Das gigantes Vale, Bradesco e Ambev às maiores reações da bolsa: o que o mercado achou dos balanços desta 5ª?

Temporada de resultados ganha intensidade - e muitas grandes companhias divulgaram números, dando sinalizações para os próximos períodos
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - Esta quinta-feira marcou a intensificação da temporada de resultados e trouxe reações diversas do mercado. Os mercados voltaram os seus olhos para Vale e Bradesco. Mas, sem grandes surpresas, as variações não foram tão expressivas. Por outro lado, Ambev e Natura, que registraram um primeiro semestre bastante desafiador, veem suas ações em expressiva alta, assim como a OdontoPrev, que não faz parte do Ibovespa. Confira o que o mercado achou dos destaques de resultado nesta sessão - e o que esperar para o futuro das companhias. 

Bradesco (BBDC4, R$ 29,74, -0,03%)
A leitura do mercado é de que o resultado do Bradesco foi de neutro a levemente positivo, algo que se refletiu no desempenho das ações na sessão desta quinta-feira.  O segundo maior banco privado do País teve lucro líquido de R$ 3,911 bilhões no segundo trimestre, queda de 3,9% na base trimestral e de 5,4% ante mesma etapa do ano passado. Já em termos ajustados, o lucro foi de R$ 4,704 bilhões, avanço sequencial de 1,2% e de 13% na comparação ano a ano, resultado favorecido pelo controle nas despesas administrativas e nas provisões para perdas com inadimplência.

A despesa com PDD (provisão para devedores duvidosos) foi de R$ 4,970 bilhões, baixa de 1,1% ante o segundo trimestre de 2016. Já a inadimplência acima de 90 dias foi de 4,9%, baixa de 0,7 ponto percentual ante 5,6% no primeiro trimestre, mas alta de 0,3 ponto percentual ante os 4,6% registrados no segundo trimestre de 2016. 

O resultado agradou os analistas, como os do BTG Pactual, que apontou que viu como positivo o lucro ajustado, maior do que as estimativas e do que o consenso. Mas, mais do que isso, as casas de análise, como também foi o caso do Itaú BBA, destacaram a melhora expressiva da qualidade dos ativos, com melhora dos índices de inadimplência e aumento dos índices de cobetura. 

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Os analistas do BTG apontam ainda que a instituição financeira fechou mais de 50 agências e reduziu mais de mil funcionários, sendo que o PDV (Plano de Demissão Voluntária) nem tinha entrado em ação ainda.

Ainda em destaque, está a revisão do guidance da instituição, esperando queda na carteira de crédito (prevendo contração entre 1% e 5% ante expectativa de expansão neste intervalo) e menores receitas com tarifas em 2017, mas também previu menos provisões para inadimplência. (de um intervalo entre R$ 21 bilhões e R$ 24 bilhões para R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões).  "Sendo assim, vemos um pequeno potencial de valorização para as nossas projeções em 2017", avaliam os analistas do BTG, que reiteram visão positiva.

O Itaú BBA aponta que as mudanças no guidance não foram uma grande surpresa, mas a expectativa de lucro com as novas projeções aumentaram um pouco e agora está em cerca de R$ 20 bilhões, acima das estimativas de consenso. Neste sentido, apesar do bom desempenho recente das ações, os analistas do banco mantêm a recomendação outperform (desempenho acima da média de mercado) para o Bradesco, com preço-justo de R$ 32,70. 

Vale (VALE3, R$ 30,09, +1,45%;VALE5, R$ 28,15, +0,75%)
Os analistas de mercado já esperavam: o resultado da Vale não deveria ser muito animador. E algumas expectativas se confirmaram na manhã desta quinta-feira, após a companhia registrar uma queda de 98,3% no seu lucro, que passou de R$ 3,585 bilhões no segundo trimestre de 2017 para R$ 60 milhões no segundo trimestre deste ano. O resultado foi impactado pela desvalorização do real e seu efeito sobre a dívida, além da queda de US$ 24,40 na tonelada do minério de ferro no período. 

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado totalizou R$ 8,834 bilhões, alta de 7,4% na comparação com os R$  8,228 bilhões registrados um ano antes, mas com baixa de 34,7% na comparação com os primeiros três meses deste ano, quando somou R$ 13,523 bilhões.  A receita líquida no trimestre foi de R$ 23,363 bilhões, 8,3% acima dos R$ 21,576 bilhões na base de comparação anual, mas 12,6% se comparado ao primeiro trimestre de 2017, quando totalizou R$ 26,742 bilhões.

Segundo o Itaú BBA, os resultados foram neutros. A receita líquida atingiu US$ 7,2 bilhões, 4% acima da previsão do Itaú BBA, mas com queda de 15% em uma comparação trimestral, impactados negativamente pelos preços mais baixos do minério de ferro e apesar de volumes sazonalmente mais fortes. O Ebitda do minério de ferro por tonelada diminuiu com preços mais baixos e maiores custos, mas ainda está em níveis saudáveis, afirma o banco. A maior contribuição do carvão (maiores preços e volumes) compensou os resultados mais baixos de metais básicos (preços menores de níquel e cobre). O analista aponta que a Vale espera uma redução nos custos à luz de maiores ganhos de produção e produtividade.

