Após vários anos, a oportunidade chegou: por que os analistas estão de olho na ação da Lojas Americanas?

Desempenho da ação vem decepcionando desde maio - o que abre uma oportunidade de compra, avaliam analistas
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - A crise deflagrada em meados de maio de 2017 com a revelação do áudio de Joesley Batista levou a "baques" de diversas ações na bolsa, sendo que muitas delas não se recuperaram. Desta forma, quase dois meses depois a crise "estourar", muitos analistas passaram a observar com atenção alguns papéis que não se recuperaram na Bolsa de forma injustificada. 

De olho nessas oportunidades, a ação de uma companhia e também de sua subsidiária vêm chamando a atenção nos últimos meses por representar uma boa oportunidade de compra ao apontar para um desempenho bastante inferior das ações nos últimos meses em relação aos seus fundamentos. 

Trata-se da Lojas Americanas (LAME4), que vem ganhando destaque em relatórios de analistas de mercado em meio à forte queda das ações no ano. O desempenho, na visão de muitos do mercado, é "equivocado".

Desta forma, somente na última semana, o Credit Suisse, o BTG Pactual e a XP Investimentos destacaram uma boa oportunidade para as ações da companhia.

Conforme destaca a XP Investimentos, o modelo de negócio da Lojas Americanas permite que a empresa mitigue os efeitos do desaquecimento da atividade. Assim, ela estaria relativamente "protegida" dos efeitos da crise política sobre a economia, por conta de fatores como (i) menor dependência de crédito, (ii) ticket médio baixo e (iii) grande sortimento.

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"Embora o primeiro trimestre de 2017 tenha se mostrado desafiador, muito disso foi por conta da base de comparação difícil (a Páscoa ocorreu no primeiro trimestre de 2016 e no segundo trimestre de 2017). O papel cai cerca de 20% em 2017, e negocia a EV/EBITDA (EV = Enterprise Value, que é a soma do valor de mercado com a dívida líquida; Ebitda = lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) de 14%, abaixo da média histórica, cenário que vem se acentuando desde maio e, em nossa visão, não se justifica", destaca a XP.  

A visão é compartilhada pelos analistas do Credit Suisse, Tobias Stingelin e Leandro Bastos, que reiniciaram a cobertura para as ações na semana passada com recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado). E reforçam o coro: "a recente performance do papel não parece refletir a perspectiva positiva para a empresa". De acordo com o Credit, muitos investidores têm comentando que, depois de vários anos, o papel estaria negociando a um "valuation palatável". 

Eles ressaltam que a  empresa concluiu a capitalização de R$ 2,3 bilhões com sucesso; além disso, o cenário de queda da taxa básica de juros tem um peso importante sobre a operação da companhia. "Acreditamos que o crescimento de Ebitda combinado com um menor consumo de working capital e menor alavancagem devem aumentar de forma significativa o crescimento de lucros e geração/conversão de caixa", avaliam eles.

Mantendo a recomendação de compra e elevando o preço-alvo de R$ 18,00 para R$ 20,00, o BTG Pactual destacou que a Lojas Americanas combina um modelo de negócios resiliente com uma execução superior. "No curto prazo, as perspectivas de queima de caixa e prejuízo líquido da B2W adicionam um componente de risco para Lojas Americanas, mas a resiliência da divisão de B&M (termo que corresponde a lojas físicas) ainda deve garantir que ela supere os seus pares", apontam os analistas Fabio Monteiro e Luiz Guanaes.

Segundo o BTG, a Lojas Americanas também deve se beneficiar de um plano de crescimento ousado, ganhos de margem e um novo formato de loja de conveniência. "O valuation de Lojas Americanas não está barato, mas consideramos que a performance no acumulado do ano foi exagerada, especialmente pelas perspectivas melhores para os próximos anos", apontam eles.

Para destacar o quanto a queda foi exagerada, o Credit Suisse faz uma comparação com os pares do setor. Em 2016, a Lojas Americanas negociava com prêmio em relação a Raia Drogasil (atual RD), nivel que na época os analistas do banco suíço não achavam justificável.  

