Furacões ou terremotos?

Será que tudo o que promovemos em termos de negócios, sobretudo no campo público, está corroído? Difícil encontrar resposta exata para essa pergunta, mas é fato que só existe um sinal positivo no arrefecimento da crise política: alguns otimistas esperam que a partir de agora o país possa se orgulhar com um pouco mais de certeza de suas instituições formais de justiça.
Blog por #épolítica  

Furacões podem durar semanas e percorrer quilômetros. No Brasil, o fenômeno se instalou na política e durou todo o primeiro semestre de 2015. Há quem diga que o pior já passou, e que parte do país notou que economicamente o fenômeno destruidor promoveu estragos que não podem continuar a ocorrer. O pior será sair de parte dessa catástrofe com o sentimento de que passar a nação a limpo a levaria à falência. Será que tudo o que promovemos em termos de negócios, sobretudo no campo público, está corroído? Difícil encontrar resposta exata para essa pergunta, mas é fato que só existe um sinal positivo no arrefecimento da crise política: alguns otimistas esperam que a partir de agora o país possa se orgulhar com um pouco mais de certeza de suas instituições formais de justiça. Duvido, mas me esforço para crer.

Quem lê o primeiro parágrafo desse texto precisará concordar, de forma bastante questionável, que a crise política está cedendo e que as investigações perderão o fôlego. Será que isso ocorrerá de fato? Há quem diga que no último domingo um número menor do que o registrado em manifestações de rua em março poderia ser um sinal de arrefecimento – não acredito no povo nas ruas como termômetro para isso, apesar de entender como relevante parte expressiva das manifestações populares. Não deixemos de lembrar que às ruas costumam ir minorias barulhentas que podem ofertar à sociedade uma falsa visão do sentimento de descontentamento. Assim, a esse tipo de movimento devem se somar as pesquisas de opinião pública, capazes de medir o que as maiorias barulhentas sentem. Nesse caso, o silêncio confirma o barulho, mostra que a insatisfação é infinitamente maior e que estamos diante de situação bastante negativa para o governo federal: mais de 70% dos brasileiros consideram o governo de Dilma Rousseff ruim ou péssimo – marca pior que o mais tenso instante vivido pelo ex-presidente Collor.

O atingimento desse volume morto leva o governo a reações como uma aproximação com o indecifrável, governista e pouco confiável Renan Calheiros e seu plano requentado, inviável (em muitos pontos) e confuso chamado de Agenda Brasil – algo criado de qualquer forma, ao estilo catadão, e sem visão estratégica e sistêmica. Algo que muda de acordo com reações e conversas. Começou com cerca de 20 pontos, passou por críticas, desapareceu com alguns, encontrou com Levy, ganhou mais de 20 e estacionou acima dos 40. Se tudo aquilo fosse levado adiante estaríamos prestes a fundar uma nova nação, vencendo desafios que há décadas estão estacionados e criando problemas difíceis de serem dimensionados. Fácil? Claro que não. Sobretudo diante de um Congresso bem pouco simpático. Assim, nem tudo o que está ali passa, e o pouco que pode passar pode ser bem menos do que o necessário. Nesse sentido, se a crise parece arrefecer, ou ceder, as razões são outras. Primeiro que ninguém aguenta passar três anos em ritmo político adverso alucinante. Segundo que empresários começaram a pressionar por estabilidade – falávamos disso aqui em meu post da semana passada. E diante de tal aspecto começam as pressões para afastar alguns empecilhos para o governo federal: o primeiro deles é Eduardo Cunha. O presidente da Câmara foi levado às cordas com o vazamento da informação de que Janot deve o denunciar ao STF. Por que ele em primeiro? Tempo para respirar! O furacão arrefeceria?

