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Estouro da bolha criará diversas oportunidades - mas é preciso disciplina para aproveitar

O ano acabou, mas as experiências ficam. Neste texto faço uma pequena retrospectiva de 2018 e aponto quais são as oportunidades e riscos para 2019.

Bolhas
(Reuters)

O ano de 2018 acabou e não vai deixar saudades para os investidores. Quedas nos principais índices bursáteis nos EUA, com o pior desempenho desde a Grande Crise Financeira de 2008. Dezembro coroou tal desempenho, com o pior dezembro desde 1931!
 
Isso não deveria ser novidade para os leitores desse blog. Há tempos estou alertando para o que poderia ser “o começo do fim” e venho recomendando uma baixa alocação em risco, principalmente nas ações das FAANGs (Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google), um aumento da posição em caixa, puts (opções de venda) e um pouco de ouro.
 
A maior parte dos investimentos que aloquei em ações esse ano foram concentrados no setor de urânio, commodity que teve uma apreciação significativa de cerca de 40% desde as mínimas em 2018. Apesar dessa alta, sigo ainda mais confiante do que nunca na tese de investimento e acredito que essa pode ser mais uma boa oportunidade para aqueles que possuem alta tolerância a volatilidade.
 
Esperava um fortalecimento do dólar americano esse ano por causa da repatriação de recursos nos EUA, algo que acabou se concretizando. Não tenho expectativas direcionais para o dólar em 2019, contudo sigo recomendando a todos que tenham uma parte do patrimônio nessa moeda, que viabiliza investimentos diversos em vários mercados, além de prover uma excelente diversificação e proteção aos brasileiros que têm todos os recursos, poupança, residência e renda no Brasil – sem mencionar, é claro, a segurança jurídica.
 
Meu foco é investir onde vejo valor e não há hoje, na minha opinião, mercado que apresente maior valor do que o de urânio. Certamente o estouro da bolha vai nos proporcionar várias oportunidades em outros setores e classes de ativos, mas será preciso muita disciplina e autocontrole para aproveitá-las. Na minha opinião, cautela e paciência são requisitos essenciais para os investidores obterem sucesso, especialmente em 2019.
 
O ouro, metal de que gosto pela segurança e capacidade de servir como reserva de valor, funcionou exatamente como deveria nos momentos de crise no final de 2018.
 
Esse ano foi interessante, com o crash da maior bolha de todos os tempos, o bitcoin (e as criptomoedas em geral). Essa certamente merecerá um capítulo especial nos livros de história. Escrevi incessantemente sobre elas em 2017 e vi praticamente todas atingirem um pico em janeiro e registrarem em dezembro perdas acumuladas entre 80% e 100%.

Fiquei de fora dessa bolha e fui criticado por isso, mas não vi valor em uma moeda virtual que valia quase US$ 20 mil em meio a vários desafios à frente (para quem quiser ver minha análise, vale a pena revisitar o post de 23 de janeiro de 2018, que acabou marcando o auge da bolha). Acredito que é melhor ficar de fora do investimento da moda, quando infundado, do que entrar nos últimos minutos e arcar com a conta toda.

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Bitcoin, a super-tulipa da era digital, era (e ainda é) uma bolha tão grande, que hoje, após ter caído mais de 80% desde as máximas, ninguém mais quer comprar – para quem gosta de finanças comportamentais, está aí um prato cheio. Havia fila de pessoas querendo comprar a moeda virtual a US$ 20 mil, mas ninguém agora a quer, embora esteja abaixo de US$ 4 mil.
 
Ainda não vimos o estouro de algumas bolhas, como a de fundos passivos e a de dívidas corporativas e empréstimos alavancados, mas os riscos estão aumentando. Aliás, um dos riscos que vimos em 2017 era o da baixíssima volatilidade e das consequentes altas dos índices acionários.

O trade amplamente empregado até então consistia em shortear (vender a descoberto) a volatilidade e comprar bolsa. Vimos o que pode acontecer quando a volatilidade volta a aparecer.

O exemplo mais emblemático foi o fundo do Credit Suisse, chamado de XIV, que apostava contra a volatilidade e estava entregando bons resultados todos os anos, apesar do alto risco embutido. Em 2018, em apenas 2 pregões, o fundo perdeu praticamente todo o seu patrimônio e foi encerrado.
 
Os investidores fizeram o que eu chamo de pegar moedinhas à frente de um trator – se der tudo certo, a pessoa sai com algumas moedinhas no bolso, o que não vai mudar muito a vida dela; mas, se algo der errado, o trator passa em cima. De fato, muitos investidores estavam (e ainda estão) desatentos aos riscos presentes no mercado hoje e ainda vejo muita gente procurando moedinhas por aí. Longos períodos de baixa volatilidade levaram os investidores a subestimar o risco, devido à modelagem e abordagem estatística. As consequências disso serão sentidas.
 
A maior parte dos riscos que enxergava ano passado ainda estão aí, começando pelo Ocidente: Grécia, um país quebrado, sobre o qual ninguém fala mais, mas cujos problemas estão piores que antes; Espanha, com seus problemas separatistas internos e bancários; Itália na mesma página, ou seja, com problemas separatistas (com relação ao euro) e bancários; Inglaterra com o Brexit; Alemanha tendo que lidar com o Deutsche Bank que, segundo o FMI, representa o maior risco sistêmico ao mercado financeiro, com uma posição em derivativos 8x maior que o PIB da Alemanha; além de renovadas tensões entre os Estados Unidos e Rússia/Ucrânia.
 
No lado oriental, temos os tradicionais problemas no Oriente Médio, com guerras na Síria e Iêmen, tensões no Irã e Arábia Saudita e problemas na Turquia. Além disso, com a queda no preço do petróleo, a situação russa dificilmente melhorará, assim como a dos países que dependem das divisas dele para equilibrarem os pesados orçamentos públicos. Obviamente essa situação também se aplica ao gás de xisto, nos EUA.
 
Há ainda uma bolha absurda nos setores bancários e imobiliários na China, com os quais ninguém parece se importar, além do tradicional, crescente e elevadíssimo índice de endividamento japonês, que atingiu 253% do PIB.
 
Bolhas imobiliárias imensas na Austrália e Canadá, que começam a mostrar sinais de fadiga – as propriedades nas grandes capitais australianas já começaram a cair e isso certamente afetará a economia (para quem quiser ver nossa análise sobre isso, favor visitar o post de 28 de fevereiro de 2018).
 
Nos EUA, vejo espaço para o desapontamento dos números de PIB do último trimestre e o início de um bear market nos maiores índices acionários. A Apple, primeira empresa na história a atingir um Market Cap de US$1 trilhão, já perdeu mais de um terço do seu valor desde a máxima e está cotada em cerca de US$ 700 bilhões, semelhantemente ao que aconteceu com outra queridinha do mercado, a Amazon.
 
Com o aumento na taxa de juros nos EUA e o final do QE (quantitative easing) na Europa, alguns bonds estão, devagarinho, retornando aos níveis em que deveriam estar. Mencionei os títulos soberanos de Portugal e da Argentina no ano passado como anomalias, mas eles, a seu tempo, estão voltando aos níveis esperados (P.S.: ainda falta um bocado pra chegarem lá).
 
O ano de 2018 foi marcado por reversão de expectativas, com o início do fim da “bolha de tudo”. 2019 será, sem dúvida, um ano a ser lembrado. Prudência e paciência farão a diferença.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

 

perfil do autor

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Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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