Incerteza – palavra maldita

Em 1999 o início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso foi turbulento. A política cambial mudou e contrariou garantias eleitorais. A oposição, capitaneada pelo PT, pediu impeachment, clamou por renúncia e convocou para as ruas. Lula e Dirceu disseram que o melhor era ver o PSDB sangrar até 2002. Em certo sentido foi o que aconteceu.
Blog por #épolítica  

A história do capitalismo mostra que a palavra INCERTEZA cobra preços altos. A insegurança jurídica e a instabilidade do ambiente econômico costumam ser fortemente penalizados. Indicadores associados à realidade do mercado e a história não costumam contrariar essas afirmações. Na história recente de nosso país três períodos chamam a atenção. A relação de tais instantes com a política é direta. A economia fraqueja ou aponta ambiente de incertezas, quem costuma pagar é o governo, ou o grupo que está no poder.

Em 1999 o início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso foi turbulento. A política cambial mudou e contrariou garantias eleitorais. A oposição, capitaneada pelo PT, pediu impeachment, clamou por renúncia e convocou para as ruas. Lula e Dirceu disseram que o melhor era ver o PSDB sangrar até 2002. Em certo sentido foi o que aconteceu. O segundo mandato de FHC foi tachado de apagado. Ficou a impressão de que crises internacionais e dificuldades internas emperraram o país até a eleição presidencial seguinte. Eis aqui o segundo capítulo dessa reflexão.

O ano de 2002 começou com Lula liderando as pesquisas. Outros dois candidatos seriam lançados por partidos de esquerda, a despeito de suas posições individuais e do desgaste de taxações ideológicas. O PPS trouxe Ciro Gomes e o PSB Anthony Garotinho. Serra (PSDB) foi o nome escolhido pelo governo, e muitos afirmam até hoje que a dupla PSDB-PFL (hoje DEM) perdeu seus principais nomes para o destino – Mario Covas e Luis Eduardo Magalhães morreram em 2001. A percepção de que Lula seria o próximo presidente instabilizou os mercados. A insegurança, simbolizada pela atuação da atriz Regina Duarte na campanha tucana, foi uma das principais responsáveis pela elevação do risco país, desvalorização do Real, queda da bolsa e adensamento do ritmo inflacionário. O PT regiu com um documento onde nitidamente assegurava apego à lógica que ancora o capitalismo. Na Carta ao Povo Brasileiro, ao longo das eleições, garantiu “respeito aos contratos e obrigações”, e completou: “trata-se de uma crise de confiança na situação econômica do país, cuja responsabilidade primeira é do atual governo”. Ao término desse parágrafo negava que a responsabilidade pela instabilidade era do processo eleitoral. Mas era. E a fórmula foi tão eficiente que o PT a exportou para partidos de esquerda no continente. Os peruanos viram a “Carta ao Povo Peruano” com a vitória de Ollanta Humala em 2011. Mas voltemos ao Brasil.

O mesmo PT que pediu impeachment, renúncia, povo nas ruas em 1999, e culpava o governo federal pela crise de confiança e instabilidade de 2002, venceu as eleições e desde 2003 governa o país. E passou a conviver, a partir de 2015, com um oposição que optou tardiamente por acordar. Parecia mais preocupada com as pesquisas e descrente das próprias convicções – se é que elas existem. Até março de 2013, quando Dilma gozava de quase dois terços de satisfação (63% de ótimo e bom) tudo parecia mais difícil. Como ser oposição? Simples: com convicção. Mas não foi isso o que ocorreu. E o PSDB assistiu aos manifestos de junho daquele ano sem poder ir às ruas, pois perdera a legitimidade comum a qualquer oposição que oferta alternativa para uma nação. Resultado? Com um bordão associado à lógica do “muda mais” e mais de 70% de brasileiros pregando o desejo de mudança, Dilma foi reeleita. De que forma?

Nas urnas. De maneira legítima, contra parte de uma sociedade que mais parecia insatisfeita com ela do que desejosa de Aécio. O problema é que a vitória veio expressando a mais tradicional forma de os governantes fazerem campanha nesse país: vendendo fantasias. Para completar, voltamos àquela frase de 1990 do então governador de São Paulo, Orestes Quércia, que para eleger seu sucessor “quebrou o banco do estado”. Foi o que ocorreu? Dilma quebrou o país para se eleger? Sim, ao menos é o que dizem os especialistas em contas públicas. O “problema” é que o Tribunal de Contas da União também assistiu esse movimento. Somam-se a tal aspecto processos no Tribunal Superior Eleitoral e escândalos de corrupção investigados de forma pouco vista no país. A oposição, antes silenciosa, passou a repetir a mescla de 1999: renúncia, impeachment e convocação do povo para saída às ruas. Essa é a política, e a democracia em nada é atingida quando pessoas se expressam.

O equilíbrio essencial está na capacidade de as instituições formais não cederem a pressões e discursos radicais. Organismos de justiça devem manter o equilíbrio em relação ao que pedem partidos, cidadãos e movimentos em geral. Não podem ceder às paixões, mas também não devem deixar de considerar a razão dos fatos. A saída do PT do poder está distante de ocorrer. Não será assistida em semanas como dizem os opositores e tampouco será “sossegada” como foi o desalojamento de Collor. Mas as vozes que ofertam a Dilma 71% de rejeição como presidente não podem se calar se desejam vencer os pleitos futuros, assim como seus defensores têm pleno direito de se manifestarem. Assim, a incerteza do mercado reside exatamente nesse ponto: o país derrubará a presidente? Como? De forma legal? A saída será tranquila? Que tipo de movimento teremos? A nação tem fôlego para sangrar politicamente por três anos? O excesso de perguntas mostra que vivemos efetivamente o mundo das incertezas, a palavra amaldiçoada pelo mercado. A punição é clara: inflação próxima da casa dos 10 pontos, moeda em declínio e bolsa em baixa. Com um agravante: o cenário parece muito mais complexo. A questão não é apenas dar uma resposta positiva para o mercado como em 2003, mas acenar com mudanças estruturais efetivas nos rumos econômicos do país. Nesse campo os resultados são incertos: o mesmo governo que, aos bons olhos do mercado, colocou o respeitável Levy na Fazenda, reduziu as metas de superávit. É possível confiar? Levamos o país por três anos? Novas perguntas... novas incertezas... Mais punições?

 

Humberto Dantas escrevre semanalmente no #épolítica
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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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