De acordo com o BTG, o balanço foi em linha com o consenso de mercado, com destaque para a boa geração de fluxo de caixa livre, mas boa parte vindo de ganho de capital de giro. Desta forma, os analistas apontaram que o resultado não foi tão ruim como eles temiam, "mas ainda abaixo do potencial". Porém, apontam: o que influenciará a cotação das ações é a direção do minério de ferro. No curto prazo, a tendência é positiva, com a commodity voltando aos US$ 70,00 a tonelada.

A XP Investimentos, por sua vez, apontou que os resultados foram bons, mas em linha com o esperado. Os analistas apontaram continuar gostando das ações VALE5 e VALE3 devido a: (i) elevada qualidade dos ativos, (ii) excelência na gestão e (iii) momento histórico de melhoria de sua governança corporativa. Já em relação aos preços de minério de ferro, a XP acredita em um movimento de acomodação ao longo do segundo trimestre. Por isso, recomenda maior cautela neste atual nível de preços para investidores de curto prazo.     

Ambev (ABEV3, R$ 19,15, +1,70%)
A Ambev viu seu lucro líquido cair 2,2% no segundo trimestre de 2017 na base de comparação anual, para R$ 2,125 bilhões. Já o lucro líquido atribuído aos sócios da empresa controladora, base para a distribuição de dividendos, caiu 1,6%, para R$ 2,013 bilhões, enquanto o Ebitda registrou baixa de 6,2%, a R$ 3,943 bilhões. A receita líquida do segundo trimestre de 2017 somou R$ 10,267 bilhões, em queda de 1,0% ante os R$ 10,377 bilhões no segundo trimestre de 2016. As despesas operacionais foram de R$ 3,175 bilhões, praticamente estável em relação às despesas de R$ 3,183 bilhões registrados no mesmo período de 2016.

Contudo, o resultado animou o mercado, com as ações chegando a subir 3%, maior alta intradiária em mais de dois meses, após os números mostrarem recuperação da fatia do mercado brasileiro e disparada das vendas na Argentina, Paraguai e Uruguai no segundo trimestre. A companhia também confirmou que espera recuperar as margens de rentabilidade no segundo semestre, com a melhoria da economia na região. 

De acordo com o Itaú BBA, do lado positivo, o Ebitda veio 3,6% acima das estimativas do banco e 2,6% acima do consenso. Além disso, há notícias boas vindo do maior controle de despesas, com o desempenho em vários países da América Latina aparecendo como uma surpresa positiva. Conforme destaca o UBS, depois de atravessar um primeiro semestre desafiador, a  Ambev está
cautelosamente otimista e planeja retomar o crescimento do Ebitda no Brasil na segunda metade do ano. "O mercado brasileiro de cerveja viu o Ebitda cair 13% com a contração da margem impulsionada pela inflação e um impacto negativo no câmbio, mas os fatores foram parcialmente compensados pelos preços das commodities e eficiência em termos de custos", afirma Lauren Torres, analista do UBS. 

O JPMorgan, por sua vez, apontam que há "vários" pontos que precisam ser checados para alcançar a recuperação. Os volumes e preços de cerveja do Brasil estão se estabilizando
com o crescente aumento da participação de mercado, apesar da relevante economia de custos. O fluxo de caixa aumentou, despesas financeiras estão caindo e o Ebitda de operações no exterior teve um crescimento nas moedas locais.

Já o Bradesco BBI ressaltou que o resultado foi fraco, como esperado. "No entanto, acreditamos que este trimestre tenha ficado para trás e a empresa tem capacidade de entregar melhores números nos próximos períodos. Apesar do atual valuation, as ações da Ambev ainda oferece um potencial retorno interessante, indicadas especialmente para investidores que buscam ativos mais defensivos: (i) resiliência de ganhos; (ii) boa política de dividendos, e (iii) direcionadores positivos de crescimento nos próximos três anos", afirmam os analistas. Com isso, mesmo com o resultado ainda fraco, as tendências são de recuperação, o que se reflete no desempenho da ação da companhia. 

Natura (NATU3, R$ 23,86, +5,58%)
Um dos destaques de ação nesta quinta após o resultado do segundo trimestre, a Natura reportou (mais uma vez) resultados fracos no Brasil, mas com outros países da América Latina compensando os números ruins nacionalmente. 

A Natura viu seu lucro subir 79,8% no segundo trimestre ante igual período do ano passado, atingindo R$ 163,5 milhões. Segundo a companhia, esta evolução está relacionada à menor despesa financeira. Desconsiderados os custos relacionados à aquisição da Body Shop, o lucro seria de R$ 139,1 milhões, contra ganho líquido de R$ 90,9 milhões um ano antes. Já a receita líquida ficou em R$ 2,025 bilhões entre abril e junho, ficando estável em um ano, enquanto o número de unidades vendidas caiu 12,6% no Brasil no segundo trimestre.

