"Não comprem de mim": não parece, mas esse é o bom motivo para a Petrobras ter elevado os combustíveis

Apesar da significativa expansão das importações de combustíveis, a Petrobras decidiu subir os preços em abril - e isso sugere os próximos passos que a companhia dará
Blog por Lara Rizério  

SÃO PAULO - A chegada de Pedro Parente na Petrobras (PETR3;PETR4), em maio do ano passado trouxe bastante empolgação para o mercado. Entre outros tantos fatores para ânimo, os investidores ficaram na expectativa por uma maior clareza na metodologia de reajuste de combustíveis - uma vez que a pressão por preços mais baixos de combustíveis pelas gestões anteriores havia afetado e muito as métricas da estatal, com destaque para o aumento do seu endividamento. 

Pedro Parente chegou, a metodologia dos reajustes foi anunciada no final do ano passado e confirmou a animação do mercado, com a nova política tornando-se mais transparente e norteada por três fatores básicos: o preço do petróleo no mercado internacional (incluindo gastos com transporte e taxas portuárias), uma margem para lucro, impostos e proteção de riscos, como variações na cotação do dólar e, por fim, a preservação do nível de participação no mercado e a garantia de que os preços nunca fiquem abaixo do praticado no exterior.

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O anúncio de reajuste ou manutenção dos combustíveis passou a ocorrer mensalmente, com a companhia sempre destacando fatores como a oscilação no mercado internacional, o mercado de câmbio e ajuste na competitividade do mercado interno. Porém, os últimos reajustes intrigaram alguns analistas, que apontaram alguns motivos por trás dos últimos anúncios da Petrobras. 

"Em 31 de março, a Petrobras deixou os preços do diesel e gasolina inalterados nas refinarias, quando esperávamos uma redução de preço no diesel. Em 20 de abril, a empresa novamente elevou os preços dos combustíveis apesar de um prêmio de 7% sobre as importações de diesel, o que justificaria um corte de preços de 2%", apontam os analistas do Bradesco BBI, Filipe Gouveia e Osmar Camilo. 

Esse movimento pode parecer estranho, mas não é por acaso, ressaltam os analistas do banco. De acordo com eles, este movimento da empresa ocorre como um reforço de seus planos para sair gradualmente de um papel monopolista no segmento de refino do Brasil. 

Assim, o aumento dos preços nas suas refinarias poderia dar um incentivo econômico para importadores de combustível, uma vez que há um prêmio de 11% nos preços do diesel no mercado local sobre os preços internacionais. A estatal informou recentemente que não irá mais assegurar uma oferta de 100% para o mercado brasileiro. Além disso, ela tem encorajado os distribuidores a comprar combustíveis de outros ofertantes, de acordo com o que afirmou Leonardo Gadotti, presidente da Sindicom (sindicato das distribuidoras de combustíveis), em entrevista recente à Reuters. Gadotti frisou que a iniciativa da petroleira está em linha com o seu reposicionamento, que busca dar espaço para novos atores, estimulando o livre mercado.

Além do estímulo à maior concorrência no mercado, há outro fator para a petroleira sair de campo quando o assunto é o segmento de refino. Gouveia e Camilo apontam que a estatal pretende se tornar uma empresa mais orientada para a exploração e produção de petróleo e, portanto, faz sentido para a empresa deixar espaço para outras fontes de abastecimento de combustíveis para distribuidores.

Próximo passo: venda de ativos
O próximo passo seria então a alienação de parte de seu negócio de refino, que é vista desde o começo do ano por diversas casas de análise como um dos catalisadores para a companhia nos próximos meses. O UBS destacou esperar avanço nas tratativas para a venda de refinarias nesse segundo trimestre, enquanto o BTG Pactual, já em janeiro, havia apontado a importância de uma maior competição no setor para atrair mais investidores dentro do Brasil (confira mais clicando aqui) e levar a essa venda. 

 Conforme destaca o Bradesco BBI, a venda de parte do negócio de refinarias seria um "game-changer" para a empresa, protegendo a política de reajuste de combustíveis e acelerando o processo de desalavancagem da estatal.  Em relatório recente, os analistas destacaram quatro potenciais complexos que poderiam estar à venda, com um valor entre US$ 8 bilhões e US$ 39 bilhões. O melhor candidato para a venda seria o de São Paulo representando cerca de 40% da capacidade total da refinaria e preço de US$ 25 bilhões. Outros que estão no radar são: Minas-São Paulo (com um valor de US$ 34 bilhões), Minas-Paraná (valor de US$ 39 bilhões) e Minas-Rio (valor de US$ 8 bilhões). De acordo com os analistas, o calendário para o negócio parece nebuloso, mas eles esperam avanço nos negócios para os próximos 18 meses.

Em meio aos próximos passos para a estatal, os analistas continuam positivos sobre a empresa a médio e longo prazo, com base numa estrutura de capital mais equilibrada, uma melhor regulamentação e riscos limitados para a empresa. O preço-alvo para os ativos preferenciais é de R$ 20,00, com a recomendação outperform.

Assim, se a companhia seguir com sua política de preços e também prosseguir com a venda de ativos, avançando nas refinarias, o otimismo para a estatal pode ser confirmado - mais uma vez. 

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br