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Eleições Americanas: “brace for impact”?

Donald Trump venceu as eleições americanas  em uma das maiores "zebras" políticas da história da humanidade. Por que algo tão inesperado aconteceu? O que esperar daqui para frente?

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Trump
(Shutterstock)

“If you don’t read the papers you’re uninformed. If you do read them, you’re misinformed.”, (Se você não ler os jornais você é desinformado. Se você ler, é mal informado.), Mark Twain

Ric Elias, fundador e CEO da Red Ventures, empresa americana de marketing digital, sobreviveu à queda do voo 1549 no Rio Hudson em Nova Iorque no ano de 2009. Em um famoso vídeo TED Talk ele relata o acontecido e como a experiência mudou radicalmente sua vida.

"...dois minutos depois três coisas aconteceram ao mesmo tempo. O piloto alinha o avião com o Rio Hudson. O que não é a rota normal. Ele desliga os motores. Agora imaginem estar em um avião sem barulho. E então ele diz três palavras, as três palavras mais impassíveis que já ouvi. Ele disse, preparem-se para o impacto."  

Tirando o fato de que o discurso de Ric Elias é profundamente inspirador, recomendo a todos assistirem, ele deixa claro que as três palavras mágicas "brace for impact" (preparem-se para o impacto) que ouviu mudaram sua vida. Em poucos segundos teve tempo suficiente para refletir sobre as prioridades de sua vida e tomar a decisão de mudá-la radicalmente.

A elite política e econômica global teve seu momento "brace for impact" na semana passada com a vitória de Donald Trump nas eleições americanas. Tempo para refletir terão, mas será que tal evento vai gerar uma mudança de atitude?

Os Republicanos mantiveram ambas as casas legislativas e Donald Trump venceu as eleições americanas  em uma das maiores "zebras" políticas da história da humanidade. Hillary Clinton era tida como favorita com probabilidade de vitória superior a 75%, confirmados tanto por pesquisas nos dias que precederam as eleições, assim como nas pesquisas "boca de urna" no dia D.

Tamanho choque deveria ser suficiente para incentivar o "establishment" a não só  refletir a respeito da sustentabilidade do modelo politico-econômico vigente, bem como implementar mudanças estruturais necessárias para uma melhorar a distribuição de riquezas na sociedade. Conforme discutido no último artigo publicado nesta coluna da Infomoney - Eleições Americanas: “Fasten your seatbelts.", estudos empíricos mostram que, nos últimos 30 anos, houve aumento no retorno do capital investido, fruto da globalização. Ao mesmo tempo, a distribuição de riquezas foi realizada de forma desbalanceada entre as diferentes classes da pirâmide social. Detentores de capital se beneficiaram de melhor retorno sobre capital investido ao passo que trabalhadores da base da pirâmide não aferiram os mesmos benefícios. Samuel Pessôa tece comentário a respeito do assunto em seu artigo publicado, neste Domingo 13/11/2016, na Folha de São Paulo:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2016/11/1831895-nova-era-de-fechamento-dos-mercados-pode-estar-a-caminho.shtml

"A grande globalização produziu inúmeros ganhadores. Os maiores foram os habitantes da Ásia, continente com 1/3 da humanidade, que experimentou fortíssima queda da pobreza. De fato, testemunhamos nas últimas décadas a maior redução de pobreza da história. Outro grupo de ganhadores foram os ricos dos países do Atlântico norte. A enorme ampliação dos mercados propiciada pela globalização aumentou a escala de diversas empresas e explica em parte, ao menos, os ganhos exorbitantes de presidentes de corporações e do mercado financeiro... O grande perdedor da globalização foram os trabalhadores das classes médias dos países desenvolvidos. Não conseguem competir com a produtividade do trabalhador asiático. No setor de serviços desqualificado, sofrem com a competição dos trabalhadores latinos."

