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“Todo brasileiro deveria investir um pouco em dólar”, diz especialista

Como todo brasileiro tem gastos com produtos importados que estão ficando cada vez mais caros com a alta do dólar, também faria sentido ter ativos internacionais na carteira de investimentos para compensar esse aumento de despesas

Dólar
(Shutterstock)

(SÃO PAULO) – Quando monto sugestões de carteiras de investimentos para meus alunos, geralmente costumo indicar ativos ou fundos que se valorizam com a alta do dólar a dois tipos de poupadores: aqueles que planejam realizar uma viagem internacional nos próximos meses ou as pessoas que sonham em se mudar para outro país nos próximos anos. Mas em uma conversa recente com Gustavo Pires, gerente de fundos de investimentos da corretora XP, saí com a impressão que subestimo (e muito) o número de clientes que deveria receber uma sugestão expressa de comprar ativos que se valorizam com a alta do dólar. Para Pires, “todo brasileiro deveria investir um pouco em ativos em dólar”.

A explicação dele é que todo brasileiro tem gastos com produtos importados que estão ficando mais caros com a alta do dólar. Uma das primeiras lições que se aprende em qualquer MBA em finanças é sobre a importância de casar ativos e passivos. Se uma empresa ou pessoa terá mais despesas em dólar, é importante neutralizar isso aumentando as receitas em dólar. E, para a maioria dos brasileiros, a forma mais simples de fazer isso é colocar na carteira de investimento alguma aplicação que se valorize com uma eventual alta do dólar. “No carro de todo brasileiro há peças que são importadas – isso se o carro todo não vier de fora. Quase todo mundo consome trigo, azeite, vinho e outros bens importados. Isso tudo está ficando mais caro. Então você não concorda que faz sentido para qualquer brasileiro ter ativos internacionais para que seus ganhos aumentem junto com as despesas se o dólar subir?”, questiona Pires.

Mas o que faz todo sentido na teoria nem sempre sobrevive à prática. Pires diz que na XP clientes com perfil muito conservador não recebem orientação para comprar ativos com exposição internacional. Ele diz que o percentual ideal de alocação em dólar varia de acordo com o perfil do investidor: conservador (zero), moderado (5% da carteira), moderado-agressivo (10% da carteira) e agressivo (20% da carteira). Ele explica que a exposição internacional faz sentido para qualquer brasileiro do ponto de vista financeiro, mas afirma que a corretora só não inclui investimentos em dólar nas carteiras dos conservadores porque esses portfólios têm como premissa básica nunca apresentar rentabilidade negativa ao longo de um mês completo. Como o dólar é um ativo que pode cair 10% ou 15% em um mês, é melhor deixá-lo de fora desses portfólios para não ferir essa premissa básica. Outro conselho de Pires é para aproveitar os bons momentos de entrada – ou seja, tentar comprar ativos internacionais quando o dólar estiver mais baixo.

E por que pouquíssimos brasileiros investem em ativos internacionais? As carteiras dos brasileiros costumam ser bem diversificadas, com títulos de renda fixa, ações, fundos de investimento, previdência e fundos imobiliários. Mas raramente existe exposição internacional. Na verdade, menos de 2% de todo o dinheiro dos fundos está investido lá fora. Pires diz que o investimento no exterior não é óbvio nem para gestores profissionais porque um CDI a 14,13% ao ano é difícil de ser batido. Em outras palavras, se o investidor brasileiro pode ganhar mais de 14% ao ano sem risco, por que vai correr o risco de câmbio e de mercado em outro país que geralmente pouco conhece? Trata-se de um claro desestímulo. Ele lembra, no entanto, que o atual momento favorece esse tipo de alocação porque o dólar em meio a um ciclo de alta pode potencializar o investimento no exterior.

Menor burocracia

A principal razão para a baixa exposição a ativos internacionais dos brasileiros é a burocracia. A maior parte da população ainda acha que é preciso enviar o dinheiro ao exterior para ter ativos atrelados ao dólar. Nesse caso, seria necessário fechar uma operação de câmbio (pagando comissão à empresa de câmbio), realizar uma remessa de dinheiro ao exterior (pagando uma taxa) e recolher o IOF (alíquota de 0,38%, paga à Receita Federal). Também seria necessário ter conta bancária no exterior e provavelmente abrir uma empresa que deteria esse patrimônio como forma de escapar do elevado imposto sobre heranças em países como os EUA. Com tantas regras, hoje só faz sentido ter conta no exterior para o brasileiro que deseja morar em outro país, manter o dinheiro lá fora por vários anos ou décadas ou possui um patrimônio de alguns milhões de reais e quer ter uma diversificação internacional permanente.

