Túnel do Tempo: o que te falta para ter CORAGEM de investir em ações?

Dedicação para estudar empresas e paciência de "esperar" o longo prazo chegar; no mundo das ações, ter coragem é bem diferente de ser destemido - e talvez isso explique porque conhecemos mais histórias tristes do que "finais felizes" na Bovespa
Blog por Thiago Salomão  

São 10h de uma quinta-feira, mas a Bovespa não vai abrir: o feriado de Corpus Christi trouxe uma trégua para os investidores brasileiros. Mas o Túnel do Tempo continua operando normalmente, relembrando toda quinta-feira uma matéria especial feita no InfoMoney.

Hoje trago a vocês um dos textos que mais tive prazer em escrever. Ele retrata de uma forma bem simples que a Bolsa de Valores irá te tratar da mesma forma que você encara ela - se você for um "apostador", ela vai te ver assim e seu resultado certamente será desastroso. Dedicação para estudar empresas e paciência de "esperar" o longo prazo chegar: no mundo das ações, ter coragem é bem diferente de ser destemido - e talvez isso explique porque conhecemos mais histórias tristes do que "finais felizes" na Bovespa.

Aproveite a leitura e bom feriado!

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SÃO PAULO - "A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem". A frase pertence a um dos poemas de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Mal sabia este autor de tantos romances voltados à vida do sertão que uma de suas obras serviria de inspiração para um adepto amante do mercado financeiro.

Mas afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra? Explico: ao longo dos mais de 6 anos de InfoMoney, que além da cobertura frenética e diária do mercado de ações também me brindou com dois MBAs de Mercado Financeiro (um concluído e outro em andamento), um CNPI (Certificado Nacional do Profissional de Investimentos) e diversos cursos, livros, entrevistas e palestras, aprendi que aplicar uma parte do patrimônio em ações é a forma mais inteligente de rentabilizar seu capital em um horizonte de longo prazo.

Mas quem demora 6 anos para aprender isso? Talvez 6 horas já são suficientes para convencer qualquer leigo sobre o quão atrativo é investir na renda variável. O que aprendi nestes quase 72 meses é que o investidor sabe quais são as vantagens de aplicar na Bolsa; o que lhes falta é simplesmente dar o primeiro passo desta longa caminhada, que parte da "zona de conforto" e vai até a independência financeira. Resumindo em uma palavra: o que falta é, justamente, coragem.

Há quem discorde disso e utilize como réplicas algumas frases que eu preferia não chamar de "clichês" para não denegrir o argumento, mas a frequência com a qual costumo ouvi-las me impede de classificá-las de outra forma: "Bolsa é um cassino e eu não gosto de risco", "já conheci muita gente que era podre de rica e perdeu tudo na Bolsa", "Bolsa é muita manipulação e especulação", "os 'tubarões' fazem o mercado subir e cair quando querem e nós 'sardinhas' pagamos a conta" etc.

Não tiro a razão destes pessimistas. Afinal, todos esses argumentos são verídicos: sim, o mercado de ações possui riscos; sim, muita gente transforma riquezas em ruínas na Bolsa; e sim, a especulação e até a manipulação está presente no cotidiano da Bovespa. Mas para todos estes argumentos, costuma trazer a seguinte tréplica: o que este investidor buscava na Bolsa? Uma forma de proteger o patrimônio e aplicar de pouco em pouco em diversas ações para assim diversificar o risco e obter um retorno no longuíssimo prazo? Ou uma maneira de ficar rico quase que instantaneamente, colocando todo o dinheiro em um ou dois papéis para acertar um "golpe de gênio"? Em outras palavras, esse investidor tratou a Bovespa como uma aplicação de longo prazo ou como um cassino?

A conclusão que podemos chegar é: a Bovespa pode ser um cassino ou uma forma "conservadora" de montar um patrimônio de longo prazo. Quem vai decidir a maneira de encarar este mercado é você.

Engana-se quem pensa que ter coragem na Bolsa é aplicar todo seu capital em uma ação, podendo enriquecer ou perder tudo em um único trade: quem age na Bovespa como um viciado em jogatina demonstra não só um comportamento patológico como também "medo" de aplicar em uma seleção de empresas que, no futuro, pode trazer um retorno bastante satisfatório - seja pela valorização de suas ações ou pelo retorno em dividendos distribuídos ao longo do período. É preciso "culhões"para estudar a vida de uma empresa e montar um plano de investimentos, administrando emocionalmente a volatilidade que o mercado de ações apresentará durante este percurso.

Basta pegar os exemplos dos grandes vitoriosos deste mercado: Warren Buffett, o maior investidor de todos os tempos e um dos cinco homens mais ricos do mundo, sempre defendeu a ideia de comprar uma empresa e não uma ação, com o intuito de mantê-la em carteira pela vida toda. No Brasil, Luis Barsi passou de um pobre engraxate a um dos maiores investidores individuais da Bovespa aplicando a simples ideia de comprar ações "baratas" ao longo dos meses e esperar que no futuro devolvessem esse capital investido sob forma de dividendos. Ambos inclusive costumam aumentar suas fichas em ações justamente no momento em que o mercado está em queda - é o famoso "comprar na baixa para vender na alta".

Talvez isso explique por que conhecemos muito mais histórias tristes do que felizes no mercado de ações: o processo de autodestruição na Bolsa é muito mais rápido do que o de enriquecer no longo prazo. Dedicar-se por anos em um investimento em ações e administrar os momentos de volatilidade do mercado para buscar um retorno positivo após longos anos é uma tarefa árdua e que nos exige... coragem.

E aí? Como você vai encarar o mercado de ações daqui pra frente?

 

Link original da matéria: http://www.infomoney.com.br/series/investir-na-bolsa/entrevista-2.asp

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Perfil do autor

É editor de Mercados do InfoMoney e analista CNPI-P (analista técnico e fundamentalista, certificado pela Apimec). Trabalha há 6 anos no InfoMoney. Graduou-se em Administração de Empresas pelo Mackenzie, já acompanhou mais de 200 horas de cursos sobre mercados de ações. Possui MBA em Mercado de Capitais pela Fipecafi e MBA de Mercados Financeiros para Jornalistas pela UBS/BM&FBovespa. thiago.salomao@infomoney.com.br