Pode ser. E isso daria tempo para o PT – um tempo que o PSDB teve em 1999 mas não aplacou as dificuldades e vitimou o partido nas urnas em 2002. Nesse caso, o PT está efetivamente morto para 2018? Difícil cravar isso com certeza, mas a fase é a pior. O partido acusa o PSDB de golpista, de pedir impeachment (que não é golpe), de estimular as manifestações e toda uma sorte de práticas que cansou de desfilar ao longo da década de 90. Enquanto isso tenta reorganizar a ação de movimentos sociais tradicionais e ir às ruas “em defesa da democracia”. O Instituto Lula divulga lista de clientes, busca transparência que pode soar como ameaça, e seu patrono fala em reerguer a legenda. Dilma vai mais às ruas, discursa em eventos que contam com falas atrapalhadas do “incompreendido” presidente da CUT e o governo solta campanhas publicitárias no tradicional tom de autolouvor. Faz alguns dias até Dilma foi lembrada pelo PT e apareceu no programa de TV – panelas bateram, mas ela estava lá. Seria a estratégia integrada para o partido se reerguer? Sim, afinal quem chega ao fundo do poço costuma ter a chance de tomar impulso batendo o pé.

Mas e a oposição? O PSDB flertou com o PMDB do Senado, mas Calheiros é mesmo “mais esperto” do que aqueles que tendem a confiar nele. Na Câmara os tucanos já perceberam que apostar em Cunha é risco demasiado. E depois de suas lideranças incentivarem as manifestações e falarem em impeachment, perceberam que nem sempre utilizam a mesma língua. A ficha caiu com cerca de 12 anos de atraso, num movimento que carrega consigo retardo igualmente deprimente em relação ao fato de se assumir claramente como posição, dar voz a Fernando Henrique Cardoso etc. O PSDB, timidamente e ainda de forma desorganizada, resolveu se assumir. O problema é que como legenda descentralizada, o fez de forma débil. FHC falou uma coisa, Alckmin outra, Aécio outra, Serra outra e até Cássio Cunha Lima se aventurou a pedir novas eleições e voltou atrás, assumindo que se expressou mal. Depois de algumas conversas o partido também parece se aproveitar do tempo: sinal de convergência? A questão é saber se o tempo que o país parece pedir para sua economia fará a legenda esperar por novo momento oportuno à saída de Dilma. Tal saída dificilmente, hoje, estaria ligada a uma renúncia. Se Lula disse que FHC não teria “essa honra” em 1999, Dilma também não terá. Voltemos ao impeachment: por qual razão? A qual custo? A tese vai perdendo força nesse instante (nesse instante!) - e o PSDB ganha tempo. E o tempo aqui é essencial para que o partido cumpra tarefa fundamental que, caso tivesse cumprido antes, teria vencido as eleições do ano passado: precisa ter um plano CLARO para o país. Precisa criar um gabinete sombra e divulgar alternativas. Algo infinitamente melhor do que foi anunciado em 2011, quando se criou um gabinete sombra que NUNCA funcionou de forma estratégica. O partido consegue?

Há quem aposte que não. E essa aposta vem, sobretudo, das legendas que entendem que em 2018 efetivamente vingará a tese da terceira via no país. Marina é frágil pessoal e partidariamente, e por mais que avance com seu partido, dará a luz a algo pequeno demais para vencer uma eleição. O PMDB então parece disposto a levar adiante a ideia da candidatura própria Seu tempo, no entanto, depende de maneira absoluta das Olimpíadas de 2016 – ou de uma saída de Dilma que não derrube Temer, ou seja, isso passa longe dos pedidos via TSE, que tende a caçar a chapa. O sucesso dos jogos pode catapultar Eduardo Paes a um posto relevante. Outras legendas não têm tanta visibilidade nesse instante, salvo o PDT, que parece se movimentar de maneira interessante. Suas chances são mínimas, mas incomodar é possível. Faz algumas semanas, em entrevista à Rádio Estadão, Cristovam Buarque afirmou que defende a tese de lançamento de candidatura próprio à Presidência da República em 2018. E essa semana parece que o possível candidato teria chegado. Os Gomes do Ceará, Cid e Ciro, desembarcam na legenda, restando saber com qual força e destacando que Ciro teve o PDT em sua chapa de 2002. Terceira via? Forte? Improvável, mas depois do furacão tudo começa a se desenhar. Há que diga, no entanto, que não estamos diante de um furacão, mas sim de um terremoto, que depois de algumas horas pode trazer novos tremores e até tsunamis.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com