O que poucos brasileiros sabem é que é muito mais fácil investir em fundos que possuem ativos no exterior ou em dólar. A opção mais simples e que está na prateleira de todos os grandes bancos são os fundos cambiais – que se valorizam quando o dólar sobe, e vice-versa. Mas há muitas outras opções de fundos que permitem investir em Bolsa ou em renda fixa no exterior, seja nos EUA, na Europa ou na Ásia. Pouca gente investe nesses fundos porque as regras da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) são muito rígidas. Mas a partir de 1º de outubro haverá uma grande flexibilização. Hoje fundos de investimento que investem mais de 67% dos recursos no exterior exigem aplicação inicial mínima de R$ 1 milhão. A partir de outubro, os investidores habilitados a aplicar nesses fundos precisarão ter um patrimônio de ao menos R$ 1 milhão em aplicações financeiras, mas o investimento inicial nesse tipo de fundo poderá ser tão baixo quanto R$ 25.000 ou R$ 50.000. Outra medida importante é que qualquer fundo de varejo poderá investir 20% do dinheiro no exterior. E fundos de BDR (recibo de ações de empresas americanas ou europeias negociados na Bovespa) passam a ser abertos a qualquer brasileiro – hoje só investidores qualificados (com R$ 300.000 em aplicações financeiras) podem acessar esses produtos.

A partir de 1º de outubro, também é esperado que haja uma enxurrada de fundos com exposição internacional desembarcando no Brasil. O lançamento de novos produtos deverá ser gradual, mas constante. Instituições como JPMorgan, BNP Paribas e Deutsche Bank já estão trabalhando com fundos em fase de testes e trarão produtos que são oferecidos lá fora para o Brasil, segundo Pires. Outras grandes gestoras como a Pimco e a BlackRock também estudam o lançamento de novos produtos. A expectativa é que dentro de alguns anos o mercado brasileiro seja mais parecido com o mexicano ou o chileno, onde os investidores locais possuem boa parte de suas economias investida em ativos internacionais.

O que comprar?

Mas o que comprar lá fora? Hoje as opções mais comuns são os fundos cambiais (que seguem muito de perto a variação do dólar), o ETF de S&P (negociado na Bovespa sob o código IVVB11 e que oscilam de acordo com o S&P e o dólar), os fundos de BDR (que pagam a variação das ações de empresas americanas ou europeias negociadas na Bovespa mais a oscilação cambial) e os fundos de crédito privado (títulos de renda fixa negociados no exterior). Pires diz que aos poucos o Brasil deverá começar a receber mais fundos de títulos de renda fixa ou ações europeias e japonesas.

Para Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a América Latina, ter exposição a ativos internacionais faz muito sentido para latino-americanos neste momento em que as principais economias da região sofrem com a queda das commodities. Ele diz que o grande benefício de ter uma carteira diversificada geograficamente é conseguir neutralizar o impacto negativo de um cenário adverso ou até mesmo lucrar apesar da uma tendência ruim no mercado local. “Os países asiáticos, por exemplo, se beneficiam da queda das commodities porque são importadores líquidos de matérias-primas. Então faz sentido para um latino-americano investir parte do dinheiro na Ásia”, diz ele ao InfoMoney.

Do ponto de vista de moedas, o estrategista-chefe da BlackRock continua a enxergar uma tendência de valorização do dólar. Já no mercado acionário, ele vê com bons olhos o investimento em empresas japonesas ou europeias. A visão positiva sobre a Europa se sustenta pela solução ainda que provisória da crise grega e dos efeitos positivos da desvalorização do euro sobre as exportações alemãs. Ele também diz que as ações na Europa e no Japão não estão caras apesar da valorização nos últimos anos. As empresas japonesas são negociadas, na média, por múltiplos inferiores aos das últimas décadas. Os lucros das companhias cresceram mais rápido que a valorização dos papéis na Bolsa japonesa. No caso da Europa, as ações estão mais caras do que estavam há um ano por causa das medidas de relaxamento monetário, mas a BlackRock acredita que as duas regiões estão mais baratas que os EUA, onde os papéis já estão um pouco acima dos níveis históricos.

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perfil do autor

João Sandrini

É Diretor do InfoMoney. Atua como planejador financeiro com CFP® (certified financial planner), analista de ações com CNPI (certificado nacional do profissional de investimento) e membro da Comissão de Educação ao Investidor da Anbima. Possui 18 anos de experiência em mercado financeiro como jornalista, professor e assessor na montagem de carteiras de investimento. Graduou-se em Jornalismo pela ECA-USP e concluiu dois MBAs em Finanças pela FIA.

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