Contagem para crise final: impeachment político e econômico

Nas últimas semanas os ambientes político e econômico do Brasil estão em profunda deterioração. A crise econômica abraça a crise política e ambas se reforçam mutuamente. Parece que o fim é inevitável. Apenas alguns meses nos separam de grandes comoções. Os erros do governo se avolumam, tanto na esfera política quanto na esfera econômica. As denúncias de corrupção e irregularidades se consolidam. O fundo do poço ainda não chegou. O momento é pouquíssimo auspicioso para o povo brasileiro. O que será de nós com o desenrolar de toda a crise, ainda dá pra ser otimista?
Blog por #épolítica  

Nas últimas semanas os ambientes político e econômico do Brasil estão em profunda deterioração. A crise econômica abraça a crise política e ambas se reforçam mutuamente. Parece que o fim é inevitável. Apenas alguns meses nos separam de grandes comoções.

De um lado, o Brasil dever ser rifado pelos mercados, perdendo o rating de grau de investimento. A nossa economia, depois de uma década em lua de mel com os mercados internacionais, tornar-se-á novamente um mercado especulativo, inibindo investimentos necessários de fundos de pensões mais conservadores.

De outro, os caminhos políticos e jurídicos para um até então inesperado impeachment da presidenta Dilma Rousseff passam a ser possibilidades viáveis, entrando no horizonte do cálculo político das principais lideranças políticas.

A crise econômica e a crise política abraçam-se como se fossem irmãs gêmeas queridas e filhas da mesma família. Uma não quer parar de andar do lado da outra, sempre abraçadas e a todo momento incentivando o mútuo crescimento.

 

TAL PAI, TAL FILHO

Quanto mais débil torna-se a capacidade de o governo propor e executar as medidas necessárias para a superação do governo, piores tornam-se as expectativas econômicas, o que impacta no mundo dos negócios e, por conseguinte, na vida das pessoas. Piores as expectativas econômicas, que já se traduzem em queda da produção industrial e na ampliação do desemprego, mais a imagem do governo é afetada, reduzindo o apoio, a popularidade ou mesmo a aprovação do governo.

Hoje o sentimento que toma conta de Brasília é de que o último que sair deve apagar a luz. As lideranças das principais instituições políticas (Poder Executivo e Poder Legislativo) parecem ter entrado em coma profunda. Poucas esperanças são depositadas na capacidade de ressurgimento do poder de proposição do governo e, sobretudo, na sua capacidade de estabelecer medidas que tirem o Brasil do enrosco econômico no qual a orientação da tal “nova matriz econômica” nos colocou.

Novos episódios indicam os grandes percalços que o povo brasileiro deverá enfrentar nos próximos meses.

 

CRISE ECONÔMICA

No final da semana passada, o otimismo do ministro da fazenda Joaquim Levy sobre a possibilidade de finalmente reformar o ICMS foi por água baixo. Enterrado pelo curto circuito político no qual o Planalto e o Legislativo entraram após as graves denúncias de que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, também é um dos investigados na Lava Jato.

Nesta semana a má noticia econômica da vez foi a incapacidade de a gestão Levy cumprir com o prometido em termos de boa gestão fiscal. Com a redução da meta de superávit para apenas 0,15% do PIB, o ajuste econômico que já era medíocre, torna-se patético. O ajuste que não era estrutural, remetendo a apenas cortes de benefícios trabalhistas e nas políticas sociais, torna-se ainda mais inócuo ao não garantir mesmo a existência de um superávit.

A tentativa de redução das incertezas de mercado causadas pelo excesso de intervenção e criatividade contábil do governo foi por água baixo. Está claro que Levy não possui os poderes (ou mesmo a capacidade) para cumprir com o que promete.

 

CRISE POLÍTICA

Do ponto de vista político, a coalizão de governo não existe mais e o governo não é mais tolerado por parte considerável do PMDB. O grito de guerra feito por Cunha na sexta feira, acompanhado no dia seguinte por um obscuro discurso de Renan Calheiros (presidente do senado) indica que o PMDB quer abandonar de vez o barco de Dilma.

E do ponto de vista institucional, cada vez mais a inventividade administrativa do governo o coloca de joelhos frente as instituições de controle horizontal. Além das próprias denúncias de corrupção levantadas pelas investigações da Lava Jato, cada vez mais o Tribunal de Contas da União mostra uma grande maturidade institucional e a disposição em rejeitar as pedaladas fiscais. O cenário é cada vez mais tenebroso para o governo. A sombra do processo de impeachment deixa de ser um movimento distante e disforme e parece a cada dia ganhar maior nitidez

 

 E O QUE RESTA DE NÓS

Diante de tal cenário tenebroso, só nos resta perguntar, e o que será de nós?

Estamos diante de dois mundos desconhecidos. As análises sobre as reações decorrentes da perda do grau de investimento do país e do impeachment de Dilma Rousseff não passam de meras especulações.

De um lado, as visões mais pessimistas indicam uma crise de enormes proporções que nos levará de volta para a década de 1980. A perda do grau de investimento afugentará capitais enquanto o impeachment de Dilma Rousseff tende a acionar um processo de deterioração das relações político-partidárias do país. Sobretudo se aqueles que ainda apoiam a presidenta estarem dispostos a se manifestar nas ruas das grandes cidades brasileiras.

Por outro lado, visões mais positivas entendem que estes eventos não serão tão traumáticos. A perda do grau de investimento já teria sido precificada pelos mercados, enquanto o impeachment de Dilma não significará um grande conflito político – partidário, mas sim a vitória das instituições de controle horizontal contra a endêmica corrupção que assola nosso sistema político.

O fato de o Tribunal de Contas da União estar se indispondo contra o governo, para os otimistas, não significa um conflito institucional, mas sim a inauguração de fato – e não só de direito – do republicanismo no país.

A Lava Jato e as Pedaladas Fiscais podem representar algo que nunca foi visto antes na histórica deste país: a punição exemplar de membros das elites econômicas e políticas que fazem uso das instituições públicas do governo representativo para o bem próprio e contra os interesses da sociedade.

Quem está certo? Ainda não é possível responder. Mas torcemos para que os otimistas estejam mais próximos da verdade.

 

 

Ivan Fernandes escreve toda sexta-feira no #épolítica

Curta nossa página no Facebook --> facebook.com/ehpolitica

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com