Fosse 2012 diferente e a história em São Paulo-SP seria outra

O PSDB não tem o hábito, em São Paulo, de oxigenar a construção de novas lideranças. Se tivesse lançado uma alternativa nova em 2012 na cidade, e muito provavelmente a alocado no governo do estado depois de derrotada, hoje o agente seria deputado federal ou estadual eleito em 2014 e forte postulante ao cargo de prefeito em 2016.
Blog por #épolítica  

Em 2012 escrevi um texto logo após a vitória do PT na cidade de São Paulo apontando que o PSDB cometera um erro estratégico. O partido não tem o hábito, em São Paulo, de oxigenar a construção de novas lideranças. Desde a década de 80 até aquele momento os paulistanos só haviam votado, em cargos do Poder Executivo, em Covas, Serra, FHC e Geraldo Alckmin. A exceção era uma apagada campanha de Fábio Feldman nos anos 90 à prefeitura da capital. O argumento central ia de encontro a colocações de membros do próprio PSDB, dentre eles Fernando Henrique Cardoso.

Em 2014 o PSDB permitiu ao eleitorado paulistano que fosse além das fronteiras estaduais e quase elegeu Aécio Neves presidente. Fosse um partido mais organizado como oposição e a história seria outra. Mas e na cidade de São Paulo? A história continua a mesma. E o argumento ainda é válido. Se o PSDB tivesse lançado uma alternativa nova em 2012 na cidade, e muito provavelmente a alocado no governo do estado depois de derrotada, hoje o agente seria deputado federal ou estadual eleito em 2014 e forte postulante ao cargo de prefeito em 2016. A estratégia de longo prazo seria bastante razoável: ser reconhecido como pivô de uma oposição clara ao atual prefeito. Isso por uma razão simples: Haddad parecia ser o petista com melhores condições de governar a cidade em relação à dupla Marta e Erundina. Mas não foi bem isso o que ocorreu, e o partido nunca reelegeu seu alcaide na cidade – o que ainda pode ocorrer, mas hoje as chances parecem remotas. Haddad tropeçou na crítica a uma dívida que ignorou nos debates, mas que o atrapalha bastante. Patinou na impossibilidade de aumento de tributos barrado na justiça e embicou numa resistência ao PT que em 2012 dera seus primeiros sinais claros. O prefeito só foi ao segundo turno na última semana de disputa, e ao longo de seu mandato foi ousado em algumas atitudes associadas à mobilidade urbana, mas truculento em ações e declarações que contribuíram para afastá-lo de uma parcela ácida do eleitorado. O conservadorismo do eleitorado paulistano costuma ser cruel, como mostra pesquisa recente da FESP-SP. O resultado: pouco tempo e recurso para Haddad reverter quadro de insatisfação amplo. E uma resistência ao seu partido, o que vai muito além de seu contestável governo, que também o prejudica.

Na esteira das incertezas eleitorais deixadas por um governo do PT mal avaliado e por um PSDB ausente o que sobra nesse instante para a capital? Russomano parecia reinar absoluto no campo das alternativas associadas ao recall do pleito passado. Pesquisas mostravam que era no defensor dos consumidores que o povo apostava. De cunho conservador e cercado pelo que existe de mais questionável em matéria de passado – a se mirar por seus companheiros de palanque em 2012 – o atual deputado federal fez a lição de casa. Manteve-se em evidência numa relevante emissora de TV e sem muita propaganda arrastou milhares de simpatizantes nas urnas em 2014. Seu problema é que o governo Haddad é tão questionável que fez (re)nascer postulantes que entendem poder ganhar esse jogo.

Em fevereiro Paulo Maluf disse que gostaria de ser candidato novamente, mas a despeito de conversas com o PSB e com o PSDB, e de o PP ter que explicar o envolvimento recorde de seu partido no rol político do petrolão, o polêmico e eleitoralmente inexperiente Datena surgiu como alternativa no campo mais conservador. Capaz de sensibilizar paulistanos em torno de um programa sensacionalista de TV o jornalista teria, inclusive, apostado em chapa pura. Seu vice seria o deputado estadual do PP, Delegado Olim. A fórmula é consagrada na legenda: sai Maluf, mas a ROTA continua “na rua”. Mas Datena e Russomano morrem abraçados? Tem conservadorismo para tanto candidato semelhante? A briga parece que vai além da audiência televisiva, e as pesquisas vão nos dizer algo em breve.

Enquanto isso, uma titubeante Marta Suplicy ressuscitou e despontou bem em pesquisas que mostram sua capacidade de roubar o eleitorado de Haddad. Mais uma peça de recall? Longe das urnas desde 2010 a senadora sentiu falta do jogo e reclamou de isolamento no PT. Beneficiada por decisão da justiça sobre fidelidade partidária saiu da legenda que a consagrou, mas conseguiu irritar o PSB em sua demorada filiação. Jogo de cena para se manter na mídia ou paquera com um PMDB que não sabe, como de costume, se casa ou compra uma bicicleta? Lançará o secretário de Educação da cidade como vice de Haddad? Lembremos que no segundo contra Serra em 2012, Chalita vibrava mais que o próprio candidato no palanque. Ou o PMDB terá candidatura própria com Marta na cidade? O eleitor que gosta de Marta em redutos petistas é capaz de engolir facilmente uma candidatura dela pelo partido? Difícil dizer, mas tudo indica que no limite, para 2016, já temos quatro candidatos competitivos, dois em cada polo de um combalido espectro ideológico. Faltaria, nesse caso, a definição da noiva das legendas: o central PSDB. Alguns falam em Serra de novo, mas o tucano parece bem posicionado no Senado, e sabe o quanto a eleição de 2012 lhe custou. Outros citam Aloísio, que não parece motivado, mas fez bem o papel de vice na campanha de Aécio. Fecha a lista aquele conjunto de possíveis nomes que começariam a campanha com algo em torno de, no máximo, 5% das intenções de votos. Fecha a relação a posição de Alckmin, que alguns afirmam que pode facilitar a vida do PSB se 2018 mostrar-se real na corrida presidencial. Em se tratando de São Paulo, fosse o PSDB de 2012 diferente e a situação seria outra, a despeito de ainda ser muito cedo.

Humberto Dantas escreve toda quarta-feira no #épolítica
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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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