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Uns poucos espertos

Há sempre dois caminhos: o correto e o fácil.

Executivo
(Shutterstock)

Há vários anos me mudei da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro para a maravilhosa cidade de São Paulo, pelo qual sou apaixonado. Vim trabalhar em um banco australiano para fazer algo que ninguém fazia no Brasil até então. Lembro-me perfeitamente de toda a ‘ralação’, no bom sentido da palavra, para poder, de forma ética, oferecer um serviço inédito e com muito custo ganhar a confiança do mercado até que eu pudesse auferir louros deste esforço. Bem, essa pequena história, do menino pobre que galga degraus maiores na carreira por mérito próprio, pode ser contada por outros milhares de pessoas honestas neste país nas mais diferentes atividades e profissões.

Acontece também que em todas estas profissões e atividades, existem aqueles que optam pelo caminho fácil e rápido, pela trajetória duvidosa do ponto de vista ético, pelo tal “jeitinho” que está tão inserido na cultura local e, sem dúvida, no meu mundo de mercado financeiro isso não é diferente. Só para citar uma um único representante do lado negro da força (que Darth Vader me perdoe pois este, pelo menos, tinha elegância), queria apresentar aos leitores o chamado INSIDER TRADER.

Segundo o Wikipedia – só para tomar uma referência amplamente conhecida – a definição de insider trading é: “... a negociação de valores mobiliários baseada no conhecimento de informações relevantes que ainda não são de conhecimento público, com o objetivo de auferir lucro ou vantagem no mercado.”.

Bom, só pelo conceito fica claro de que se trata de algo não-ético, chegando a limiar de poder ser considerado crime*, e que com certeza, traz desequilíbrios na lei de oferta e demanda e na formação de preços, e, consequentemente, na equidade das oportunidades de investimento. Estas informações privilegiadas podem ser dos mais diferentes tipos: um resultado inesperado, uma mudança na linha de produtos/serviços, uma investigação policial repentina e até mesmo a saída de um executivo relevante da empresa. Independente do tipo de informação, o modus operandi a ser seguido por esses poucos “espertos” é o de analisar se tal notícia teria um impacto positivo ou negativo para o mercado e logo em seguida realizar operações nos ativos direta e indiretamente impactados, muitas vezes em nomes de terceiros com o intuito de dificultar qualquer forma de rastreamento por parte das autoridades competentes, conseguindo assim, vantagem indevida perante os demais participantes do mercado.

Em geral, os casos mais emblemáticos encontram-se no mercado de ações, onde é mais fácil manipular preços de um ativo específico ou mesmo só antecipar movimentos que serão tomados pelo mercado inteiro quando da divulgação oficial do fato ignoto. É na negociação do ativo em si, ou de um derivativo como mercados futuros ou opções, que em geral se homiziam as provas da artimanha, sendo os efeitos mais contundentes e os lucros mais rápidos se o news flow se apresentar ao público “bobo” enquanto o mercado estiver aberto, ou seja, durante o período de negociações do pregão.

Tendo dito isto, ponho me a conjecturar que estrago não poderia ser feito e quanto lucro não poderia ser obtido por esses pouco “espertos” (na minha terra, poderíamos escrever eXpertos) se, em um determinado dia, durante o pregão, no caso de uma ação de altíssima liquidez, viesse ao mercado uma informação relevante que fosse positiva e, poucos dias depois - digamos três - uma notícia completamente contrária a anterior fosse trazida a tona, também com o pregão e as negociações em andamento a ponto de trazer um pânico inequívoco mas ao mesmo tempo desnecessário.

O leitor que me acompanha sabe que sempre tento traçar paralelos entre teoria e prática mas, para o texto de hoje, acho que vou parar por aqui, pois qualquer semelhança com a realidade seria uma mera coincidência, não é mesmo?

 

* deixo esta discussão para os homens de toga.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

 

perfil do autor

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Rafael Pacheco

Rafael Pacheco atua no mercado de capitais desde 2009. Formado em Engenharia pela POLI-USP, possui a Certificação Internacional de Planejamento Financeiro - CFP (Certified Financial Planner). Atualmente é sócio e assessor de investimentos na Monte Bravo.

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