O quanto a alta do dólar afetou nosso poder de compra?

Uma duvida que muitos Brasileiros têm é o real poder de compra da nossa moeda nos EUA. E não estou falando de taxa cambial, e sim de poder de compra. Entenda as diferenças entre taxa de cambio e preço de poder de compra.
Blog por Livia Mansur  

Hoje, sentada no saguão do aeroporto, não pude deixar de ouvir a conversa de 3 homens que discutiam sobre custo de vidas nos EUA, assunto bem comum por sinal. Um dizia que ganhar um salário de US$ 5 mil nos EUA era equivalente a ganhar uma salário de aproximadamente R$ 13 mil reais no Brasil, multiplicando o valor pela taxa atual de cambio. Já o segundo argumentou que não, ganhar US$ 5 mil nos EUA era equivalente a ganhar R$ 5 mil no Brasil, já que lá tudo era pago em dólar. Foi então que o terceiro, discordando dos amigos, afirmou que ganhar US$ 5 mil nos EUA era equivalente a ganhar mais do que R$ 13 mil no Brasil, já que o custo de vida lá era muito menor.

Se você nunca participou, certamente já presenciou uma discussão dessas. Para esclarecer esse assunto, gostaria de falar sobre as diferenças entre cambio, valor pelo qual a moeda de um país pode ser trocada pela de outro, e paridade do poder de compra, que é um método alternativo à taxa de cambio para calcular o poder de compra de dois países. No exemplo acima, o primeiro homem argumentou baseando-se na taxa de cambio. Os dois outros em uma tentativa de estabelecer uma paridade de poder de compra (PPC).

A PPC, que reflete o real poder de compra dos consumidores, costuma ser mais estável do que a taxa de cambio, que reflete não só a oferta e demanda entre os bens e serviços de dois países, mas também fluxo de investimentos internacionais, além de políticas monetárias. Vejam, por exemplo, o gráfico abaixo que representa a evolução da taxa de cambio e da paridade entre euro e dólar.

Esse gráfico mostra bem como o custo europeu é “caro” para um americano. Suponhamos que um americano decidisse viajar pra Europa em 2012, ele teria que gastar 1.300,00 dólares para comprar 1.000,00 euros. Só que, pela paridade, 1.000,00 euros estavam valendo o equivalente 1.200,00 dólares em paridade de poder de compra. O americano gastaria 1.300,00 dólares pra comprar na Europa o mesmo que 1.200,00 dólares comprariam nos EUA. E essa diferença pode ser maior ou menor ao longo do tempo.

Mas esse tipo de estudo não é nada fácil de ser feito, porque não é simples precificar produtos ou serviços de diferentes países sem ter certeza de que são do mesmo nível. Como não achei nenhum estudo desse tipo 100% confiável para a relação dólar/real, resolvi utilizar o Índice Big Mac da revista inglesa The Economist. Eles buscam medir a paridade de compra entre países através do custo do Big Mac, sanduíche do McDonalds produzido mundialmente com os mesmos ingredientes e, a princípio, exatamente a mesma qualidade. Obtive o gráfico abaixo com os valores disponibilizados pelo site da revista:

Como podemos observar, consumir nos EUA ficou barato pro Brasileiro desde 2007. 2011 foi quando a paridade ficou mais distante da taxa de cambio, favoravelmente para o Brasileiro. Mas com a recente alta cambial em 2014, as viagens internacionais têm pesado mais no bolso do Brasileiro, mas ainda sim, a paridade ainda é favorável para o Brasileiro.

Voltando à nossa história inicial, o terceiro personagem foi quem chegou mais perto de uma reposta correta. Como a paridade ainda está acima da taxa de cambio, US$ 5 mil provavelmente equivale a mais do que R$ 13 mil reais em poder de compra. Baseado, obviamente, no Índice Big Mac. Pra saber o valor exato, teríamos que ter um estudo mais profundo de paridade envolvendo não só alimentação, mas também outros bens de consumo e serviços.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

É especialista em alocação de recursos de clientes de alta renda e tem 10 anos de experiência no mercado financeiro. blogliviamansur@gmail.com