Crise e Oportunidade

“Fique temeroso quando os outros estão gananciosos, e ganancioso quando os outros estão temerosos”, Warren Buffet
Blog por Cid Oliveira  

Facilidade com números e gosto por resolver problemas de matemática e física influenciaram minha decisão de cursar engenharia. Outro ponto que me atraiu foi a versatilidade que a formação me daria na hora de procurar emprego depois de formado. Sabia que teria plenas condições de trabalhar em setores como construção, indústria, administração de empresas e até no mercado financeiro. Naquele momento, não tinha ciência que para seguir carreira no mercado financeiro seria mais proveitoso ter um entendimento profundo em psicologia humana e história (política, econômica e financeira) do que ser bom com números.

Não é novidade que o Brasil está passando por uma grave crise. As dificuldades são enormes em ambos os campos político e econômico. As decisões e medidas a serem tomadas, nos próximos meses, pelo dueto Executivo e Legislativo ao som da orquestra do Judiciário têm o potencial de mudar a trajetória descendente atual de forma a recuperar a confiança perdida ou afundar de vez nosso país na crise. O resultado é definitivamente binário.

O que fazer diante desse cenário incerto? Como investir sua poupança ou reserva financeira? Permanecer avesso a risco esperando a deterioração da crise ou buscar oportunidades de investimento que surgem durante crises que têm a capacidade de multiplicar seu patrimônio?

A severa deterioração nos preços dos ativos brasileiros nos últimos meses (moeda, juros, bolsa, títulos corporativos) mostra uma contínua perda de confiança e nos induz a um pessimismo crescente – uma verdadeira espiral negativa que impacta diretamente o ânimo do investidor (psicologia humana) e sua tomada de decisão.

Terry Burnham, em seu livro “Mean Markets and Lizard Brains, 2008”, revela causas biológicas de irracionalidade no comportamento humano. O nosso cérebro contém características e estruturas que exercem poderosas influências, muitas vezes não percebidas, em nosso comportamento. Algumas dessas influências, como por exemplo extrapolação baseada em reconhecimento de padrões repetitivos do passado, foram essenciais para a sobrevivência de nossos ancestrais, mas são literalmente desastrosas para nossa saúde financeira. Sua profunda análise empírica de dados financeiros do passado mostra porque é comum o comportamento bipolar de euforia e pânico dos mercados (ações, títulos públicos e privados, imobiliário, etc.). Seu estudo comprova também que nós, seres humanos, temos a tendência de querer comprar a preços irracionalmente altos e vender a preços irracionalmente baixos. Passando da teoria para a prática, Warren Buffet, um dos maiores investidores da história moderna, reduziu a conclusão desse estudo de forma extremamente concisa e objetiva: “Fique temeroso quando os outros estão gananciosos, e ganancioso quando os outros estão temerosos”.

No âmbito dos excessos na precificação de ativos brasileiros, salta aos olhos o que ocorreu no mercado de títulos corporativos de empresas brasileiras emitidos no exterior (“bonds”). A intensificação da crise, aliada ao rebaixamento do rating do Brasil pela agência S&P, intensificaram as vendas desses títulos. A falta de demanda no curto prazo e a liquidez limitada desses ativos catalisaram a abrupta queda de seus preços (aumento das taxas dos papéis).

 

Outro fator que influenciou negativamente o preço dos títulos é o fato de existir segmentação entre os mercados local e no exterior. O mercado de dívida emitida no exterior tem como participante relevante o investidor estrangeiro. No momento atual, esses investidores são, em sua maioria, vendedores. Ao passo que a maioria dos investidores do mercado de dívida privada local (debêntures, CDBs, Letras Financeiras, etc.) têm limites de exposição ou não podem acessar os títulos externos diretamente por restrição de mandato. Essa dinâmica de mercado gerou uma enorme distorção na precificação do mesmo risco de crédito entre o mercado local e o externo.  

Em janeiro de 2009, no auge da crise americana, Andrew Rabinowitz, diretor executivo da Marathon Asset Management, – uma das maiores e mais respeitadas gestoras de crédito dos Estados Unidos – afirmou: “...estamos vivendo uma das maiores oportunidades de comprar bons créditos a preços estressados. ”. Mesmo sem saber ou ter qualquer garantia que o mercado havia atingido o fundo do poço ou não, sua recomendação de investimento se provou lucrativa para quem investiu naquele momento.

A conclusão que tiramos é que houve uma distorção muito grande no preço dos títulos de empresas brasileiras de primeira linha emitidos no exterior. Não sabemos se atingimos o fundo do poço ou não, ninguém tem bola de cristal. No entanto, podemos afirmar com segurança que partindo da premissa que as empresas citadas acima não “quebram”, o investidor que adquirir os títulos nos preços atuais (descontados) e levar o papel a vencimento receberá não somente os juros (cupons) mas também o ganho de capital entre o preço atual e o valor do principal. O melhor de tudo é que hoje em dia o investidor nem precisa enviar o recurso para o exterior para ter acesso a esses títulos (“bonds”). Existem fundos de investimentos no Brasil dedicados à aquisição exatamente desses títulos que entregam seus retornos em dólar ou em reais de acordo com a opção do cliente.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Gestor de investimentos com 15 anos de experiência, trabalhou em bancos e gestoras de recursos e dedicou sua carreira a investimentos internacionais. É engenheiro pela UFRJ com Mestrado em Finanças pela University of Manchester.
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