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A oportunidade de uma década

Eu já escrevi aqui sobre o urânio e o potencial de elevação do preço deste metal. Agora segue uma atualização sobre o setor. Eu não apenas permaneço otimista em relação à minha análise anterior, como também tenho aumentado substancialmente minha exposição. A oportunidade está na nossa frente. Aqueles que têm a coragem de agir e lidar com a volatilidade agora podem ser recompensados absurdamente nos próximos anos.

sítio de extração na Sibéria, Rússia
(Clara Ferreira Marques/Reuters)

Eu já escrevi aqui sobre o urânio e o potencial de elevação do preço deste metal. Agora segue uma atualização sobre o setor. Eu não apenas permaneço otimista em relação à minha análise anterior, como também tenho aumentado substancialmente minha exposição.

O preço do urânio está em declínio há muitos anos e atingiu um patamar insustentável a US$ 20 por libra. Nesses níveis, a busca por novos depósitos está praticamente parada e a construção de novas minas não é nem mencionada. O preço à vista está muito abaixo do custo de produção da maioria das minas do mundo.

price_producers

Como podemos ver no gráfico acima, o consumo anual atual é de cerca de 170 milhões de libras. Contudo, a exploração só é lucrativa para preços superiores a US$70 por libra, o que por si só representa um aumento de preço de mais de 200% do ponto onde estamos agora.

Mas antes de começar a falar sobre a oportunidade, é importante saber por que os preços estão tão baixos e por que eles permaneceram assim por tanto tempo. Não vou falar sobre Fukushima, o programa de desarmamento e a ascensão do Cazaquistão como grande produtor, porque já o fiz em meu artigo anterior.

Desta vez falarei sobre os reatores nucleares, as empresas que compram o urânio, e por que elas não estão buscando assinar contratos de fornecimento de longo-prazo... ainda.

Como se pode facilmente inferir a partir dos preços atuais e pela falta de empolgação das concessionárias, donas dos reatores nucleares, em assinar contratos de longo prazo, há muito estoque disponível. Estimativas de consultores profissionais do setor apontam para um estoque atual de cerca de 1,8 bilhão de libras de urânio, ou seja, o equivalente a quase 10 anos de consumo, ceteris paribus.

Alguém poderia pensar que isso é demais e provavelmente pararia de investigar, mas eu decidi ir um pouco além e tentar descobrir qual é o estoque realmente disponível por aí.

Os governos têm cerca de 1/3 do volume total, sendo que a maior parte consiste de rejeitos, que exigem um preço muito mais alto para poder ser convertido e usado. As concessionárias têm cerca de 53% e mantêm guardado, em média, o correspondente a 3 anos de consumo. Não entrarei em detalhes aqui, mas os estoques chineses e japoneses são bastante elevados, enquanto os europeus nem tanto. Além disso, parte desse total está no pipeline para ser enriquecido. Finalmente, os traders detêm cerca de 10 a 15%.

Então, se olharmos mais atentamente para esse estoque aparentemente imenso, notaremos que há apenas 365 milhões de libras em excesso. Isso definitivamente não é pouco, mas aqui há outra distinção importante: o que está prontamente disponível e o que não está. Depois de visitar muitas empresas e conversar com analistas experientes no setor, acredito que apenas 10% disso (se isso) está realmente disponível para comercialização e/ou uso imediato. Além disso, é bom saber que, em um mercado em ascensão, essa disponibilidade se reduz com o tempo.

A Cameco, segunda maior produtora do mundo, já anunciou em sua última teleconferência que buscará no mercado a commodity para comprar e honrar os contratos em aberto, haja vista a inviabilidade financeira de se produzir e vender nos patamares de preços atuais. Na teleconferência, os executivos foram enfáticos ao dizer que descobrirão então o quão grande é esse mercado e quanto eles efetivamente conseguem comprar. Nós só temos que esperar pra saber.

A propósito, acredito que McArthur River, maior depósito de alto teor de urânio do mundo, permanecerá fechado por um bom tempo, já que o preço não subiu e a empresa pareceria tola se reiniciasse uma mina depois de apenas 10 meses de "parada de manutenção". Aqui está um grande risco para o mercado: se a Cameco retomar o McArthur River em outubro, poderemos ver uma queda nos preços do urânio, já que o sentimento pode ser bastante afetado. A decisão deve ser tomada nos próximos meses, então saberemos até lá.

Como podemos ver, as empresas de geração de energia atômica têm muito pouco incentivo para entrar no mercado e assinar contratos de longo prazo com os produtores de urânio, já que têm estoques para os próximos anos e são capazes de comprar mais no mercado à vista por cerca de US$ 20 por libra. Além do mais, nenhum produtor assinará um contrato de longo prazo para entregar urânio a um preço inferior a US$ 40.

Mas não assinar um contrato de longo prazo agora significa que os reatores ficarão com sua demanda “descoberta” depois de alguns anos, o que criará uma tempestade perfeita: preços baixos, baixa produção, estoques baixos e demanda mais alta (a China está construindo quase 1 reator a cada 7 semanas!).

É importante notar que a baixa produção é consequência do fechamento de minas, de menos projetos (se houver) entrando em operação e de minas sendo colocadas em parada de manutenção. Esta é uma situação diferente de apenas haver aumento da demanda, uma vez que minas em operação podem aumentar a produção com relativa facilidade, mas as fechadas e paralisadas podem levar muitos anos para voltar a produzir.

Essa combinação poderia causar uma "corrida" dos donos de reatores na tentativa de assinar contratos de longo prazo para garantir suas necessidades de urânio. Os preços podem subir quase verticalmente, já que o custo da commodity é pouquíssimo relevante para as geradoras de energia, de tal maneira que as despesas com advogados provavelmente superam os desembolsos com a compra do metal. De qualquer forma, precisam de uma fonte confiável para continuar operando.

A oportunidade está na nossa frente. Aqueles que têm a coragem de agir e lidar com a volatilidade agora podem ser recompensados absurdamente nos próximos anos.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

 

perfil do autor

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Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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