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Eike não se parece com o capitão que abandonou o Costa Concordia?

Além de ter vendido parte de suas ações da OGX, Eike agora decidiu apelar a uma câmara de arbitragem para não ter de injetar US$ 1 bi na empresa como ele mesmo prometera

Costa Concordia - Itália
(Max Rossi/Reuters)

(SÃO PAULO) – Os desdobramentos da novela da OGX podem parecer tragicômicos para quem nunca investiu nas ações da empresa, mas não têm a menor graça para os acionistas minoritários. Eike Batista sempre se vendeu como um empresário a serviço do país, comprou como ninguém o sonho nacionalista do governo e aceitou se transformar na encarnação terrena da figura que simbolizaria um Brasil que dá certo. Pela ambição e pelo caráter desenvolvimentista de seus planos, chegou a ser comparado ao Barão de Mauá, ao líder chinês Deng Xiaoping e até ao candidato dos sonhos dos brasileiros para ocupar a Presidência da República. Mas em algum momento ele fez por merecer tudo isso?

Com a quantidade de informações disponíveis hoje, está claro que não. A comparação mais justa parece ser com o capitão do Costa Concordia que, logo após o naufrágio 13 de janeiro de 2012, abandonou o navio antes dos passageiros e tripulantes. Ao reduzir sua participação na OGX de 62% para pouco mais de 50% nos últimos meses e anunciar que vai apelar a uma câmara de arbitragem para não ter de cumprir sua própria promessa de injetar mais US$ 1 bilhão na empresa, o capitão Eike fez como Francesco Schettino: preferiu assegurar o próprio bem-estar antes de pensar nos demais passageiros do barco, os acionistas, ou na própria imagem perante a opinião pública.

O navio de Schettino era ocupado por 4.229 pessoas na fatídica noite em que foi a pique. Trinta e duas pessoas morreram no acidente e outras centenas ficaram feridas. Eike não matou ninguém, é verdade. Mas as feridas financeiras deixadas no bolso de cerca de 50 mil acionistas minoritários devem ter causado muita dor e infelicidade Brasil afora e deixarão cicatrizes no mercado financeiro por anos ou décadas.

Os sinais de imprudência também unem as duas biografias. Os promotores italianos dizem que Schettino causou o naufrágio por ter aproximado demais o navio das rochas que cercam a ilha toscana de Giglio para fazer uma saudação a autoridades e moradores locais. Eike também gastou muito tempo se exibindo para autoridades governamentais, comprando um terno de Lula em um leilão, gastando dinheiro com artigos de luxo como barcos e aviões, analisando a compra do SBT, investindo em barco que virará sucata ou recebendo Madonna para jantar em sua casa. A ambos faltou o foco sobre a missão primordial: zelar pela vida dos passageiros/sócios.

Schettino jura que nunca abandonou o navio. À Justiça italiana, ele afirmou que estava tentando fazer os passageiros entrarem nas embarcações salva-vidas quando escorregou e caiu sentado em um dos botes. Eike também é bom em desculpas esfarrapadas e sustenta a tese de que ninguém perdeu tanto dinheiro com a OGX quanto ele próprio – o que seria um sinal de que nunca houve má-fé nas divulgações de promessas irreais sobre a capacidade futura de produção da petrolífera.

Pela barbeiragem, Schettino foi chamado pela imprensa de “o homem mais odiado da Itália” e de “Capitão Covarde”. Já Eike ganhou dos acionistas minoritários alcunhas de “Fake Batista”, “Xeique Farrista”, “Peruca” e tantos outros.

A Justiça de São Paulo condenou as empresas Costa Cruzeiros e Costa Crociere a pagar R$ 345 mil a uma família brasileira que estava no navio Costa Concordia, que naufragou na costa da Itália em 2012. Dezenas de outras indenizações ainda estão em discussão na Justiça. Nesse quesito, Eike parece em situação melhor. Até agora nenhum acionista minoritário da OGX ganhou reparação judicial pelos prejuízos causados.

O capitão Schettino permanece em julgamento e pode ser condenado a 20 anos de prisão por homicídio culposo (sem intenção) múltiplo, abandono de navio e danos ao meio ambiente. Eike e outros diretores da OGX são investigados em processo administrativo movido pela CVM por falhas na divulgação de informações ao mercado. Considerando apenas o histórico de punições do órgão, pode-se cravar que é impossível que algum deles passe duas décadas preso.

Após abandonar o navio, Schettino teve de ouvir a célebre frase do capital da Guarda Costeira de Livorno, Gregorio Di Falco: “Vada a bordo, cazzo!”. Nada muito diferente do que se lê de acionistas minoritários no espaço destinado aos comentários nas reportagens do InfoMoney.

 

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