Já com o papel negociando nos atuais 26,4 vezes a relação preço sobre o lucro esperado para 2018 (consolidado), o valuation parece muito mais atrativo. Ainda mais levando em conta o forte balanço, a expectativa de maior fluxo de caixa, crescimento de Ebitda de dois dígitos e a Selic mais baixa.

Além disso, os analistas do Credit apontam que a receita parece resiliente, enquanto o controle de custos também aparece como um destaque. Atenção ainda para a melhora no nível de eficiência na loja: nos últimos dez anos, o número de funcionários caiu em 57% e as vendas por funcionário aumentaram em cerca de 92%. "Este declínio pode ser explicado em parte por uma diminuição média no tamanho das lojas. Contudo, acreditamos que também seja resultado de um continuo esforço de melhoria do modelo negócios, tendência que deve continuar nos próximos anos", afirmam.

B2W: mais divergências
Se as perspectivas para a Lojas Americanas são positivas, o cenário é um pouco mais nebuloso para a B2W (BTOW3), controlada pela companhia. Enquanto o BTG Pactual recomenda compra para os ativos destacando uma visão positiva, o Credit também vê um ambiente mais brilhante para a empresa, mas possui recomendação neutra para os papéis. Por outro lado, em relatório com o portfólio para o terceiro trimestre de 2017, o Bank of America Merrill Lynch destacou os papéis BTOW3 como uma boa recomendação - para venda.  

De acordo com o BTG Pactual, a perspectiva de queima de caixa e prejuízo no curto prazo ainda devem pesar para a ação. Contudo, a migração mais rápida para o modelo de marketplace - um canal de vendas de grande audiência, como uma espécie de shopping center virtual - e o sólido tráfego de consumidores em seus sites trazem potencial de valorização no longo prazo. O preço-alvo do BTG para o ativo é de R$ 17,00.

O Credit Suisse, por sua vez, possui um preço-alvo de R$ 14,00 para os ativos, mas estão positivos com a companhia, ao enxergá-la em uma transformação para um negócio de maior margem e menor uso de capital. "Acreditamos que a jornada da B2W de migrar de um e-commerce tradicional para o marketplace está acontecendo em um ritmo acelerado e de forma bem sucedida", afirmam os analistas do banco suíço. 

Segundo Stingelin e Bastos, depois de vários anos de uma forte queima de caixa, a empresa parece ter encontrado uma forma de alavancar alguns pontos fortes como: 1) números robustos de tráfego, 2) infraestrutura, 3) tecnologia e 4) portfólio de empresas digitais. "A transição não e fácil no curto prazo e deve se estender ao longo de 2017. Contudo, acreditamos que a partir do ano que vem as margens devem melhorar de forma relevante", afirmam os analistas. 

Por outro lado, a B2W foi adicionada como uma "ideia short" (ou vendida) no portfólio do BofA para o terceiro trimestre de 2017 (confira mais clicando aqui). De acordo com os estrategistas, a companhia enfrenta uma crescente pressão competitiva no mercado de comércio eletrônico no Brasil. Por exemplo, o líder do mercado, o Mercado Livre, inaugurou recentemente programa de pontos que oferece frete grátis.

"Estimamos que até 50% do volume bruto de mercadorias no Brasil serão elegíveis para envio gratuito com o Mercado Livre subsidiando uma parcela do custo. Dada a alta alavancagem da B2W, vemos pouca margem para fazer um financiamento desse tipo em termos comparáveis. Na verdade, vemos a B2W se afastando de quaisquer subsídios", afirmam os estrategistas do banco americano. Assim como o Mercado Livre, a Amazon aparece como uma concorrente, em meio à expectativa de que a americana expanda as suas operações no País. Soma-se a isso o cenário de forte queima de caixa da B2W e, mesmo com possíveis cortes de tarifas, ainda se esperam prejuízos nos próximos trimestres da companhia.

Assim, enquanto as divergências são muitas sobre a B2W, o cenário parece mais "consensual" sobre a Lojas Americanas. Com isso, após tantas turbulências em meio à crise política, pode ser a vez da companhia engatar na Bolsa.  

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br