasileiro. Ao longo dos próximos trimestres, a RD deve entrar também nos estados do Maranhão e Piauí, completando sua estratégia de estar presente em todo o Nordeste", aponta a XP Investimentos.

Assim, de acordo com o BTG,  apesar dos desafios no curto prazo continuarem pesando sobre o papel, os bons fundamentos do longo prazo seguem intactos. "A companhia segue com o plano agressivo de expansão em áreas pouco penetradas, além de de execução superior, o que deve permitir com que ela consolide sua posição de liderança nos próximos anos", apontam os analistas. Assim, eles ressaltam: "é temporário, não estrutural!"

Enquanto o BofA e o BTG seguem positivos com a RD, o Credit Suisse apontou mais riscos para a companhia. Apesar de ressaltarem que as vendas mais fracas aconteceram devido aos feriados, os analistas do banco suíço apontam que a tendência de crescimento de vendas nas mesmas lojas deve ser menor, refletindo a queda da inflação. Com isso, a expectativa é de que a receita desacelere para alta entre 16% e 18% versus os 19 e 20% anteriormente vistos.

Na visão do Credit, as ações devem sofrer no curto prazo, já que negocia com múltiplo alto (de 33 vezes o preço sobre lucro de 2018) e é a primeira vez que os analistas esperam revisões de lucros para baixo.  Porém, aponta, os fundamentos e a atratividade da indústria não mudaram a visão positiva para a companhia. 

Neste cenário, a grande questão sobre a companhia continua no radar: afinal, a ação está ou não está sendo negociada já a um valor justo?  Os analistas do BofA, bastante otimistas sobre o futuro da companhia, não estão tão otimistas sobre a ação RADL3 na bolsa, mantendo recomendação neutra, mas com preço-alvo de R$ 80,00, configurando um potencial de valorização de 15,4% ante a sessão da última quinta-feira, apontando que a história de alta-qualidade já está precificada. Enquanto isso, o BTG tem recomendação de compra para os papéis, apesar de apresentar um preço-alvo menor, de R$ 74,00. O Credit Suisse, por enquanto, mantém recomendação outperform, com preço-alvo de R$ 80,00.  

Assim, a visão de longo prazo segue sendo a mesma para a companhia. As maiores questões seguem sendo o curto prazo - e como a RD reagirá após deixar os investidores "mal acostumados" com tantos resultados expressivos.  

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br