Enxergamos um movimento de amplitude global onde as pessoas “we the people” voltam se revoltar e reivindicar o poder de volta e tentam mudar o rumo de suas vidas. Ambos o BREXIT e a eleição de Donald Trump foram um inequívoco basta às políticas globalistas, aos devaneios dos tecnocratas de “Davos” e suas medidas excessivamente coercitivas às soberanias nacionais, burocráticas e regulatórias. A falta de confiança com o sistema “status quo” é latente. Podemos certamente comparar esse evento à queda da Bastilha ou qualquer outro marco histórico que apontou para uma mudança de regime “regime change” iminente. A revolução com armas de outrora, hoje se faz através da mídia social (twitter, facebook, blogs, youtube, whatsapp, etc.). A opinião das elites não é mais hegemônica como no passado. Os instrumentos da mídia tradicional perdem cada vez mais sua força, amplitude, e poder.

O que esperar daqui para frente?

Devemos testemunhar os movimentos contra o “establishment” ganhar força do outro lado do Atlântico. O contágio de um evento de tal magnitude tende a ser implacável. Começando pelo referendum sobre mudanças constitucionais na Itália em 04 de Dezembro deste ano, passando por eleições na Holanda em Março, França em Maio e Alemanha em Setembro do próximo ano. Qualquer um desses eventos ou uma combinação deles pode ser o estopim de um processo explosivo na Europa (imigração, falta de crescimento econômico, problemas no sistema bancário, alto nível de regulação vindo de entidades não democráticas).

E Donald Trump... Será o “bicho papão” que foi pintado por praticamente todo mundo?

Muito cedo para se concluir com alto nível de confiança, mas se eu tivesse que dar um palpite escolheria o caminho do meio. O discurso de vitória buscando uma conciliação pode ter sido uma pista. O fato de ser um empreendedor, “homem de negócios” e bom negociador pode ser um potencial ativo em sua administração. Não acredito que irá rasgar suas principais promessas de campanha, mas pode implementá-las com certa moderação, até porque vai precisar de apoio do Congresso na maioria delas. Apesar dos Republicanos controlarem o Congresso, apoio não é líquido e certo, não custa lembrar que muitos congressistas de seu partido vacilaram em determinados momentos de sua campanha.  Além disso, saber delegar é geralmente características de empresários bem sucedidos, se Trump optar por dar autonomia aos demais membros de seu time (Mike Pence, Dr. Ben Carson, Chris Christie, Newt Gingrich, Michael Flynt, Rudy Giuliani, Jeff Sessions entre outros) a emenda pode sair melhor que o soneto. André Jakurski, um dos mais respeitados investidores do Brasil e fundador da JGP, que administra R$ 10 bilhões em recursos de clientes, comentou a respeito desta possibilidade em entrevista dada a Geraldo Samor publicada neste Domingo 13/11/2016:

http://braziljournal.com/andre-jakurski-a-era-trump-e-o-brasil

"Se ele for o chairman [dos EUA], isso é melhor do que se ele for o CEO…  Ele tem que simplesmente delegar, arbitrar conflitos e escolher as pessoas certas.  Se fizer isso, ele será uma imagem pálida do que foi o Ronald Reagan, que todo mundo achava um imbecil, um canastrão que não tinha dado certo em Hollywood e foi um dos melhores presidentes dos EUA. As credenciais não favorecem, mas tudo pode acontecer, inclusive coisas boas, porque lá, como você sabe, existe uma máquina: o Estado funciona, não importa quem esteja no comando."

De tudo que foi divulgado com relação às políticas públicas, por Trump e sua equipe, existem medidas com potencial impacto positivo, bem como medidas com potencial impacto negativo na economia americana e global. O importante será o resultado final dessa queda de braço entre essas medidas. No próximo artigo da série Eleições Americanas, discutiremos cada uma dessas medidas e seus respectivos impactos em potencial nos preços de ativos no Brasil e no mundo.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

perfil do autor

Cid Oliveira

Cid Maciel Monteiro de Oliveira CEO e sócio-fundador da startup invest.pro, Cid tem 18 anos de experiência, tendo atuado em instituições financeiras e gestoras no Brasil e no exterior. Graduou-se em Engenharia Civil pela UFRJ e concluiu mestrado em Finanças pela Manchester University na Inglaterra

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