Após o resultado, a Natura teve a recomendação elevada de underperform para market perform pelo Itaú BBA. O melhor lucro líquido ajustado na comparação anual e gastos menores com operações financeiras compensaram alguns números fracos, apontaram os analistas, destacando que a aquisição da The Body Shop, que não agradou o mercado, já parece precificada. 

Contudo, apesar da forte alta dos papéis nesta sessão, o mercado segue cauteloso com os papéis. O Itaú BBA apontou que, apesar de ter elevado a recomendação, compartilha a preocupação do mercado com os desafios enfrentados pela empresa, enquanto o Credit Suisse aponta que a estratégia de crescimento sustentável não está clara. Segundo os analistas do banco suíço, agora, o case de investimento da empresa não é apenas registrar um "turnaround" nas operações no Brasil, mas também integrar a The Body Shop. Já do lado positivo, a companhia está indo na direção certa no segmento de distribuição no Brasil ao apresentar seu novo modelo de vendas. Contudo, "os resultados não virão da noite para o dia e podem exigir investimentos adicionais no curto prazo".

Para o BTG, o resultado do segundo trimestre reforça a visão cautelosa no case que se baseia em (i) desafios para retomar as vendas no canal de venda direta no Brasil; (ii) integração da The Body Shop e (iii) maturação de iniciativas (bem-vindas), como lojas próprias e franquias. "Mesmo com as recentes quedas da ação e múltiplo abaixo da média do varejo, os riscos de execução, somados ao aumento da alavancagem nos próximos trimestres para o financiamento da compra da The Body Shop justificam nossa recomendação neutra", apontam os analistas. 

Klabin (KLBN11, R$ 16,36, +0,18%)
A Klabin reverteu o lucro líquido de R$ 1,268 bilhão em prejuízo de R$ 378 milhões em meio ao peso da oscilação cambial e do valor contábil de ativos biológicos. Contudo, a companhia registrou melhora operacional em meio ao aumento das vendas em volume e preços. 

Já a receita líquida foi de R$ 1,98 bilhão, alta de 17% na base de comparação anual, mas frustrando as estimativas de mercado, segundo compilação da Bloomberg, que apontava para receita de R$ 2,02 bilhões.  Enquanto isso, o Ebitda ajustado foi de R$ 595 milhões, alta de 11% na base de comparação anual, enquanto a margem Ebitda ajustada caiu 1 ponto percentual, passando de 31% para 30%. 

Conforme aponta o Bank of America Merrill Lynch, o balanço foi em linha com a expectativa, com destaque positivo para os resultados da celulose e Puma atingindo a capacidade total em junho. Os analistas do banco esperam que os resultados no segmento continuem a melhorar no terceiro trimestre e guiem a desalavancagem. Contudo, devido ao valuation, o banco americano mantém recomendação neutra para os ativos. 

OdontoPrev (ODPV3, R$ 13,00, +5,69%)
Fora do Ibovespa, uma ação é destaque: a OdontoPrev, que chegou a ver suas ações subirem quase 9% na máxima do dia após o balanço e também após os dividendos. A companhia encerrou o segundo trimestre com lucro líquido de R$ 252,46 milhões, ante lucro de R$ 43,97 milhões um ano antes. Este resultado considera a reversão das provisões de R$ 45,55 milhões relativas ao INSS Bradesco Dental, com ingresso caixa dos depósitos judiciais ocorrendo no terceiro trimestre. Desconsiderando este efeito, a companhia registrou lucro líquido de R$ 51,63 milhões. Já a receita líquida da companhia fechou entre abril e junho em R$ 354,29 milhões, ante R$ 338,77 milhões no segundo trimestre de 2016. A companhia destacou os segmentos massificados, com PME expandindo 17,1% e planos individuais acelerando 20,6%. O tíquete médio, 6,4% superior ao mesmo período do ano anterior, subiu em todos os segmentos de negócio.

O conselho da companhia aprovou a distribuição de R$ 100 milhões em dividendos intercalares, correspondendo a R$ 0,188367425 por ação. Farão jus aos dividendos os detentores de ações da companhia em 31 de julho, com os papéis sendo negociados na forma "ex" a partir de 1 de agosto, com o pagamento ocorrendo em 5 de setembro deste ano.

O Ebitda e lucro líquido da Odontoprev ficaram 10% e 11%, respectivamente, acima das expectativas do Santander, o que pode representar uma reação positiva no curto prazo, dizem analistas do banco em relatório. Já o índice de sinistralidade em 46,4% foi o destaque do trimestre, apontaram os analistas do Itaú BBA em relatório, vindo 2,4 pp abaixo do esperado pelo banco. "Os resultados foram positivos devido à recuperação da margem. A margem Ebitda estava em declínio desde o terceiro trimestre de 2015 e, desta vez, melhorou, uma tendência que pode continuar nos próximos trimestres", disse em nota o Banco Safra.

O balanço e o dividendo animaram o mercado, mas o BTG destaca cautela. "Vemos o papel negociando a 22 vezes a relação preço sobre o lucro para 2018 (ex-INSS), o que nos parece esticado, com problemas estruturais como perda de participação de mercado no segmento  corporativo e pior DLR no individual pressionando os números. Seguimos com recomendação de venda". 

 

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br