Boicote à JBS: campanha pode afetar as ações na bolsa? E quem pode ganhar com isso?

Em meio à crise política envolvendo a J&F, menções ao boicote à JBS aumentam - e podem beneficiar outra companhia do setor; contudo, papéis da companhia acumulam ganhos de 25% desde terça-feira
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - Um acordo de delação premiada bastante contestado pela população, o fato de ser alvo de sete processos na CVM, além de diversas operações da Polícia Federal, contestações sobre os números da companhia e o protagonismo da mais recente crise política no Brasil... O cenário, que já era complicado para a JBS (JBSS3), mostra desdobramentos cada vez maiores, o que levou a uma forte derrocada dos papéis na última segunda-feira (queda de 31% em apenas um dia).

Vemos uma tentativa de recuperação nos últimos dias na bolsa: de terça pra cá, a alta acumulada de JBSS3 chega a 25%, mas a cotação atual (R$ 7,50) está bem distante do fechamento da semana passada (R$ 8,71) ou do final de abril (R$ 11,05). Muitas dúvidas "bilionárias" sobre os balanços e os acordos de leniência ainda são os principais pontos de preocupação dos analistas, mas um questão bem mais cotidiana tem ganhado forças nos últimos dias: um "boicote à JBS".

Nesta quinta-feira, o jornal O Globo destacou que as principais redes de varejo do País iniciaram uma espécie de alerta no setor de alimentos em razão da crise da JBS. Elas buscam, entre os concorrentes da empresa, produtos alternativos para repor as gôndolas. Isso porque a avaliação nessas redes é de que a crise do grupo após a notícia da delação dos donos da companhia Joesley e Wesley Batista  pode ter impacto na percepção dos consumidores.

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Nas redes sociais, a menção ao boicote à JBS aumentou e teve como uma das apoiadoras a cunhada de Michel Temer, Fernanda Tedeschi, irmã mais nova da primeira-dama Marcela. Ela divulgou em seu Instagram um vídeo que circula nas redes sociais com grande repercussão e que pede aos brasileiros que deixem de comprar produtos do grupo empresarial.  "Vamos fazer os irmãos Batista sentirem no bolso", pede o locutor no vídeo.

O potencial impacto sobre a marca já começa a aparecer nos seletos relatórios de análises feitos por grandes bancos de investimentos.Os analistas Isabella Simonato e Fernando Olvera, do Bank of America Merrill Lynch, escreveram: "o ambiente competitivo para carnes processadas no Brasil pode aumentar no curto prazo em razão das investigações em andamento do grupo J&F. A JBS é controladora da Seara e tanto ao acesso a financiamento como a relação com os fornecedores, clientes e consumidores finais podem ser afetadas".

A reportagem do jornal O Globo também ressalta que as redes varejistas já entraram em contato com os concorrentes da JBS para aumentar a produção. No caso da carne in natura, as conversas ocorreram com os frigoríficos Minerva (BEEF3) e Marfrig (MRFG3). Para a Região Norte, o alerta foi dado ao Frigon enquanto que, na Região Centro-Oeste, a conversa envolveu o Frigol. Já no segmento de carnes processadas, BRF (BRFS3), dona de Sadia e Perdigão; Aurora e cooperativas do Paraná e Santa Catarina já foram avisadas para aumentar a produção. 

"Uma cliente virou para mim e disse que não iria comprar carne da Friboi. Se o cliente diz que não quer, o supermercado tem de atender. Por isso, já estamos alertando a indústria para aumentar o volume de produção, porque eles precisam se preparar. A BRF não vai conseguir aumentar a produção de carne de hambúrguer do dia para a noite. Estamos chamando os principais concorrentes e alertando, porque a JBS deve ter queda nas vendas em vários segmentos", disse o diretor de vendas de uma grande varejista ao jornal. 

Beneficiárias
Neste cenário de incertezas para a JBS, os analistas do BofA elegeram a BRF como a que mais deve se beneficiar, ressaltando a preferência por ela no setor. "Nós acreditamos que a BRF apresenta a melhor relação risco-retorno dentro do setor de alimentos da América Latina dada a incerteza política e macroeconômica brasileira", aponta o banco americano.

Além do ambiente competitivo mais favorável, a desvalorização do real, a queda dos custos de alimentação do gado e o valuation abaixo da média histórica são fatores que pesam a favor.

A BRF também vive um cenário bastante complexo, com a divulgação de sucessivos balanços ruins em meio à associação de um difícil cenário macroeconômico e estratégias equivocadas, que levaram à perda de participação de mercado. A companhia tem agido para se reestruturar e a crise da JBS pode dar um "empurrãozinho" nesse novo cenário para a companhia. 

Impacto na marca é marginal - por enquanto
Por enquanto, a avaliação é de que o impacto sobre a delação sobre a competição é ainda marginal. Conforme destacou o Valor Econômico, apesar das campanhas de boicote à JBS, a Seara (uma das marcas do grupo) não é uma marca facilmente atrelada à empresa dos Batista - diferentemente do que ocorre com a Friboi, que pode sofrer maior impacto. Porém, no médio prazo, a imagem da Seara pode ser contaminada, ainda mais em um cenário de retração da estratégia de marketing dela - e que pode abrir um flanco para a BRF.

Além disso, o BofA faz um lembrete importante. Em julho desse ano, todas as restrições aplicadas pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) acabarão. Como resultado, a BRF poderá relançar a Perdigão em todas as categorias e, mais importante, lançar novas marcas.

"Em nossa opinião, esta deve ser uma ferramenta muito importante para a empresa para proteger seu espaço, participação de mercado e oferecer diferentes marcas para os clientes. Como Sadia e Perdigão são marcas mais premium, acreditamos que a BRF deve lançar uma ou mais marcas de valor local", afirmam os analistas do BofA. Desse modo, avaliam, a BRF poderia eventualmente começar a recuperar a sua participação de mercado uma vez que arranjaria uma carteira mais diversificada.

A avaliação das campanhas de boicote à JBS ainda são preliminares e devem começar a ser avaliadas nos próximos meses. Contudo, vale ressaltar que esse engajamento contra a companhia é mais uma das notícias negativas para o grupo. Enquanto isso, a BRF pode se beneficiar desse cenário. 

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br